No nazismo

Tenho pensado muito no nazismo. Talvez seja sinal dos tempos, mas há algo mais: hoje, quando novamente pensava, me dei conta de que muitas das minhas esparsas e caóticas leituras dos últimos anos tratam dele, direta ou indiretamente. Foi só começar a pensar e me vieram os nomes: Elias, Arendt, Klemperer, Levi, Ingrao, Rosenberg, livros de e sobre os irmãos Mann, de e sobre Brecht, de e sobre Freud e Reich, biografias que vêm desde Bismarck, Wagner e Nietzsche e desaguam nos filhos dos nazistas, livros sobre a República de Weimar, sobre como viviam os judeus antes do Holocausto, sobre a ascensão do nazismo, sobre a queda do nazismo. Agora mesmo, enquanto me distraio da angústia dos dias lendo Gombrich, me espera a leitura de “A questão da culpa”, de Karl Jaspers.

Se agora faço esse esboço de inventário, não é para ostentar uma erudição que não tenho, mas para ilustrar esse interesse por um tema, ao qual cheguei pelo gosto da História, mas também pelo quanto me intriga a alma humana.

E muito do que tenho pensado no nazismo tem a ver com as pessoas que viveram aqueles tempos, sobre como reagiram a ele. Não penso tanto nas vítimas: ainda que nos próprios campos de concentração houvesse também colaboracionistas e resistentes, as vítimas foram caça, não lhes foi dado escolher. Meu pensamento é sobre os que escolheram.

Sempre tive, mais que uma admiração, uma verdadeira veneração pelos que desde o início resistiram a ele e o combateram. Os vejo como semideuses, por seu heroísmo, que sempre pensei – e espero continuar pensando – não seria exigido de nós em nosso tempo de vida. Resistir ao nazismo era morte certa, mas muitos o enfrentaram, outros seguiram a luta no exílio, e mesmo quem, como Walter Benjamin ou o casal Zweig, se matou no desespero ou na desesperança, tem essa aura de herói que não é do nosso tempo. Mas nunca invejei nenhum deles, porque não quereria viver tempo assim, que exigisse das pessoas o que deles exigiu.

Também penso nos nazistas, no seu fanatismo assassino, e os temo tanto quanto abomino. E, do mesmo modo como os temo e abomino, temo aqueles que foram por eles convencidos e, como eles, se tornaram nazistas.

Mas em quem mais penso não é nos bandidos nem nos heróis: eu mais penso naqueles que se adaptaram, que no início eram otimistas e acreditavam que tudo continuaria normal, que viveram bem nos anos de glória, cegos ao que acontecia à sua volta, e só acordaram do transe quando as bombas começaram a cair sobre suas cabeças, e nesse momento se sentiram traídos por Hitler. Tento compreendê-los, mas não consigo. E nunca consegui sentir simpatia por eles.

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