Quem faz a pauta?

No último final de semana voltou à pauta o tema do impeachment. Não parece nada sério; ao menos aos meus olhos caiu como um factoide criado para acossar ainda mais um governo já combalido, que não consegue ter iniciativa para sair do isolamento em que se meteu.

Mesmo assim, teve força para mobilizar grande número de governistas preocupados, não sei se em razão de uma paranoia de quem já não consegue distinguir ameaças reais de imaginárias ou se porque de fato a crise é tanta que até mesmo factoides passam a se constituir em ameaça.


O certo é que discursos mais fortes na convenção do PSDB ou rumores sobre a rejeição das contas de Dilma pelo TCU são capazes de criar um alvoroço cujo efeito é o de enfraquecer mais ainda o Governo.

E eu me pergunto: quem faz a pauta e por que consegue fazê-la?

Do ponto de vista da notícia propriamente dita, parece evidente que a pauta continua a ser feita por quem sempre a fez: Rede Globo, Veja, grandes jornais.

Isso significa que nem a propalada crise econômica desses veículos foi suficiente para reduzir significativamente na sua capacidade de produzir a notícia, nem sua queda de audiência e a criação de múltiplas alternativas de produção da notícia, inclusive a guerrilha alojada nas redes sociais, abriu caminho para novas formas alternativas de produção de pauta.

Mas esta é a leitura simplista de quem olha só os veículos. Falta nela uma coisa essencial: a de que dá a pauta quem faz a política. E, fundamentalmente, dá a pauta quem, ao fazer a política, está na ofensiva. Quem se defende não pauta; só pauta quem ataca.

E nesse caso, muito mais do que no impeachment, as bandeiras democráticas há muito tempo vêm sendo só defensivas: a pauta é terceirização, redução da maioridade penal, resumidamente, a retirada de direitos, e quem se coloca numa perspectiva democrática assume necessariamente uma posição defensiva, nunca de iniciativa política.

Isso não significa que ocasionalmente não se consigam montar boas articulações defensivas, mas nesse caso o sucesso significa não levar gol, ou seja, comemora-se o zero a zero.

O máximo que se conseguiu em termos propositivos foi a bandeira da reforma política, que, embora fundamental, é ininteligível para a maioria das pessoas e se coloca num plano muito abstrato, não sendo capaz de mobilizar corações e mentes.

O resultado foi o visto: uma mobilização quase inexistente e a aprovação de uma reforma política de mentirinha, sem que a proposta construída pelas entidades que integraram o Movimento de Combate à Corrupção Eleitoral tivesse as mínimas chances de aprovação.

Evidentemente, em tempos de crise econômica, que se faz acompanhar de medidas de austeridade e de um consequente pessimismo, é muito difícil construir-se qualquer pauta propositiva.

De qualquer maneira, o certo é que não se faz pauta jornalística quando não se tem pauta política, e a vocação de quem não tem pauta política é a de se dedicar à defesa, sempre acompanhada da queixa contra a imprensa golpista.

Ademais, seja para uma pauta propositiva, seja mesmo para a simples resistência, que em alguns momentos históricos é essencial, é necessária a existência de atores políticos com autoridade para interpelar a sociedade.

Esses atores existem no Brasil, mas estão adormecidos, em alguns casos enfraquecidos. Nunca mais se viu – talvez porque não fosse necessária – uma articulação de entidades democráticas como aquelas que se agigantaram para lutar pela anistia e pela redemocratização. No final dos anos 70, os noticiários do país eram frequentados por Raymundo Faoro, Barbosa Lima Sobrinho, Aloísio Lorscheider, Ivo Lorscheiter. OAB, ABI e CNBB tinham uma legitimidade política que as punha no centro da política nacional. A UNE em reconstrução tornou-se também um ator político e o movimento sindical de alguma forma se integrava nas lutas democráticas.

Hoje esse espaço está vazio. A discussão política está polarizada entre governo e oposição e as bandeiras democráticas ficam à deriva diante de uma direita assanhada, que, tendo crescido à sombra da crise econômica e das revelações sobre corrupção, tomou conta do parlamento e não vê nenhuma resistência social de peso à sua pauta.

Será que Faoro, Lima Sobrinho, Dom Aloísio, Dom Ivo não deixaram sucessores? Não poderiam OAB, ABI, CNBB, mais UNE, centrais sindicais e tantas outras entidades democráticas, entre as quais destaco a AMB, construir uma pauta democrática comum, que quebre a polarização do pró e contra que temos vivido e consiga ser propositiva, ocupando um lugar que está vazio desde o fim da ditadura?

Tenho pensado nisso. As entidades democráticas podem dar a pauta. Mas para isso precisam ocupar o seu lugar.