Hebraica

A notícia não é Bolsonaro, a notícia é a Hebraica. E a pergunta é: a Hebraica convidou Bolsonaro porque não sabia que ele falaria o que falou ou a Hebraica convidou Bolsonaro porque sabia que ele falaria o que falou?

Não se pode dizer que não foi avisada. Pelo contrário, a Hebraica do Rio convidou Bolsonaro após o cancelamento de evento semelhante pela de São Paulo, que só recuou em razão de protestos, vindos inclusive da comunidade judaica. Então, a Hebraica do Rio o convidou e aplaudiu calorosamente ao final.

Quando acontece semelhante situação, sempre somos tentados a interpretar os fatos a partir do Holocausto. E não há como ser diferente, porque, embora não seja o único genocídio da história recente nem tenha vitimado somente os judeus, essa obra do fascismo europeu ingressou no imaginário coletivo como a grande marca da perseguição de um povo, que deveria exorcizar para sempre qualquer tentação ao fascismo e aos discursos de ódio.

Daí o estranhamento.

Mas não é bem assim, porque também existe a Palestina com seus muros, existe a Cisjordânia e a Faixa de Gaza, existem setenta anos de remoção de palestinos de suas terras originárias, e isso não é pouco. Se ao início Israel era a terra dos kibutzes, pensada por um sionismo de esquerda, a política de colonização baseada em um Estado dos judeus, no qual a exclusão era pressuposto, excluiu da política judaica os antigos sonhos coletivistas e consolidou um Estado belicoso, que se isola e flerta com a extrema direita do mundo.

Esta foi a armadilha do projeto sionista: um estado religioso e excludente, em cujo mito fundador se encontra a conquista de Jericó, prometida por Javé e obtida com o massacre dos seus habitantes. É mero episódio bíblico e Israel não é o único estado que tem semelhante ideia fundante, mas é o que, por sua natureza religiosa, reafirma a cada dia o mito. O resultado não pode ser outro que uma permanente sensação de temor e insegurança

Em semelhante contexto, as mais importantes lições do Holocausto são abandonadas, e sua lembrança muitas vezes parece sobreviver apenas como um discurso justificador, da eterna vítima histórica, que utiliza esse lugar para legitimar todas as ações que pratica contra os ímpios que a ameaçam.

Por isso, nem ao menos comento o divertimento da plateia com as grotescas tiradas racistas e misóginas de Bolsonaro; lembro antes que, sob fortes aplausos, ele encerra seu discurso manifestando-se contra o acolhimento de refugiados.

Certamente esses aplausos não são ecos do Holocausto, mas têm muito a ver com o discurso que o originou.

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