Pobre democracia

Todo mundo já deve ter lido – ou ao menos ouvido falar – sobre estudos que apontam o Judiciário como novo protagonista dos golpes na América Latina, numa versão pós-democrática, em que apenas aparentemente se preservam as regras jurídicas, ao mesmo tempo em que se legitima um autoritarismo brando, bem diferente da truculência dos golpes militares do momento histórico anterior, mas amparado em uma discutível legalidade.

É um tema que certamente será aprofundado. No Brasil, por exemplo, muito ainda há a ser escrito e estudado sobre o que fez ou deixou de fazer o Judiciário nos últimos três anos. Certo é que já ficou para a História a famosa frase de Romero Jucá acerca da esperada participação do Supremo nos acontecimentos que viriam a se seguir.

O fato é que paira no ar uma dúvida sobre o papel que o Judiciário tem cumprido e o que cumprirá nesse grave momento, em que não está descartado resultar das urnas um período de trevas, pela eleição de candidato que despreza a democracia e as garantias constitucionais.

É nesse quadro que se sucedem as notícias preocupantes. Ora ocorrem inéditas cassações, pela presidência do Supremo, de decisões de outro ministro, ora se ouve o presidente da Corte afirmar que o que aconteceu em 1964 não foi golpe, mas mero movimento.

Enquanto assim segue a balada em Brasília, em Curitiba o mesmo ator de sempre, com sua já proverbial imparcialidade, libera inocentemente o teor de delação premiada não homologada na semana que antecede a eleição, esta que pode abalar profundamente a já fragilizada democracia brasileira.

Pobre democracia.

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Contra o silêncio

Era uma conversa entre amigos sobre política. O assunto era banal, tão banal que esqueci. Mas, no meio dessa discussão pouco importante, alguém, a pretexto de qualquer coisa, se queixou da falta de heróis e lembrou o famoso poema do pastor Niemöller, aquele em que o narrador fala do seu silêncio quando levaram os comunistas, depois os judeus, os sindicalistas, os católicos, até que vieram buscá-lo, e já não havia voz que pudesse defendê-lo. (mais…)

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A mãe do condenado

Existem histórias que nascem para ser contadas. Elas surgem e te interpelam, exigem ser escritas. Há outras que não, são não histórias, porque não podem ser reveladas. Faz dois anos que me deparei com uma destas. Ela me tocou, mas nunca cogitei de escrevê-la, porque havia pessoas a serem preservadas e porque me sentia ética e legalmente impedido de fazê-lo.

Como era uma não história, deixei de pensar nela logo que aconteceram os últimos capítulos do enredo, ou ao menos os mais dramáticos. Isso mudou há algumas semanas, quando me apercebi de que, embora singularmente considerados, os acontecimentos continuassem a se apresentar como uma não história, por outro motivo exigiam ser contados: algumas leituras e relatos me fizeram ver que, mesmo revelando um drama individual, os fatos de modo algum eram singulares. São, ao contrário, ilustrativos de um modo cada vez mais comum de julgar. (mais…)

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O cárcere

O centenário foi em julho, perdi a efeméride. Até perguntei no dia dos cem anos quem matou Marielle. Também podia ter perguntado quem matou Amarildo, porque isso foi há cinco anos. Talvez o enfoque rendesse um texto, associando Mandela ao apartheid brasileiro, mas os dias passaram e ele não veio.

Mesmo sem texto, um outro pensamento passou a me perseguir, e foi o do Mandela preso político. Nada há de inusitado em lembrar disso, afinal, foi nos seus anos de prisão que ele se tornou um símbolo mundial da luta contra a perversidade de um Estado segregacionista, da luta de uma maioria negra e pobre, oprimida pela elite branca descendente dos colonizadores europeus. (mais…)

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Neutros

Há alguns meses, no meio de uma discussão virtual – só pode ser, porque as presenciais acabaram – recebi do outro lado, quase como um habeas corpus preventivo: só falta dizer que quem não se posiciona já está posicionado.

Eu não havia dito nada daquilo, a acusação estava na cabeça do interlocutor, mas é interessante que lá estivesse. Como acontece nessas situações, não continuei a discussão. Mas fiquei a pensar se ele estava cansado de ser acusado desse modo ou se tinha a consciência pesada da omissão. Ou talvez até mesmo martelasse em sua memória a fala de Luther King sobre o silêncio dos bons. (mais…)

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A voz

Não sei se é grave: ouço vozes. Mas não se assuste, não são vozes imperativas, que, seguidas à risca, me assegurarão hospedagem vitalícia num manicômio judiciário. Na verdade, é uma voz só, num tom brando, que se manifesta um pouco abaixo dos meus pensamentos. Às vezes some, outras vezes fala comigo, mas não a ouço, só ocasionalmente ela me chama a atenção e passa a dominar a cena. (mais…)

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