Uma fábula

Acredito que poucos discordariam hoje de que Dilma preside um governo enfraquecido. Isso vem de um bom tempo. Vivêssemos sob a forma parlamentar de governo e fosse Dilma a primeira-ministra, teria caído logo depois das eleições de 2014, quando se viu que não conseguiria montar uma maioria política no Congresso.

Mas, vivemos no presidencialismo e ela tem quatro anos de governo pela frente, certo? Errado.

As eleições foram o marco para o início de um movimento para sua exclusão do poder. Havia, graças à polarização política existente, pessoas dispostas a irem às ruas; havia uma perda de popularidade decorrente da crise econômica; havia algumas hipóteses a serem exploradas sobre a ideia de crime de responsabilidade.

Sim, a solução tinha de ser o impeachment.

Motivo? Ah, motivo a gente acha. Alguma coisa deve haver com a Petrobrás. Se não for a Petrobrás, deve haver com a prestação de contas da campanha. Se não houver com as contas de campanha, inventamos um neologismo bem feio, pedalada fiscal. Colocamos vários ovos no ninho, algum há de chocar.

E isso não é ao menos dissimulado. Quem, mesmo distraidamente, vem acompanhando as notícias na imprensa, sabe que é assim que está funcionando. E aí, é irrelevante se a Zelotes respinga do meu lado, se os dólares encontrados na Suíça são da minha turma, se há problema nas minhas contas de campanha. Isso são apenas detalhes.

E, se alguém achar ruim, vamos dizer que eles tentaram fazer o mesmo com FHC, acusando-o de comprar votos para a reeleição.

A única coisa que realmente conta é uma: força. Temos maioria, e com maioria achamos argumento.

Eu não ia escrever esse texto aí de cima. Havia decidido apenas publicar uma fábula de Esopo, precedida de um parágrafo explicativo. É nisso que dá resolver escrever um parágrafo.

Bem, a fábula é essa, e a versão em português de Monteiro Lobato:

Estava o cordeiro a beber num córrego, quando apareceu um lobo esfaimado, de horrendo aspecto.

— Que desaforo é esse de turvar a água que venho beber? — disse o monstro arreganhando os dentes. Espere, que vou castigar tamanha má-criação!…

O cordeirinho, trêmulo de medo, respondeu com inocência:

— Como posso turvar a água que o senhor vai beber se ela corre do senhor para mim?

Era verdade aquilo e o lobo atrapalhou-se com a resposta. Mas não deu o rabo a torcer.

— Além disso — inventou ele — sei que você andou falando mal de mim o ano passado.

— Como poderia falar mal do senhor o ano passado, se nasci este ano?

Novamente confundido pela voz da inocência, o lobo insistiu:

— Se não foi você, foi seu irmão mais velho, o que dá no mesmo.

— Como poderia ser meu irmão mais velho, se sou filho único?

O lobo furioso, vendo que com razões claras não vencia o pobrezinho, veio com uma razão de lobo faminto:

— Pois se não foi seu irmão, foi seu pai ou seu avô!

E — nhoc! — sangrou-o no pescoço.