Sou mais O Boticário

Menina, quanto tempo? Nossa, dez anos já, né! Gente, você tá igualzinha, né, quer dizer tá mais magra, gente e esse cabelo maravilhoso, o que você faz pra ficar assim?

Não deu tempo de pensar que era propaganda de um novo e revolucionário creme ou de um suplemento vitamínico, porque a resposta foi imediata: sei lá, eu como linguiça Sadia, uma delícia.


Não sei em que lugar do passado esqueci meu senso de humor. Ou então, justamente porque só podia ser uma piada sem graça – e a amiga remoçada termina com outra hipótese para o rejuvenescimento, sua separação –, imaginei que se tratava de propaganda que visava a iludir o consumidor incauto, merecendo uma reprimenda do Conselho Nacional de Autorregulamentação Publicitária.

Vi a propaganda há algumas semanas, e hoje fui ver se houve alguma representação: houve, provocada por uma concorrente.

Mas, nenhuma queixa de consumidores? Tanto quanto descobri, não, embora nas redes sociais o comercial tenha rendido alguma polêmica, incluindo comentários maliciosos sobre a troca do marido pela lingüiça.

Um comercial que associa uma lingüiça à beleza e à saúde não causou indignação suficiente a ponto de gerar representações; o que ofendeu mesmo foi outro, o do Boticário, que, mostrando diferentes afetos, despertou uma indignação generalizada, inclusive de pessoas que se dizem sem preconceito (aliás, acho muita graça das frases que começam com não tenho preconceito, mas).

Agora, sim, o CONAR se encheu de representações que dizem desrespeitoso expor a família brasileira à falta de vergonha de pessoas do mesmo sexo se abraçando no dia dos namorados. Isso mesmo: não mais que se abraçando. Na linha dos sem preconceito, ouve-se nada contra, mas não em público, nem na televisão.

Não vou virar freguês do Boticário por causa da propaganda, nem elegê-lo o grande defensor do amor sem preconceitos. Não me iludo também de que não tenha havido um cálculo na decisão por veicular a propaganda: certamente foram medidos os prós e contras, foi estudado o perfil médio de seus consumidores e alguém decidiu que o comercial seria bom ou ao menos não seria ruim para sua imagem. Além disso, talvez tenham mesmo esperado alguma polêmica, sempre boa para a exposição de uma marca. Mas marcaram um golaço.

Para nós, resta decidir o que é mais agressivo à saúde da família brasileira: a lingüiça que promete deixar a pessoa bonita ou o abraço afetuoso entre dois homens ou duas mulheres.

De minha parte, sei o que não faz mal. Sou mais O Boticário.

Para quem não viu, vão os linques para os comerciais da Sadia e do Boticário.