Apesar de comunista

Fui elogiado. A notícia me veio truncada, e o que sei é que fui assunto numa conversa entre terceiros, na qual, provavelmente diante de alguma alusão do interlocutor ao meu radicalismo, o amigo me defendeu, dizendo que, mesmo comunista, eu era uma pessoa de diálogo e bom senso.

Não posso negar que fiquei envaidecido com o elogio, do mesmo modo como, há mais tempo, ficara feliz quando uma pessoa revelou seu espanto ao descobrir que eu trabalhava, porque imaginava que gente de esquerda só dava discurso e militava. (mais…)

Leia Mais

Direitos Humanos na resistência

Em Curitiba, mais de duzentos lares foram destruídos pelo fogo após ação policial; na Paraíba, dois líderes de uma ocupação do MST foram executados. Isso aconteceu em intervalo de poucas horas, dois dias antes da comemoração dos 70 anos da Declaração Universal de Direitos Humanos.

Faz tempo que isso não é novidade num país antes dito pacífico, mas onde de fato nunca foi abolida a escravidão: por isso, na semana que se seguiu a violência continuou, e o Pará presenciou o fuzilamento de um líder do MST na quinta e de outro no sábado. (mais…)

Leia Mais

Os médicos

Era 2013. Fui a uma solenidade em entidade de médicos. Nunca antes nem depois voltei a ver tantos médicos juntos. E me surpreendi com o discurso do orador principal, que logo tomou como eixo a crítica aos médicos cubanos. Havia, é claro, uma natural motivação corporativa, porque, mesmo que viessem para trabalhar onde nenhum médico nativo se dispunha a ir, ao menos em tese eles invadiriam um mercado reservado aos médicos brasileiros.

Mas o discurso, que rapidamente se inflamou, na mesma velocidade em que se tornava vermelho o rosto do orador, do mesmo modo enveredou para a desqualificação profissional, seguida da denúncia ao propósito oculto de espalhar guerrilheiros pelo Brasil. E a plateia de médicos se entusiasmava com o discurso, cujo fim apoteótico foi ovacionado em pé. (mais…)

Leia Mais

Trevas e fogueiras

Há quem diga que a Idade Média não foi nada disso, mas me ensinaram como a idade das trevas, e poucas vezes uma ideia me foi tão facilmente transmitida como essa, porque passei a imaginar o mundo de então numa noite sem fim, de ignorância e miséria total.

Não é por nada que, equivocadamente, a pensava como o tempo em que bruxas e hereges eram queimados nas fogueiras: tinha tudo a ver com essa escuridão eterna, a realçar a visão dos rostos retorcidos que a luz das chamas revelava. (mais…)

Leia Mais

No nazismo

Tenho pensado muito no nazismo. Talvez seja sinal dos tempos, mas há algo mais: hoje, quando novamente pensava, me dei conta de que muitas das minhas esparsas e caóticas leituras dos últimos anos tratam dele, direta ou indiretamente. Foi só começar a pensar e me vieram os nomes: Elias, Arendt, Klemperer, Levi, Ingrao, Rosenberg, livros de e sobre os irmãos Mann, de e sobre Brecht, de e sobre Freud e Reich, biografias que vêm desde Bismarck, Wagner e Nietzsche e desaguam nos filhos dos nazistas, livros sobre a República de Weimar, sobre como viviam os judeus antes do Holocausto, sobre a ascensão do nazismo, sobre a queda do nazismo. Agora mesmo, enquanto me distraio da angústia dos dias lendo Gombrich, me espera a leitura de “A questão da culpa”, de Karl Jaspers. (mais…)

Leia Mais

Fake news

Em tempo de bolhas, me instalei confortavelmente na minha, e pouco sei do que acontece fora dela. Fiz o que muitos fazem, sob a crítica dos estudiosos das redes sociais, que veem, na exclusão de quem pensa diferente, o fechamento de portas para o diálogo.

Fiz aos poucos, silenciosamente, ora quem espalhava notícia falsa, ora quem manifestava opinião preconceituosa, ora quem apenas falava abobrinha. Assim foi, e, conforme a intensidade da afronta, ou então da irritação do momento, minha reação era de simplesmente deixar de seguir ou terminar a amizade ou, em casos extremos, bloquear. (mais…)

Leia Mais

Pobre democracia

Todo mundo já deve ter lido – ou ao menos ouvido falar – sobre estudos que apontam o Judiciário como novo protagonista dos golpes na América Latina, numa versão pós-democrática, em que apenas aparentemente se preservam as regras jurídicas, ao mesmo tempo em que se legitima um autoritarismo brando, bem diferente da truculência dos golpes militares do momento histórico anterior, mas amparado em uma discutível legalidade.

É um tema que certamente será aprofundado. No Brasil, por exemplo, muito ainda há a ser escrito e estudado sobre o que fez ou deixou de fazer o Judiciário nos últimos três anos. Certo é que já ficou para a História a famosa frase de Romero Jucá acerca da esperada participação do Supremo nos acontecimentos que viriam a se seguir.

O fato é que paira no ar uma dúvida sobre o papel que o Judiciário tem cumprido e o que cumprirá nesse grave momento, em que não está descartado resultar das urnas um período de trevas, pela eleição de candidato que despreza a democracia e as garantias constitucionais.

É nesse quadro que se sucedem as notícias preocupantes. Ora ocorrem inéditas cassações, pela presidência do Supremo, de decisões de outro ministro, ora se ouve o presidente da Corte afirmar que o que aconteceu em 1964 não foi golpe, mas mero movimento.

Enquanto assim segue a balada em Brasília, em Curitiba o mesmo ator de sempre, com sua já proverbial imparcialidade, libera inocentemente o teor de delação premiada não homologada na semana que antecede a eleição, esta que pode abalar profundamente a já fragilizada democracia brasileira.

Pobre democracia.

Leia Mais

Contra o silêncio

Era uma conversa entre amigos sobre política. O assunto era banal, tão banal que esqueci. Mas, no meio dessa discussão pouco importante, alguém, a pretexto de qualquer coisa, se queixou da falta de heróis e lembrou o famoso poema do pastor Niemöller, aquele em que o narrador fala do seu silêncio quando levaram os comunistas, depois os judeus, os sindicalistas, os católicos, até que vieram buscá-lo, e já não havia voz que pudesse defendê-lo. (mais…)

Leia Mais