Réquiem para meu amigo

Querido amigo:

Estou aqui imerso em lembranças. Uma delas sobressai, por ela sempre começo e termino. Depois de ter uma ideia genial (sempre tinha ideias geniais), te encontrei de manhã, eu lendo o jornal, tu já em incessantes atividades, e chamei enquanto passavas: que achas de fazermos tal coisa (a ideia genial)? E tu: então faz, tu vive tendo ideias, começa a fazer!

Assim eras: quando tinhas uma sugestão, ela vinha acompanhada de detalhes sobre os passos a serem dados, ou até com vários passos já dados. Teus passos não cessavam: eras movimento.

Não lembro se te conheci na Sarmento Leite ou na José do Patrocínio. Recém tinhas chegado, mas os colegas da casa de estudante já haviam colado em ti o nome da tua cidade, teu nome pelo resto da vida. Te vi sereno e sorridente, senti confiança, uma confiança que nunca deixaste diminuir.

Seguiram-se anos intensos, e eras o mais intenso de todos nós. O mais forte, o mais pragmático. Não te perdias em purismos estéreis e conhecias as armadilhas do caminho. Por isso andavas à nossa frente.

Fui dos mais próximos, compartilhamos moradia na aventura da Santa Rosa, trabalhamos juntos, fizemos política juntos. E tu sempre como um dínamo que nos alimentava de energia.

Depois, como acontece na vida, nos dispersamos. Cada um com sua família, com seu trabalho, com seu lugar. Soube pouco de ti, nem haveria como saber, porque preocupado com minhas coisas.

Trinta anos é tempo. Só há poucos meses voltamos a falar, na língua telegráfica da comunicação escrita, quando te perguntei se serias parceiro num projeto de preservação ambiental. Não rolou: ainda uma vez, estavas na frente, e já preservavas um butiazal. Foi rápida a conversa, e terminou com o indefectível vamos nos ver um dia.

Agora a surpresa. Acontece: às vezes, a tempestade abate a árvore mais forte da floresta.

Nessa hora todos tentam entender. Eu tento entender. Lembro da tua lucidez, e penso que ela te traiu. Recordo Brecht: aquele que ainda ri é porque ainda não recebeu a terrível notícia. Tu a recebeste e a sentiste.

Sabias bem que a eles não interessa fazer justiça, mas abater o inimigo. Compreendias isso melhor que ninguém.

Foi isso. Tua lucidez foi tua loucura. Queimaste tuas fotos, os textos que discutíamos na juventude, queimaste tua história e, por fim, tua vida.

Ninguém deve soltar a mão de ninguém, mas nem sempre lembramos da mão de todos. Às vezes é a mão do mais forte que precisa ser amparada.

Há tempo de nascer e tempo de morrer, é o que agora cantam no réquiem para meu amigo.

Se ainda me ouvisses, te diria que já não tenho tantas ideias e há muito sei que não são brilhantes, mas eu faço, como um dia me aconselhaste.

Fica bem.