O bispo

Doutor, o bispo quer lhe ver. Não incomoda, Sandra. Mas é verdade, doutor, é o bispo.

Era verdade: o bispo de Santa Maria estava em Cacequi, em viagem pastoral, e queria visitar o juiz.

Confirmada a notícia, tive o sentimento de que seria bem mais do que uma visita protocolar, porque teria a oportunidade de conhecer pessoalmente Ivo Lorscheiter, ex-secretário geral e ex-presidente da CNBB, ativista de direitos humanos e pedra no sapato da Ditadura. Além disso, teria uma bela história para contar a minha mãe, que sabia tudo de padres e bispos e conhecera D. Ivo coroinha.


Dom Ivo chegou e tratei de quebrar o gelo, mostrando-lhe minhas credenciais: sou de Bom Princípio. Antes de eu terminar, ele repetiu, em tom enérgico: Bom Princípio! E seguiu: vocês são da direita!

Gelei. Sabia que a terra de Dom Vicente e do Monsenhor José Becker era um celeiro de padres conservadores, sem afinidade com a linha de Dom Ivo, mas não imaginava haver tal nível de hostilidade, que não poupava nem a quem recém conhecera.

Mas, quebrando esse instante de tensão, abriu um sorriso e arrematou: direita do Forromeco; e nós, de Feliz, somos da esquerda.

Sim, eu era da direita do Forromeco, para onde acompanhávamos minha mãe quando ia lavar roupa e onde nos banhávamos no verão.

Não lembro quanto tempo durou a conversa, mas dela saí com a convicção de ter conhecido um grande homem e de ter nas mãos uma história para minha mãe.

Era 1996, talvez 97. Dom Ivo seguia a mesma linha pastoral, mas agora só como bispo de Santa Maria.

A CNBB havia de algum modo ficado para trás. Seja porque a Ditadura acabara, e esse papel combativo da CNBB, ABI e OAB já não era necessário; seja porque Wojtyla e Ratzinger tinham domesticado a Igreja brasileira – lembre-se do silêncio obsequioso imposto a Leonardo Boff –, já não se ouvia um Dom Ivo, um Dom Aloísio ou um Dom Luciano.

Tenho pensado nisso, porque os tempos voltaram a mudar. Wojtyla e Ratzinger se foram, e hoje vivemos dias de Bergoglio. No mais, parece ser hora de voltarem a campo a CNBB, a ABI, a OAB, certamente com a companhia marcante da AMB.

Não há uma Ditadura a ser combatida, mas há uma direita de unhas crescidas e há bandeiras democráticas a serem defendidas. Por isso, me animo quando vejo a CNBB se manifestar pela reforma política e contra a redução da maioridade penal.

E, da direita do Forromeco, saúdo o espírito de luta de Dom Ivo.

Nota que acrescento em 2 de abril de 2016: Tenho visto nos últimos dias a movimentação de uma CNBB preocupada com os rumos da nossa democracia. Suas ponderadas manifestações mostram que a CNBB de Dom Ivo continua presente. Meu desejo é que tenha a capacidade de construir, com as demais entidades democráticas, uma alternativa de diálogo neste momento de fraturas. Pena que a movimento açodado da OAB a tenha deslocado da possibilidade de unir forças pela construção de uma unidade nacional a partir da sociedade civil organizada.