Mortes

Há ocasiões em que a morte de uma pessoa identificada com seu tempo histórico coincide com o fim desse tempo. Morre a pessoa e é como se morresse junto o seu mundo, pelo que de simbólico encerra. Ocorre mais com grandes personagens, mas pode acontecer também com coadjuvantes ou mesmo figurantes.

Não era minha ideia escrever sobre isso, mas a morte é assim mesmo, surpreende até quando esperada, e agora se insinua num texto que era para ser outro.

Mas insisto no texto que deveria ter sido, depois explico onde entra a morte.

Como não sou leitor metódico e não faço anotações, sou péssimo em recuperar ideias, atribuí-las a um autor, falar sobre seu pensamento. Mesmo assim, às vezes uma frase ou uma ideia me acompanha ou, tendo sido esquecida, volta com força, quase do nada.

Lembrava vagamente de uma afirmação do Hobsbawm, de que a solidariedade era fruto da necessidade, e que, tendo a pobreza sido significativamente reduzida no mundo, aquela solidariedade de classe que dava combustível às lutas sociais e aos desejos de transformação tendia à rarefação.

Era sobre isso que pensava e queria dizer alguma coisa. Procurei então o que de Hobsbowm tinha à mão, e encontrei O novo século, livro em que ele é entrevistado por Antonio Polito, logo depois de ter escrito Era dos extremos: depois da sua obra que tratava do breve século XX, a entrevista tinha por objetivo refletir sobre o século que viria.

E é lá, em capítulo intitulado O que sobrou da esquerda, que se veem várias ideias, entre elas a de que lembrava. Leio ali que em grande medida a esquerda perdeu sua força pela realização do seu próprio programa, seja pela univesalização dos direitos políticos, seja pelas medidas de proteção social implantadas. Leio que o conceito de luta de classes perdeu força no momento em que os trabalhadores fabris passaram, a partir dos anos 70, a ser minoria, perdendo força como categoria sociológica, a classe revolucionária. Leio, ainda, que, com o advento da sociedade de consumo, os ideários coletivos e de justiça social da esquerda foram erodidos por uma cultura de interesses egoístas e privados. É a política que dá lugar ao mercado, o cidadão que dá lugar ao consumidor, sujeito individualista que não se preocupa com as consequências das suas ações.

É nesse contexto que Hobsbawm vê uma esquerda em crise. Ou, em outro sentido, em crise a velha esquerda, agora compartilhando lugar com várias outras esquerdas, voltadas a questões específicas, atomizadas e descrentes no espaço da política, sem projeto coletivo que as una.

Diz que, do lema da revolução francesa, a fraternidade anda em baixa, mas ainda se preservam liberdade e igualdade. Segundo ele, que não vê necessidade de conceitualizar liberdade, por igualdade deve ser entendida a redistribuição da riqueza e os serviços sociais promovidos pelos governos.

Não é uma entrevista otimista, e eu próprio só me lembrei de procurá-la porque me sinto pessimista. Mesmo assim, pode-se ver que Hobsbawm fala antes de Piketty mostrar que no mundo inteiro está ocorrendo uma brutal concentração da renda e da propriedade e antes de em todos os lados ocorrer essa ofensiva sobre os direitos sociais conquistados pela velha esquerda.

Era por aí meu texto, pensava em dar um sentido a essas ideias, refletir sobre a perda de vitalidade daquele generoso pensamento de esquerda, que sucumbiu diante de um mundo cada vez mais individualista e egoísta.

Num texto desses, seria necessário dizer que no Brasil as coisas aconteceram mais tarde. Lá, nos anos 70, que Hobsbawm disse terem marcado o declínio da classe operária, Lula liderou greves gigantescas dos metalúrgicos brasileiros e se firmou como liderança nacional. Pouco depois, Marisa Letícia costurou a bandeira de um partido que ainda faria, após a entrevista de Hobsbawm, o que a social-democracia europeia fizera mais de meio século antes.

Hoje, a esquerda brasileira vive o mesmo dilema da europeia. Não que possa dizer concluída a promoção da igualdade, como a conceituou Hobsbawm, mas viu encerrado o ciclo de sua construção, e hoje se preocupa em não perder o obtido.

A morte de Marisa Letícia, companheira do Lula, que costurou a primeira bandeira, de algum modo simboliza o fim desse tempo.

Se escrevo sobre mortes, faço-o num sábado em que devo me despedir do mestre Tupinambá Pinto de Azevedo. Espero que, nesse tempo de individualismo, que é também um tempo de ódios, sua partida não simbolize também o fim de um tempo em que se amava e se compreendia o próximo.

A ilustração é detalhe de Il quarto Statto, de Giuseppe Pellizza da Volpedo, pintado em 1901.