Ordem e progresso

Está lá na nossa bandeira, e aprendemos a conhecer desde pequenos: ordem e progresso. Poucas bandeiras do mundo trazem inscrito um lema, como nós temos no lábaro estrelado. Quem botou foram os positivistas, graças à sua influência na conspiração republicana.

O lema da religião comteana era mais extenso: o amor por princípio e a ordem por base; o progresso por fim. Ficaria muito comprido, e deixaram só ordem e progresso.

Qualquer pessoa que ouça logo se identificará com essa marca registrada da nossa nacionalidade. É como se estivesse inscrita na carteira de identidade do Brasil, com extensão ao nosso sentimento de brasilidade. No entanto, são palavras soltas, vazias de significado: as ouvimos e repetimos sem que nos digam nada, exceto pela lembrança de que identificam nossa pátria. Também por isso, as carregamos sem questionamentos: mesmo que não saibamos por que estão lá, mesmo que desconfiemos que ordem e progresso não sejam exatamente atributos brasileiros, as aceitamos como parte constitutiva de nós mesmo, um sinal congênito que carregamos.

Esse atributo afirmativo de uma coisa de resto sem significado pode permanecer indefinidamente, enquanto palavras jogadas na bandeira, mas dificilmente elas se manterão insossas, se retiradas da bandeira para se materializarem em lema de governo.

Governos têm projetos e precisam de lemas que deem significado às suas ações. Por isso, imagino sua escolha como resultante de acalorados debates entre o estafe político e publicitários tão atentos quanto criativos, para dali resultarem palavras que cumpram a dupla função de bem venderem um produto ao mesmo tempo em que resumem sua essência. Claro, sempre poderá alguém dizer que o que importa mesmo é um bom eslogan, independentemente do significado de suas palavras, e por isso ordem e progresso como lema de governo não signifique outra coisa que a ordem e progresso embandeirada, e seu uso represente mais uma ideia de alinhamento à ideia de nacionalidade do que propriamente um projeto de governo.

Mas, mesmo que se o pense como um simples lance publicitário, não há como ouvir ordem e progresso sem imaginar que o Governo se dedicará com afinco a defender a ordem e buscar o progresso.

Dada sua conotação econômica, a ideia de progresso é compreensível, e nenhum governo, mesmo quando adotasse políticas recessivas, sequer admitiria a hipótese de não trabalhar com esse objetivo, num mundo em que o sucesso se mede pelo PIB.

Mas, por que capturar da bandeira a palavra ordem? Seria seu uso aplicado somente àqueles fins estritamente publicitários ou seria, de fato, aspecto tão importante que merecesse ser apresentado como marca identificadora de uma gestão? Não sei se isso foi explicado politicamente; sei que quem justificou a escolha não foi o presidente ou outra figura importante do Governo: a explicação veio do publicitário, dando a entender que, de fato, o objetivo é de uma estética de venda.

Seriam as mesmas palavras vazias da bandeira agora utilizadas como lema bonitinho e vazio de um Governo. Mas, nesse caso, a dúvida persiste: por que, mesmo sem abrir mão usar uma bela ideia publicitária, não se optou por palavras que representassem algum conteúdo?

E me ponho a pensar sobre o caráter subliminar das escolhas vazias. O Brasil teria sido outro se o lema fosse amor, ordem e progresso? Seria o amor uma palavra reservada aos sentimentos individuais, insuscetível de ser inscrita como característica nacional?

E a opção de um governo por resgatar a ordem e o progresso da bandeira não encerraria, mesmo involuntariamente, quase como um ato falho, esse recado de que, em tempos de progresso improvável, o contraponto está em sustentar-se pela ordem?