Negro não é gente

Publicado em 26 de janeiro de 2021

Negro não é gente, sentenciou Luzia, pouco antes da execução.

Domingo de tarde, faço a leitura tardia d’O Continente, ao lado do computador que, de tanto em tanto, me informa como vai o Grenal. Em alguns momentos, volto à tela antes mesmo que me informe o lance seguinte; já em seguida, Érico me prende a atenção, e perco 15 minutos de jogo.

Sei que não sai gol, porque nesse caso a vibração dos vizinhos me despertaria, e saberia até de quem foi: anos morando no mesmo lugar já me ensinaram a reconhecer o time que marcou, apenas pelo tom da comemoração.

Minha relação com o futebol foi arrefecendo ao longo da vida. Começou cedo, ainda na juventude, mais ou menos na época em que parei de jogar, quando concluí que o sofrimento da derrota não justificava tanta mobilização.

Foi um processo lento, e ao longo dos anos segui torcendo ao meu modo. Ainda lembro onde estava quando vi Baltazar despachar o São Paulo em 81 e Renato Gaúcho marcar contra o Hamburgo em 83. Também lembro que estava na Praça XV quando César marcou contra o Peñarol e em reunião em Alvorada quando perdemos no Olímpico para o Independiente. Sei também do coirmão: vi a decisão contra o Vasco em 79 na casa de uma irmã colorada.

Mas o fato é que, com o passar do tempo, cada vez mais assumi uma postura pragmática: quando o time está bem, torço; quando está mal, desligo. Sei que é antipático ao torcedor apaixonado e, fosse na política, revelaria uma condenável omissão, mas logo lembro que é futebol, e não tenho a obrigação de levá-lo a sério.

Nos últimos anos, mais ainda desliguei, por razões de dentro e de fora de campo. Nunca me agradou iniciar campeonato cambaleando, com time misto, com a finalidade de preservar titulares para outra competição, invariavelmente perdida: isso tira tesão.

O extracampo foi pior: quando o técnico de quem apreciava a irresponsável irreverência se revelou bolsonarista (sem falar do gringo pinochetista, que defendeu a tortura), pensei que definitivamente não se justificava continuar a perder tempo com isso. (E, sejamos justos: não é só o Grêmio, é o Brasil.) Cancelei a assinatura, e nem ao menos televisão aberta me resta.

Assim, um Grenal que de outro modo eu não perderia acaba por ser acompanhado desse modo, enquanto no sobrado de Aguinaldo Silva se contrata o casamento de sua neta Luzia com Bolívar Cambará.

A festa segue e o jogo se encaminha para o fim, quando ouço vibração gremista e me alegro. Breve alegria, seguida por duas sequências de gritos colorados (minutos antes da última vibração, uma mais contida, do pênalti).

Vejo na internet o comentarista de arbitragem dizer que não daria o pênalti, mas só poderei conferir quando a imagem me for liberada. Mais tarde a vejo e concluo, indiferente, que pode ter sido ou não e que comentaristas não mudam a história.

Termina dois a um para o coirmão. Dou uma olhada nas redes sociais, onde instalei um filtro contra fanáticos dos dois lados, ineficaz nessa hora em que brotam os apaixonados mais improváveis, e vejo as flautas e lamentações de sempre. Dizem meus parceiros gremistas que houve pênalti não marcado em Ferreira. Penso: quem é Ferreira?, e não me dou ao trabalho de procurar o lance.

Horas depois, leio, já no rescaldo: macaco!, boiola!, Bambi!

É noite e Santa Fé já enforcou o escravo Severino. Negro não é gente, repete-se na Porto Alegre de 2021.