Zeitgeist

Trago, dos tempos de estudante de ciências sociais e das leituras que então fazia, dois conceitos de ideologia: um é aquele que está lá em Marx, e indica uma falsa consciência resultante das relações de dominação; o outro, mais usado, e que alguns chamavam de significado fraco de ideologia, era o que dizia com um conjunto coerente de ideias, geralmente relacionado ao modo de inserção do indivíduo no mundo econômico ou, mais precisamente, à sua classe social. Por esse segundo conceito, todos têm uma ideologia, de regra identificada nas nuances de um espectro que se estende entre esquerda e direita.

Mas, se lembro daqueles conceitos e olho para o que hoje acontece, sinto que se tornaram inúteis, porque há muito tempo ideologia é uma coisa bem diferente. Modernamente, ideologia é algo que caracteriza os que são do contra. Não tenho a pretensão de criar um novo conceito sociológico, até porque essa minha descoberta é apenas intuitiva, mas tenho certeza de que o leitor saberá do que falo.

Ocorre que existe uma verdade revelada, o espírito do nosso tempo, que é ditado pela grande mídia e encontra sustentação na maior parte da nossa classe média, assumindo um valor universal, que, justo por ser universal, não é ideologia.

Universal é combater o crime de qualquer modo, ideológico é defender direitos humanos; universal é combater a corrupção, ideológico é buscar justiça social. E o pensamento universal não poupa nem nossa Constituição Federal, como se pode ver daquela charge em que a mãe xinga de comunista a professora que ensinou a seu filho que devemos construir uma sociedade livre, justa e solidária; garantir o desenvolvimento nacional; erradicar a pobreza e a marginalização e reduzir as desigualdades sociais e regionais; promover o bem de todos, sem preconceitos de origem, raça, sexo, cor, idade e quaisquer outras formas de discriminação.

Na verdade, a Constituição de 1988 já não corresponde ao espírito do nosso tempo, e por isso deixou de ser universal. A Constituição é ideológica e precisa ser esvaziada.

A regra número um de quem tem a visão universal do mundo é lutar contra o ideológico, que neste período histórico também assumiu feições bolivarianas.

Esta foi a grande razão para a classe média ir às ruas derrubar o governo. A corrupção, elemento essencial no discurso universal, foi um motor importante na mobilização, mas não sua causa real, mesmo porque nem o mais ingênuo dos defensores do impeachment sustentará que a corrupção acabou no Brasil e que os novos condutores da Nação são a encarnação da honestidade.

Mas a corrupção dos bolivarianos é mais grave, porque é dos bolivarianos, uma corrupção ideológica, e por isso justifica ir às ruas. A classe média foi em peso. Foi com as cores do Brasil e manifestou sua ira santa pelo resgate do universal, contra a impostura da ideologia.

Compartilhou nas redes sociais suas fotos verde-amarelas e festejou o impeachment. Participou de um golpe? Não, dizer golpe é ideológico. Como seu movimento foi universal, nada há a censurar. Quem, qualquer que seja sua profissão, mesmo agente estatal, foi às ruas e encheu seu Facebook de xingamentos aos bolivarianos, este exerceu na plenitude sua cidadania, manifestou-se de acordo com as regras que o espírito do nosso tempo tornou universais.

Mas ai dos ideológicos, aqueles que dizem ter sido golpe, esses terão de dar explicações às suas instituições.

O, tempora! O, mores!

A foto é de uma instituição universal e livre de corrupção.