Rubinho e o bêbado

A ilustração é apropriadíssima: uma foto de Rubinho Barrichello – coitado, sempre ele – com a legenda “estou achando que foi golpe”.

É uma percepção vaga e de difícil construção no meio jurídico, lugar onde, afinal, se trata da lei e sempre fica mais difícil ao ardoroso defensor do impeachment admitir que foi agente do golpe.

Por isso, ainda que os mais raivosos combatentes tenham se emudecido, será necessário aguardar a narrativa histórica para que a coisa seja chamada pelo nome.

Mas, fora isso, percebe-se esse retraimento, quase a vergonha encabulada da criança que fez uma arte. E, se digo vaga a percepção de golpe, é porque ela começa a tomar corpo a partir de outras sensações. Como a razão obstinadamente se nega a processar, porque a autodefinição de pessoa democrática ficaria arranhada, humilhando seu ego, a construção da consciência se dá por outros caminhos.

Um caminho, em particular, é de certo modo o mesmo que levou ao golpe: as coisas vão mal. Quando pesquisas de opinião pública começam a mostrar a percepção de que o Governo Temer está pior que o Governo Dilma, por vias transversas, e ainda sem a admissão dos atropelos jurídicos, as pessoas começam a se perguntar onde foram se meter.

O mesmo acontece a cada notícia de corrupção que bate no centro do poder, e é difícil a alguém que mantém algum grau de lucidez não perceber que o discurso de combate à corrupção perdeu força, mesmo quando surgem dados muito mais consistentes que os nunca confirmados factoides criados contra a presidente derrubada.

Passado o transe e silenciadas as panelas, esse lento despertar parece revelar ao sonâmbulo que o combate à corrupção foi mero pretexto para coisas muito mais profundas e graves, que o atingirão em cheio.

Hoje são raras as pessoas que não assistem preocupadas às votações do Congresso, porque sabem que sofrerão na pele os efeitos dos retrocessos sociais propostos. Mas poucas pensam que se trata de um deliberado esvaziamento do Estado, forjado para atender uma pauta de entrega ao mercado de itens como saúde, educação, previdência, só para ficar nos mais notórios.

O que isso tem a ver com o impeachment? Nada, pensa nosso infeliz representante da classe média, é tudo mera coincidência, porque o impeachment foi só para tirar os corruptos.

Embora fartamente conhecida e estudada, essa armadilha ideológica não deixa de ser intrigante. Certa feita, a imaginei como uma espécie de Síndrome de Estocolmo política, aquela em que a pessoa sequestrada se apaixona pelo sequestrador.

Mas logo concluí que minha imagem estava errada, porque a paixão não é por um sequestrador: trata-se, na verdade, da escolha consciente de um igual, da mesma classe social. Pensei então outra imagem, a da mulher abusada, que reage com não mais que lamúrias aos espancamentos praticados pelo marido.

Foram lamúrias que ouvi esta semana, ao presenciar de longe um diálogo, no qual a legítima representante da classe média elencava todos os direitos que perderá, a começar pela redução do valor da aposentaria, a ser recebida após vários anos mais de contribuição.

Eram muitas as lamúrias, porque são muitos os retrocessos, mas a pobre senhora só se exaltou mesmo quando ouviu o nome do Lula, e prontamente elevou a voz para dizer: esse bêbado!