Por que não usei o filtro tricolor

A questão já está muito discutida, mas tenho a impressão de que permanece um mar de incompreensões. Por isso, sentindo-me como se desse declaração de voto em tempos de assembleias estudantis, vou dizer por que não botei a bandeira da França em minha foto.

Trato, desde logo, de limpar o terreno, de modo a não alimentar eu próprio as incompreensões. Então, declaro meu horror pelo ataque, minha total solidariedade às vítimas francesas do Estado Islâmico, minha compreensão de que o EI faz parte do que de pior se produziu em muitos anos na política mundial – nesse ponto considero até dispensável uma exposição de motivos – e gostaria de vê-lo desbaratado. Também deixo claro que minha motivação não está em ver no compartilhamento da bandeira tricolor um descaso em relação à tragédia doméstica: até entendo que o mar de lama da Vale merecia muito mais atenção, mas não acho que, quando há dois temas de tão grande relevância, se deva fazer uma opção simplista por um deles.

Com isso, penso que esclareci o fundamental. Faço ainda uma última advertência: nem sempre consigo, mas tento ver o mundo de forma crítica, o que implica contestar muito do senso comum estabelecido. Então, se você é uma pessoa que odeia esses chatos que vivem problematizando tudo e achando defeito nas coisas, é melhor que pare de ler.

Começo dizendo que não sou por princípio contra as ofertas de filtros que ocasionalmente o Facebook nos apresenta. Há alguns meses, tive prazer em usar o arco-íris LGBT, que deixou tanta gente nervosa. Essa construção que hoje se faz, esse avanço de inclusão, acolhimento ou, para alguns – que fazer? –, apenas tolerância, é, apesar de Felicianos e Malafaias, uma conquista da sociedade ocidental, essa em que vivo e não troco por outra. O respeito pelos homossexuais e seu tratamento em condição de igualdade é uma conquista em curso, sujeita ainda a retrocessos – veja-se o Estatuto da Família –, mesmo porque muitos dos que desfraldam a bandeira da liberdade, igualdade e fraternidade são tão fundamentalistas quanto os responsáveis pela chacina parisiense.

Aliás, mais do que pela justeza da causa, que é intuitiva a quem tem um mínimo de tolerância, essa conquista de séculos de luta iluminista, a questão da aceitação da homossexualidade se apresenta sem mediações no nosso cotidiano; é uma questão cultural que nos cerca no dia a dia, e a proliferação dos avatares em arco-íris significou um constrangimento positivo a uma conduta tolerante.

A solidariedade às vitimas parisienses, além de mexer em questões muito mais complexas de política, não tem esse efeito de agir diretamente sobre nossas condutas, e por isso o filtro do Facebook é praticamente irrelevante no plano da eficácia.

Aliás, é necessário pensar se, em situações como essa, e também em outras que exigem muito mais que a sobreposição de algumas cores esmaecidas sobre nossa foto, essa nossa solidariedade facebookiana não passa de uma estéril catarse coletiva, que se exaure por si só, sem qualquer efeito material positivo. Exemplifico com situações mais próximas: o desastre de Mariana ou mesmo as enchentes que deixaram tantos desabrigados certamente geraram em muitos de nós sentimentos de solidariedade, que para alguns significou um efetivo envolvimento, ao menos na busca de ajuda material às vítimas, mas para outros tantos, talvez a maioria, significou apenas essa momentânea manifestação inconsequente, que logo será sucedida por outra no próximo episódio causador de comoção.

Mas, dou voltas e não chego ao ponto, e de qualquer maneira não foi por sua inocuidade que deixei de usar as cores da França, porque, as tivesse usado, de alguma maneira teria engrossado esse coro contra o terrorismo e pela tolerância.

Um primeiro ponto, intuitivo, presente em tantos artigos e que eu próprio já mencionei em outras ocasiões, está na seletividade do nosso horror. Não nos comoveram os ataques terroristas do EI em Beirute alguns dias antes, nem nos comovem atentados na Nigéria, no Egito, na Turquia.

Há uma explicação clara para isso: mexeram com o nosso mundo. Paris, junto com Nova Iorque, um pouco menos Londres, para alguns Miami, é a capital imaginária do Ocidente, do nosso mundo, do nosso coração. Explodir algum lugar de Paris é explodir um lugar em que eu próprio poderia, ao menos em sonhos, estar; certamente um lugar por onde amigos meus já passaram, com os quais, por experiência própria ou por ouvir falar, tenho familiaridade. Explodir Paris é explodir um pedaço do meu mundo, um pedaço de mim; explodir Beirute, Cairo ou Ancara não me afeta. De certo modo, explodir Madrid me afeta, mas certamente menos que Paris, e provavelmente não fará o Facebook me oferecer a bandeira da Espanha.

Meu mundo é esse, é também o mundo do médico morto num assalto na Lagoa Rodrigo de Freitas, mas não o da periferia das nossas cidades, mesmo que a poucos quilômetros de minha casa e que o número de mortos seja multiplicado. O terror em Paris tem isso em comum com a morte do médico no Rio: são avisos de que meu próprio mundo não está seguro, e por isso me assusto, me comovo, me solidarizo.

Compreendo bem isso, mas não concordo e não compartilho. Não compartilho porque meu mundo é mais que isso; é o mundo da alteridade, do acolhimento, da inclusão de quem está de fora.

Mas a isso é necessário acrescentar: mesmo que fosse por egoísmo, não compartilharia, porque sei muito bem que meu mundo não estará seguro enquanto o mundo dos outros, o da periferia do mundo ou da periferia da minha cidade, não estiver.

E aí chego ao campo da política. Como falo de Paris, e a referência à nossa própria periferia não passou de digressão, vou me ater a essa política, que gerou o Estado Islâmico.

Podemos escolher o ponto inicial. Pode ser o momento em que França e Inglaterra partilharam entre si o Oriente Médio e criaram estados títeres para fazer a sua política. Pode ser também o momento em que o Ocidente, seja pela disputa global com a então União Soviética, seja porque se tratava de controlar a riqueza do petróleo, começou a minar os governos laicos que se impuseram nos anos 50 e 60 e tinham como característica comum o panarabismo e a opção pelo desenvolvimento de políticas sociais inclusivas.

Nunca foram países democráticos, embora em muitos casos tivessem um forte apoio popular – caso emblemático é o de Nasser, presidente do Egito morto em 1970. Alguns desses governos foram particularmente cruéis, e um exemplo claro é a repressão de Saddam Hussein aos curdos, mas não havia em nenhum desses países sinais relevantes de radicalismo religioso ou organizações terroristas.

Talvez o primeiro momento de inflexão tenha sido o apoio ocidental aos talibãs, na luta contra o governo pró-soviético do Afeganistão. Naquele momento dos anos 80, o Ocidente, em particular os Estados Unidos, armaram aqueles que transformariam o Afeganistão numa república religiosa obscurantista, em cujo território floresceu a Al Qaeda.

É bom lembrar que nesses anos também acontecia a Guerra Irã-Iraque, na qual Saddam Hussein teve forte apoio americano. Depois, quando Saddam resolveu invadir o Kuwait, atrevendo-se a seguir projetos não coincidentes com os de seu patrono, tornou-se um inimigo a ser derrotado.

Voltando ao Afeganistão e à Al Qaeda: quando a criatura se voltou contra o criador, e praticados os atentados do 11 de setembro, os Estados Unidos não só responderam com a invasão do Afeganistão e derrubada dos talibãs, mas também com a derrubada de Saddam, embora inimigo da Al Qaeda, sob o mentiroso argumento de que ele apoiava a guerrilha e produzia armas de destruição em massa. É bom lembrar que para isso ignoraram solenemente as deliberações da ONU e fizeram uma guerra em que mataram centenas de milhares de civis. Mas Bush nunca será considerado criminoso de guerra ou terrorista. Não o será porque a história é contada pelos vencedores. Mas também porque ele é dos nossos. Naquele momento, o Iraque virou igualmente um criadouro de terroristas.

Depois, surgiu uma nova oportunidade, com a Primavera Árabe, a pretexto de implantar a democracia: Muamar Kadafi foi morto na Líbia, num movimento fortemente apoiado pela França, e desde então o país se transformou num caos; na Síria foi mais difícil, porque Bashar al-Assad tem apoio da Rússia, China e Irã. A guerra empatou e se criou um vácuo para o crescimento do Estado Islâmico, que ocupa áreas consideráveis do Iraque e da Síria.

Quem é o Estado Islâmico, como surgiu e quem o financia? Trata-se de um grupo terrorista cujo florescimento tem origem na invasão do Iraque. Baseia-se em interpretações radicais do já radical wahabismo, uma versão ortodoxa do islamismo sunita, abraçada pela família real saudita, grande aliada dos Estados Unidos, que, embora tirânica, ficou livre da Primavera Árabe. Pequena lembrança: na mesma época do atentado ao Charlie Hebdo, a Arábia Saudita condenou a chibatadas o autor de um blog no qual ousou criticar os clérigos do país.

Para ter toda essa capacidade operacional, dominar vastas áreas de dois países e praticar ações terroristas de envergadura, é necessário, além de outras coisas, ter muito dinheiro. As frotas de modernos veículos Toyota são apenas um sinal exterior de riqueza. Além de ganhar muito dinheiro com o contrabando de petróleo, o Estado Islâmico tem contribuintes de peso, principalmente na própria Arábia Saudita, mas também na Turquia, outro aliado ocidental. Grande parte de suas armas veio da oposição síria, apoiada por Estados Unidos e França, e foram obtidas em consequência de vitórias militares ou mesmo por adesão.

Assim, o Estado Islâmico nasce e floresce por obra dos Estados Unidos, também da aliada França e ainda por graça de seus aliados sauditas e turcos.

Praticam o terrorismo clássico, de atacarem civis não envolvidos no conflito. O fazem por convicção criminosa, mas o fazem também porque lutam uma luta desigual, em que não conseguem atingir Obama, Hollande ou mesmo alvos militares. Ao espalharem o terror, atingem ao menos seu objetivo propagandístico.

Além disso, sua ação resulta numa estigmatização do islamismo e dos árabes, num crescimento da direita xenófoba e em riscos crescentes para os refugiados de guerra, dessa guerra hábil e cinicamente forjada por Estados Unidos, França e parceria.

Quanto ao terrorismo, o Estado Islâmico o pratica com dolo direto, e o resultado máximo obtido no Ocidente é de pouco mais que uma centena de mortos em ações esparsas. Já o dos países ocidentais, praticado com dolo eventual, ocorre todos os dias do ano, todos os anos, e atinge milhares de vítimas. Ocorre quando são bombardeadas escolas ou hospitais onde se supõe possam estar terroristas, ocorre nos erros de alvo, ocorre com a dose excessiva de bombas, ocorre por muitas causas, mas seu resultado é este: uma infinidade de vítimas, o caos e a vontade de vingança dos atingidos, que alimenta o terrorismo dos outros.

Tenho medo do Estado Islâmico. Ele ameça meu mundo, o mundo ocidental do qual faço parte. Ele é portador da intolerância e da barbárie. Me solidarizo com suas vítimas francesas. Mas agradeço: essas cores, que tanto aprecio, porque aprecio a liberdade, a igualdade e a fraternidade, representam neste momento outras coisas muito piores, que não posso compartilhar.