Quantas emoções?

Respondam-me os físicos: quantas emoções cabem no mesmo lugar do espaço?

Após oito anos longe de uma jurisdição normal, porque alternei três anos de plantão, mais três só com cadernetas de poupança e dois na Ajuris, cheguei ao fim da gestão em vias de preencher o direito à aposentadoria e pensando, quase em tom de despedida: vou ser juiz ainda uma vez. E me preparei para enfrentar uma jurisdição cível.


Pois, antes que me classificasse, a Corregedoria me ofereceu duas alternativas de substituição: uma Vara de Fazenda com 80 mil processos ou a Vara de Família do Partenon.

Decisão fácil, tomada por exclusão.

E lá fui eu, pronto para encarar as dores dos afetos desfeitos, dos amores e dos ódios, do cinismo e do desespero.

Logo de saída, a sensação de impotência diante de uma situação de síndrome de alienação parental irreversível, e a certeza do quão despreparados somos, nós, os profissionais, e nós, o Judiciário, para enfrentar situações que se desenrolam sob nosso olhar, com uma rapidez muito maior que o tempo processual: entre uma audiência e outra, entre uma conclusão e outra, tudo pode mudar. Para pior.

Acho que essa sensação foi o estopim de uma paixão, estimulada pela Patrícia e pela Cassandra, promotora e defensora pública com quem trabalhei.

Cada audiência, uma história. Algumas com final feliz, outras sem, outras sem final. Em algumas conseguimos ajudar, em outras não, em algumas talvez tenhamos atrapalhado.

Foi o exercício diário da intuição, a tentativa de estabelecer uma empatia e resgatar a humanidade que muitas vezes se perdia junto com os afetos.

Mas foi uma paixão destinada a ser curta: entrei em abril, em junho estava classificado na Vara Cível, porque as complicadas regras de movimentação não me favoreceram.

Pensando meios para permanecer, elaborei com a Patrícia e a Cassandra um projeto para enfrentar as situações de alienação parental, remetido para apreciação pelo Judiciário, Ministério Público e Defensoria Pública.

Depois, como acontece nas paixões desfeitas, fui aos poucos me conformando com a iminente saída, mas, agora acumulando jurisdições e correndo de uma Vara à outra, ainda permaneci ali até quase completar um ano, tempo suficiente para desistir dos projetos que não conseguiria realizar.

Pronto. Chegou o início de abril, e estou novamente inteiro, mas na Vara Cível. Confesso que aliviado com o fim da provisoriedade e feliz com a nova situação.

Mas os últimos meses desse processo de afastamento pediram de mim que deixasse alguma coisa, e pensei que algumas situações que vivi mereciam um registro. Não para constituírem um memorial, mas para de algum modo ajudarem as crianças (talvez também os pais) no momento da separação.

Daí que saíram as Historinhas para ler durante as audiências dos pais.

Esclareço desde logo que, diferente dos poeminhas de Quintana, elas merecem, sob todos os aspectos, o diminutivo.

Nos próximos dias circularão alguns exemplares impressos e postarei aqui uma versão digital.

É o que fica de um ano de Família, um ano que coincidiu com os primeiros doze meses de vida do meu netinho João Pedro.

Quanto à pergunta inicial, acho melhor que a respondam os poetas.