O botão vermelho

Quem já era vivo nos tempos da Guerra Fria lembra dele. Até eu, criança do interior, presenciei a paranoia da Terceira Guerra Mundial. A geração anterior à minha era a da guerra, e, mesmo com a relativa distância do Brasil em relação ao seu epicentro, sentia nela uma preocupação permanente com a possibilidade da próxima guerra mundial, que seria definitiva, porque fatal: nada sobraria após o uso indiscriminado das armas nucleares.

Era o sentimento que também aparecia na mídia de então, geralmente vinculado ao perigo vermelho. Evidentemente, nessa situação de equilíbrio entre o bem e o mal, a agressão só poderia partir do mal.

Mas, também do lado do bem havia algo que atemorizava: o botão vermelho. Penso retrospectivamente o que teria acontecido se a faxineira da presidência, curiosa para descobrir sua finalidade, o tivesse apertado. Claro, mesmo na infância, não imaginava semelhante coisa, e meu temor estava em outro lugar, creio que compartilhado com muita gente.

Sim, os Estados Unidos personificavam o bem, e seu presidente, o homem mais poderoso do mundo, devia merecer nossa confiança. Mas, se enlouquecesse? Se recebesse uma comunicação falsa de ataque do inimigo? E se um psicopata fosse eleito?

Na época não havia Bush, que, a propósito, foi eleito depois da Guerra Fria, mas Bush, sabemos bem, pode preencher outros estereótipos pouco nobres, não o de psicopata.

Os anos passaram, ninguém mais falou no botão vermelho, e me esqueci desse meu temor da infância.

Eis que a história se põe em marcha também nos Estados Unidos, e a enfadonha campanha eleitoral entre duas opções que a elite apresenta repentinamente é abalada em ambos os lados.

Bernie Sanders me animou, com seu discurso democrático e inclusivo, com esse fervor de um social-democrata radical, que levantou a juventude americana. Mas deu a lógica, e ganhou a candidata do aparato. Com um discurso feminista e favorável aos direitos civis, mesmo assim Hillary é a candidata da elite, talvez mais que qualquer candidato que os Republicanos pudessem apresentar. É notório, por exemplo, o apoio que tem da indústria armamentista. Não por nada, gosta de uma guerra.

Mas a zebra que deu certo foi Donald Trump, o milionário histriônico, machista, xenófobo e não sei quantos adjetivos mais, candidato outsider que dobrou o establishment do Partido Republicano.

Seu discurso assusta. Parece ser capaz de qualquer coisa. E este é o problema. O centenário sistema bipartidário, formado por uma oligarquia política vinculada ao poder econômico, que há muito não entusiasmava, finalmente encontrou um desafiante com chances, nessa pessoa que resume o preconceito somado à fanfarronice.

As últimas pesquisas lhe dão vantagem, e não se pode duvidar disso: quem, correndo por fora, arrebanhou multidões e derrotou a máquina do partido pode perfeitamente vencer a eleição presidencial.

E vem com o propósito de bagunçar o coreto. Aliás, é um desses produtos com que vez por outra a democracia nos contempla: tudo o que está aí é tão ruim, que qualquer trapaceiro que se apresente com um discurso radical pode vencer.

Sei: geralmente o exercício do poder é diferente do que se anuncia antes da eleição. Isso deve valer até para Trump, e talvez não venham dele as sandices que pronuncia. Mas, eleito, os americanos – e nós juntos – conviverão com seu topete por quatro anos. Um milionário caipira direitista: o retrato da sociedade profunda americana.

Trump tem essa vantagem sobre Sanders: além de mobilizar a multidões contra o sistema, ele é capaz de mobilizar os ressentidos, aquela massa conservadora e preconceituosa, que é vítima do sistema, mas cuja limitação intelectual e de classe a impedem de ter um pensamento emancipador.

É a maioria silenciosa. Os fascistas da hora.

Foi o que me fez recordar com preocupação do botão vermelho.