Ruas lavadas de sangue

Quando, no futuro, alguém escrever a crônica das sandices proferidas nesta época, teremos uma demonstração prática do que é uma tragicomédia. Ou então, na melhor linha trash, de um filme do gênero terrir.

Mas isso só na crônica do futuro, porque hoje, quando vivemos os tempos de que o cronista tratará, e ainda que nossa necessidade de seguir vivendo nos faça rir e debochar, é impossível não sentir a presença do elemento de tragédia, ainda que impulsionado do modo mais grotesco.

As piores previsões feitas há alguns meses não foram capazes de imaginar pudesse um dia se formar um grupo tão pródigo em proferir disparates dos mais variados tipos, que poderiam ensejar capítulos classificatórios, onde se aventassem explicações sobre sua origem, que certamente incluiriam indigência cultural ou intelectual, má-fé, assim como algumas classificações contidas no CID-10, desde esquizofrenia até psicopatia.

O pior é que, ao transitar pelo CID, correríamos o risco de encontrar – e agora utilizo linguagem mais antiga e nada técnica – mais loucos furiosos que loucos mansos.

Tenho procurado não me distrair com as falas escandalosas, mas, vez por outra, surge alguma em que o caráter folclórico desaparece e a tragédia se escancara.

Uma delas é a entrevista do ministro-chefe da Casa Civil, em que justificou, em nome das chamadas bases macroeconômicas, o banho de sangue dado pela ditadura de Pinochet. “O sangue lavou as ruas do Chile”, disse Onyx Lorenzoni, o que me levou a refletir sobre o alcance da metalinguagem.

E penso: se, para o integrante do governo, as reformas econômicas neoliberais justificaram historicamente o banho de sangue, hoje, o desmonte do Estado brasileiro em favor do grande capital internacional justificaria que aqui também as ruas se lavassem de sangue?

Claro, a entrega da economia brasileira está sendo feita de modo escancarado e sem resistência eficaz, assim não exigindo repressão, mas o desmonte da previdência pública está no Congresso, e a sociedade brasileira se move contrariamente à aprovação, aliás, conhecendo bem o exemplo do Chile, cujos idosos foram condenados à miséria. Que fará o Governo se não conseguir aprovar a reforma? Talvez se desmanche, como muitos vaticinam, mas o ministro deixou no ar uma outra possibilidade.

Como interpretar semelhante fala? Foi apenas uma alusão infeliz, neste desgoverno de desvarios? Foi um ato falho, denunciando um desejo latente? Foi uma ameaça deliberada? O fato é que a fala partiu de alto integrante de um governo cujo chefe chegou a censurar a Ditadura brasileira por não ter matado 30 mil, como a argentina.

E não por nada, neste país que não soube acertar as contas com seu passado ditatorial, o presidente manda agora comemorar a data do golpe.

Dizem que a Ditadura nasceu no 1º de abril, mas a data oficial foi antecipada para que não parecesse comédia. Talvez o melhor seja mesmo 31 de abril, para que todos lembrem que foi tragédia.

E nesse dia é bom lembrar das ruas que foram lavadas de sangue, não só no Chile.

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