Quatro cenas e algumas considerações sobre fundamentalismo (o dos outros e o nosso)

As cenas

Cena 1:

Estou num grupo de amigos que conversa sobre a imigração de refugiados na Europa.

Amigo 1: O problema é que eles chegam às cidades, se isolam em alguns bairros e ali estabelecem suas próprias leis.

Amigo 2: É diferente do que aconteceu com os nossos antepassados, que chegaram aqui e se integraram.


Amigo 3: É que os muçulmanos são muito radicais.

Cena 2:

Foi em Ijuí. Esqueci o processo, provavelmente era de Família, mas lembro razoavelmente da cena. O réu passa a discutir comigo sobre a Lei de Deus e a Lei dos Homens. Diz que talvez esteja errado perante a Lei dos Homens, mas cumpriu fielmente a Lei de Deus. Nunca esqueci da cena porque senti em sua posição a marca da ambiguidade: ele admitia submeter-se à Lei dos Homens, que eu representava naquela audiência, mas fazia questão de afirmar a prevalência da Lei de Deus. Ao assim dizer, se colocava numa situação de superioridade perante o juiz, de desafio a uma autoridade menor e de uma quase condescendência na sua posição de aceitar o que a Lei dos Homens viesse a lhe prescrever.

Cena 3:

Assisto a um filme da internet, retirado do saite de um daqueles partidos de deputados pastores, em que comemoram a prevalência da vontade divina em comissão da Câmara dos Deputados que aprovou o texto do Estatuto da Família, conceituada esta como decorrente da união entre um homem e uma mulher.

Cena 4:

Outro filme da internet. Nele vejo missionários cristãos fundamentalistas americanos na Uganda pregando contra a homossexualidade. Numa cena, um pregador financiado pelos americanos pede que levante a mão quem está disposto a matar um homossexual. Todos levantam a mão.

As considerações

Meus amigos e o fundamentalismo dos outros

A discussão da cena 1 não é sobre fundamentalismo; é sobre a cultura dos outros, que temos dificuldade em aceitar, motivo pelo qual com facilidade lhe aplicamos a pecha de fundamentalista, como se fosse algo intrínseco a ela; em contrapartida, vemos nossa cultura como democrática e imune a qualquer fundamentalismo.

É o que percebo em cada uma das falas.

Comentário à fala do primeiro amigo. Haveria como ser diferente? As cidades europeias estão prontas para receberem imigrantes e os acolherem junto a si, em todos os bairros, numa verdadeira miscigenação? Penso que não. E não se trata só de segregação cultural; é também econômica e social. Por outro lado, é comum que as pessoas desejem viver perto de seus semelhantes, onde serão compreendidas, encontrarão solidariedade e manterão vínculo com sua própria cultura. Por quê precisam abrir mão disso? Disse meu amigo que eles não se submetem às leis europeias e exemplificou com o tratamento desigual entre os sexos e a opressão das mulheres. Concordo que sob muito aspectos uma parte significativa dos costumes trazidos seja inaceitável para o padrão que atingimos no ocidente, mas não vejo razoável exigirmos de quem vem que se integre ao nosso modo de vida como num passe de mágica, como se sua história devesse ser apagada. Evidentemente, não é aceitável que imigrantes cheguem a um país e sistematicamente transgridam suas leis, mas é inevitável um impacto cultural, e ele certamente ensejará um difícil, traumático até, e certamente longo processo de adaptação, que não será de mera rendição a todos os costumes europeus.

Comentário à fala do segundo amigo. Meus antepassados chegaram da Alemanha mais de cem anos antes de eu nascer. Mesmo assim, a primeira língua que falei foi o alemão. Lembro ter ouvido algumas vezes quando criança a distinção entre alemães e brasileiros, e nela eu era alemão. Muitos descendentes de alemães e italianos torceram para os países do Eixo na Segunda Guerra. E eles – imigrantes e seus descentes – se viam diferentes mesmo havendo para eles duas diferenças fundamentais em relação aos que agora chegam à Europa: primeiro, nossos antepassados chegaram a um país em formação (os meus em particular a uma zona de ocupação agrícola, onde trataram de derrubar a mata e empurrar para longe os kaingangs que por lá circulavam); segundo, a sociedade que aqui encontraram era cristã e ocidental, formada por outros europeus que antes deles vieram e com os quais compartilhavam no fundamental os valores culturais.

Primeiro comentário à fala do terceiro amigo. Muçulmanos podem ser radicais e cristãos podem ser radicais. As cenas 3 e 4 bem demonstram situações cada vez mais comuns no ocidente cristão. Talvez aqui, assim como nas falas dos outros amigos, esteja subjacente aquela coisa muito humana de estranhar o outro e achar normal o que acontece ao nosso lado. Nós nos adaptamos (a quê?) e não somos radicais; os outros é que são radicais, porque não se adaptam a nós e não pensam como pensamos.

Segundo comentário à fala do terceiro amigo. Convém separarmos a religião (ou seria religiões?) muçulmana de grupos terroristas que se utilizam dessa religião. Convém lembrarmos também que há outras nacionalidades que utilizam outras religiões para seus propósitos políticos. E, fundamentalmente, convém lembrarmos que, logo após suas independências, ocorridas no século XX, a maior parte dos países árabes foi governada por movimentos nacionalistas laicos, com leve inclinação à esquerda e muitas vezes alinhados com a União Soviética, e que o fundamentalismo islâmico cresceu, ou por estímulo direto ou como efeito colateral, em consequência da atuação do Ocidente, principalmente dos Estados Unidos, pelo controle político e econômico da região.

O nosso fundamentalismo

O crente evangélico com quem dialoguei em audiência desprezava a Lei dos Homens, mas em seu discurso estava marcada a diferença de instâncias: a Lei de Deus é a Lei de Deus e a Lei dos Homens é a Lei dos Homens (Deus e César), e havia a necessidade de observá-la.

O que os fundamentalistas buscam é romper fronteiras entre as duas leis e submeter a Lei dos Homens à Lei de Deus. Isso fazia sentido nos Estados despóticos da antiguidade e mesmo no início do Estado Moderno, quando prevalecia o discurso da legitimidade outorgada por Deus ao poder terreno e se presumia a existência de uma única religião legítima e a necessária impiedade das demais que ousassem se manifestar.

A superação histórica dessa concepção teve por base o iluminismo, que reconheceu o indivíduo e a razão e deu base ideológica à moderna democracia. Nenhuma lei humana pode ser expressão da vontade divina, porque há diferentes religiões e também há quem não tem religião. A fé de uns não pode ser imposta aos outros, nem pode servir de inspiração para leis de caráter geral.

O Estado democrático deve permitir a cada um de nós viver nossa individualidade e não se submeter à arrogância de quem se diz representante da vontade divina. Os pastores que querem nos impingir suas ideias obscurantistas sobre família com o discurso de que isso representa a vontade de Deus são os nossos fundamentalistas. São os que ultrapassaram a percepção presente no discurso do crente de Ijuí, para impor à Lei dos Homens sua indigente versão sobre Deus.

Nosso fundamentalismo ainda não usa armas e ainda não matou homossexuais, mas já tem força suficiente para tomar de assalto uma comissão da Câmara dos Deputados. Eu me preocupo com o fundamentalismo dos outros, mas nem vejo os outros como invariavelmente fundamentalistas, nem acho que estejamos livres de termos os nossos, e estes me preocupam ainda mais.