Vinte degraus

Saio do Alim Pedro em direção à Praça Chopin. Lá adiante, descendo por detrás do Becker, caminha no mesmo sentido uma velhinha quase obesa, negra. Com a mão direita se segura nas grades, na esquerda um grande guarda-chuva preto serve de bengala. Talvez moradora do bairro, mais provavelmente usuária do Postão.

Me aproximo, vou passar, e a segunda hipótese se confirma no pedido de informação. Como tantos que saem do Postão e tentam atalhar para seu destino, perdendo-se nas ruas sinuosas do IAPI, ela procura a parada do Chácara das Pedras. Tem que dobrar à direita na Pistoia, nome que lembra a FEB na Itália. Não sei se o ponto mais próximo é na Brasiliano ou na Avenida dos Industriários, mas lhe aponto o sentido e sigo caminho.

Logo paro e volto alguns passos. A senhora quer um braço na escada? Ela vacila, depois aceita. Olho seu rosto, não é de uma idosa.

E descemos, um a um, os vinte degraus.

Ela fez cirurgia no joelho direito. Agora precisa fazer também no esquerdo. Não foi acidente: começou pouco depois dos trinta anos, e desde então só piora. O médico já disse que a cirurgia não vai funcionar se não botar prótese, mas na idade dela não pode. Hoje acaba o seguro, e não consegue marcar nova perícia pela internet, só dá erro. Por isso teve de vir ao Postão. Semana que vem tem de voltar.

Chegamos ao último degrau. Ela agradece, eu dou tchau.

Na foto do Google Maps, em que há mais lixo do que agora, os vinte degraus são 22.

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