Somalis e haitianos

Não é preciso ser marxista para compreender como a consciência das pessoas é influenciada (para não dizer determinada) pela economia.

Isso pode ser percebido em diferentes planos, desde o individual até diferentes graus de coletividade, com sentimentos que podem ser de egoísmo e inveja ou solidariedade e cooperação.


Quando sentimos inveja do carro do vizinho, é a economia interferindo sobre nossa consciência. O mesmo acontece um nível acima do individual, no plano corporativo: não conheço profissão cujos membros estejam satisfeitos com o que recebem; todas, mesmo as melhor remuneradas, sempre acham que merecem mais.

Vou pular as classes sociais, campo sobre o qual incidiu preferencialmente o ideário marxista, para falar da consciência nacional, que, contemporânea à formação dos estados modernos, acabou por suplantar a ideia de solidariedade de classe (veja-se que o internacionalismo via de regra é visto como impatriótico).

A díade nós-eles, em que o diabo são os outros, se manifesta muito no plano nacionais-estrangeiros, consolidado no século XX pelo estímulo às rivalidades entre nações, que deram justificativa à maior parte das guerras, embora no fundo sempre houvesse interesses econômicos em jogo.

Também o acolhimento dos outros, na condição de imigrantes, tem na sua base uma consciência determinada pela economia. Os países que historicamente acolheram imigrantes são os que se formaram pela colonização: dificilmente haverá, entre os leitores deste texto, alguém que não tenha entre seus antepassados mais ou menos recentes europeus ou então africanos ou asiáticos, talvez um pouco de cada.

Quando nossos antepassados chegaram – excluídos os africanos, que vieram compulsoriamente –, foi em busca de oportunidades, inclusive pela ocupação do vazio, com o deslocamento dos nativos, porque o etnocentrismo vigente não admitia que os indígenas pudessem ser ocupantes de algum espaço.

Foi assim que se formaram os países da América, e toda a prosperidade da nação mais poderosa do planeta se construiu com a força dos imigrantes.

Mas a pátria do acolhimento não é tão diferente das demais, e o acolhimento cessa quando já não apresenta vantagem econômica. Não por nada são erguidas barreiras na fronteira entre Estados Unidos e México: os cucarachas já não são bem-vindos, porque há uma exaustão de mão-de-obra menos qualificada.

Esse é o critério: embora desde a aventura dos primeiros humanos que saíram da África sempre tenham existido fluxos migratórios, geralmente causados pela necessidade da sobrevivência, seu acolhimento ou rejeição se dá por razões econômicas, muito mais que de solidariedade.

E se os europeus não aceitam imigrantes africanos, isso acontece porque uma consciência formada pela economia e com base na ideia de nacionalidade vê os outros como ameaça: são mais competidores, ainda que pouco qualificados, pelo mercado de trabalho, são mais candidatos a consumirem benefícios sociais e são estrangeiros. Essa consciência é muito transparente: a Europa é para os europeus, e nela não há lugar para estrangeiros que virão competir com os nacionais, principalmente se forem negros e pobres. Se morrerem no Mediterrâneo, isso é apenas a consequência do ato temerário que cometem.

Já em terras brasileiras ainda acolhemos pobres vindos de outros lugares em busca de sobrevivência, mas não deixam de ser ouvidos murmúrios de que virão tirar emprego dos nossos trabalhadores, quando não ironias próprias de quem rejeita o outro e talvez veja no seu acolhimento uma política bolivariana.

Será que somos mais acolhedores que a Europa ou é nossa consciência econômica que ainda não viu riscos na imigração?

Será que nós, que nos escandalizamos com a insensibilidade europeia, saberemos sempre acolher o outro ou estamos prontos a nos mostrar igualmente insensíveis, se num futuro próximo, ao invés de somalis à deriva no Mediterrâneo, forem haitianos soçobrando no Caribe?