A mãe do condenado

Existem histórias que nascem para ser contadas. Elas surgem e te interpelam, exigem ser escritas. Há outras que não, são não histórias, porque não podem ser reveladas. Faz dois anos que me deparei com uma destas. Ela me tocou, mas nunca cogitei de escrevê-la, porque havia pessoas a serem preservadas e porque me sentia ética e legalmente impedido de fazê-lo.

Como era uma não história, deixei de pensar nela logo que aconteceram os últimos capítulos do enredo, ou ao menos os mais dramáticos. Isso mudou há algumas semanas, quando me apercebi de que, embora singularmente considerados, os acontecimentos continuassem a se apresentar como uma não história, por outro motivo exigiam ser contados: algumas leituras e relatos me fizeram ver que, mesmo revelando um drama individual, os fatos de modo algum eram singulares. São, ao contrário, ilustrativos de um modo cada vez mais comum de julgar. (mais…)

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O cárcere

O centenário foi em julho, perdi a efeméride. Até perguntei no dia dos cem anos quem matou Marielle. Também podia ter perguntado quem matou Amarildo, porque isso foi há cinco anos. Talvez o enfoque rendesse um texto, associando Mandela ao apartheid brasileiro, mas os dias passaram e ele não veio.

Mesmo sem texto, um outro pensamento passou a me perseguir, e foi o do Mandela preso político. Nada há de inusitado em lembrar disso, afinal, foi nos seus anos de prisão que ele se tornou um símbolo mundial da luta contra a perversidade de um Estado segregacionista, da luta de uma maioria negra e pobre, oprimida pela elite branca descendente dos colonizadores europeus. (mais…)

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Neutros

Há alguns meses, no meio de uma discussão virtual – só pode ser, porque as presenciais acabaram – recebi do outro lado, quase como um habeas corpus preventivo: só falta dizer que quem não se posiciona já está posicionado.

Eu não havia dito nada daquilo, a acusação estava na cabeça do interlocutor, mas é interessante que lá estivesse. Como acontece nessas situações, não continuei a discussão. Mas fiquei a pensar se ele estava cansado de ser acusado desse modo ou se tinha a consciência pesada da omissão. Ou talvez até mesmo martelasse em sua memória a fala de Luther King sobre o silêncio dos bons. (mais…)

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A voz

Não sei se é grave: ouço vozes. Mas não se assuste, não são vozes imperativas, que, seguidas à risca, me assegurarão hospedagem vitalícia num manicômio judiciário. Na verdade, é uma voz só, num tom brando, que se manifesta um pouco abaixo dos meus pensamentos. Às vezes some, outras vezes fala comigo, mas não a ouço, só ocasionalmente ela me chama a atenção e passa a dominar a cena. (mais…)

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Amanhecer no IAPI

Sexta-feira, seis horas. Desço a madrugada fria da Plínio, sigo pela Avenida dos Industriários, passo pelo Alim Pedro e o contorno. Não é meu hábito, mas o Brasil e Costa Rica atrapalha a rotina e o despertar antecipado me deu a ideia. Há mais de trinta anos, desde os tempos de panfletar em fábricas, não respirava o ar frio da manhã escura.

A ideia é caminhar até o sol nascer, uma hora e meia, que começa com o susto do cão vadio – o dele e o meu, mas é ele que se afasta do meu caminho. Somos só nós dois no parque. Nós e os sabiás, que a essa hora já revolvem o chão, silenciosos como são no inverno. (mais…)

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Clima, laqueadura, aborto

Penso, enquanto caminho até o cabeleireiro, na falta de inspiração – ou disposição – para escrever. Pouca gente no sábado, ele termina de falar no celular e depois me atende. Corte mais simples que o de Neymar: máquina dois do lado, três em cima.

Sou um cliente silencioso, mas estamos só nós dois, e a conversa é comigo mesmo, um chiste sobre o frio, tipo bravata de gaúcho: vem um friozinho aí, tem que botar a camisa de pelúcia. (mais…)

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