Viajantes do tempo

Às vezes, em meus devaneios, imaginava a visita de alguma figura ilustre de passado aos nossos tempos. Via Kepler maravilhado, contemplando o céu com o Hubble, ou Da Vinci dando gritos de alegria enquanto pilotava uma asa delta, a barba esvoaçando ao vento. Em outro momento, tentava adivinhar a reação de Beethoven, equipado com moderno aparelho auditivo, num concerto cujo programa iniciasse com a Sagração da Primavera, seguisse com Schönberg e terminasse com a Metallica.

Fazia tempo que não trazia nenhum espírito do passado, e esta semana me surpreendi vendo Lord Keynes e Roosevelt repentinamente surgidos numa calçada da Avenida Paulista, nas proximidades da FIESP. Só que, neste caso, nossos personagens não têm tempo para se maravilhar – ou desapontar –, porque, logo reconhecidos, passam a ser hostilizados. Petralhas! Bolivarianos! Vermelhos! Como são meros espectros da minha imaginação, os dois personagens se desfazem no ar, e a multidão segue seu caminho, atenta para identificar quem mais mereça suas gentilezas.

Faz tempo que o capitalismo não precisa ser salvo dos capitalistas. Keynes e Roosevelt morreram nos anos 80, quando o capitalismo se emancipou do Estado. Não que este tenha perdido a utilidade, mas sua função mudou. Ou se preserva como a última instância. Wall Street viu isso em 2008, com o socorro do Tesouro americano às empresas grandes demais para quebrar. Já aquelas coisas antigas, como ocupar-se com saúde, previdência, educação, ou então a mania de interferir na economia, não fazem mais sentido.

A economia deve caminhar por suas próprias pernas, e o Estado só atrapalha. Ademais, tudo é mercado, e o Estado deve permitir que a riqueza se acumule. Por isso, não só o pré-sal deve ser entregue, mas a previdência deve ser privada, a saúde deve ser privada, tudo que possa ter valor deve ser privado.

A redução desse Estado perdulário, que, de modo antinatural, ousa competir com o mercado, segue, e penso no que mais possa ser terceirizado. Vejo, então, a polícia privada, a justiça privada, até mesmo o legislativo privado. De algum modo, tudo isso já existe: a segurança dos ricos é privada, demandas bilionárias entre corporações são resolvidas fora do sistema de justiça, os próprios capitalistas cada vez mais se elegem para legislar sem intermediários.

Haverá, no futuro, previdência e saúde públicas, ou mesmo polícia e judiciário públicos? Sim, haverá, sucateados e mal pagos, destinados à crescente massa miserável, que não se habilita a ser consumidora dos serviços privados.

Lembro que me divertia, nos anos 80, com a proposta de privatização das estradas e dos presídios, que Henry Maksoud fazia na sua revista Visão. Só podiam ser ideias de um lunático. Mas era isso mesmo, tudo o que existe pode ser privatizado, é só questão de momento e oportunidade. Quem antes imaginava a privatização da água? E depois da água, o que virá? A lua, os planetas?

Então, volto a sonhar, mas não são viajantes do passado que nos visitam; sou eu, chegando em algum lugar do futuro, e logo me prendem porque respiro sem pagar.