Era uma vez um país pacífico

O Brasil é um país pacífico. Cresci ouvindo esse conceito, a um tempo aplicável à nação e aos nacionais. A natureza afável do brasileiro, geralmente afirmada de modo associado com uma não tão lisonjeira indolência, correspondia coletivamente a uma vocação brasileira para a paz.

A participação brasileira na Segunda Guerra não contava, porque o propalado heroísmo dos pracinhas da FEB na Itália não ocultava o fato de que a guerra tivera outros atores e nossa participação fora marginal. Já a guerra contra o Paraguai, temível adversário comandado pelo sanguinário Solano López, acontecera há mais de um século, e por isso não desmentia essa verdade. (mais…)

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A figueira

Após iniciarem como uma desagradável obrigação, logo as caminhadas diárias se revelaram prazerosas, e não só por causa da frase, antes incompreensível, que via em adesivos: viciado em serotonina.

O fato é que a caminhada se dá em cenário vedado aos sedentários, e dele retiro sensações de outro modo inalcançáveis. O Alim Pedro, onde há alguns meses vi amanhecer o IAPI, é um lugar frequente para visões, como o ataque rasante de um joão-de-barro, que, numa manhã de quase chuva, pôs em fuga duas improváveis saracuras. (mais…)

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Medo, surpresa, emoção

O pacote anticrime do nosso Ministro da Justiça traz tudo o que se pode esperar de um governo de extrema direita: endurecer, endurecer, endurecer.

Muitos já fizeram seus comentários e mostraram as consequências que dele virão: prender, cada vez mais, os mesmos de sempre, os pretos e os pobres, que breve conhecerão os presídios na sua versão vertical, depois da brilhante ideia do também direitista governador do Rio de Janeiro. (mais…)

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Carta à Panvel

Senhor Presidente:

Sou cliente da Panvel, com cartão e tudo. Se mais não compro, é porque felizmente não cheguei ainda àquela idade em que a maior parte da nossa poupança é destinada a medicamentos. Mesmo assim, são décadas de fidelidade, que vem desde a época da Panitz e da Velgos. Para que tenha uma ideia, lhe digo que há um par de anos abriu perto de minha casa uma farmácia que praticava preços melhores, mas continuei a comprar da Panvel.

Nunca houve um motivo particular para isso, mesmo porque não sei se há diferença de qualidade em relação às outras farmácias. Talvez seja mais uma manifestação inconsciente de uma certa mística gaúcha, que em outros tempos me fazia voar com a Varig e continua a me sugerir que abasteça nos Postos Ipiranga. Talvez conte ainda o germanismo do nome Panitz. São, de qualquer maneira, manifestações atávicas, sem explicação racional, que me fazem desviar o passo, mesmo quando há farmácia mais próxima e mais barata. (mais…)

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Desastre

Algumas coisas não estão claras. Não está claro se a Globo ressuscitou o jornalismo investigativo ou se está apenas usando seus fortes argumentos para convencer Bolsonaro de que talvez o mais prudente seja continuar a lhe destinar uma grana preta em publicidade.

Também não está claro se o que vem sendo revelado é apenas extorsão de salário de assessores, o prosaico Rachid, tão comum no baixo clero, ou se há coisas mais sérias, como envolvimento com o crime organizado, em particular as milícias. (mais…)

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Apesar de comunista

Fui elogiado. A notícia me veio truncada, e o que sei é que fui assunto numa conversa entre terceiros, na qual, provavelmente diante de alguma alusão do interlocutor ao meu radicalismo, o amigo me defendeu, dizendo que, mesmo comunista, eu era uma pessoa de diálogo e bom senso.

Não posso negar que fiquei envaidecido com o elogio, do mesmo modo como, há mais tempo, ficara feliz quando uma pessoa revelou seu espanto ao descobrir que eu trabalhava, porque imaginava que gente de esquerda só dava discurso e militava. (mais…)

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Direitos Humanos na resistência

Em Curitiba, mais de duzentos lares foram destruídos pelo fogo após ação policial; na Paraíba, dois líderes de uma ocupação do MST foram executados. Isso aconteceu em intervalo de poucas horas, dois dias antes da comemoração dos 70 anos da Declaração Universal de Direitos Humanos.

Faz tempo que isso não é novidade num país antes dito pacífico, mas onde de fato nunca foi abolida a escravidão: por isso, na semana que se seguiu a violência continuou, e o Pará presenciou o fuzilamento de um líder do MST na quinta e de outro no sábado. (mais…)

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Os médicos

Era 2013. Fui a uma solenidade em entidade de médicos. Nunca antes nem depois voltei a ver tantos médicos juntos. E me surpreendi com o discurso do orador principal, que logo tomou como eixo a crítica aos médicos cubanos. Havia, é claro, uma natural motivação corporativa, porque, mesmo que viessem para trabalhar onde nenhum médico nativo se dispunha a ir, ao menos em tese eles invadiriam um mercado reservado aos médicos brasileiros.

Mas o discurso, que rapidamente se inflamou, na mesma velocidade em que se tornava vermelho o rosto do orador, do mesmo modo enveredou para a desqualificação profissional, seguida da denúncia ao propósito oculto de espalhar guerrilheiros pelo Brasil. E a plateia de médicos se entusiasmava com o discurso, cujo fim apoteótico foi ovacionado em pé. (mais…)

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Trevas e fogueiras

Há quem diga que a Idade Média não foi nada disso, mas me ensinaram como a idade das trevas, e poucas vezes uma ideia me foi tão facilmente transmitida como essa, porque passei a imaginar o mundo de então numa noite sem fim, de ignorância e miséria total.

Não é por nada que, equivocadamente, a pensava como o tempo em que bruxas e hereges eram queimados nas fogueiras: tinha tudo a ver com essa escuridão eterna, a realçar a visão dos rostos retorcidos que a luz das chamas revelava. (mais…)

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