Matemática aplicada

Quem tem filhos já ouviu a pergunta: “por que tenho que estudar isso, se nunca vou usar?”

A pergunta faz sentido quando se estuda o aparelho digestivo dos moluscos, mas para qualquer um, até quem não gosta de matemática, é bom saber montar uma equação das mais simples, tipo a=b.c/d. Essas equações sempre nos serão úteis, inclusive para desmontar algumas falácias.

Tomo a entrevista do Secretário de Segurança do Rio Grande do Sul, Wantuir Jacini. Não na parte em que ele relaciona o aumento da criminalidade ao ingresso da mulher no mercado de trabalho, mas naquela em que afirma, com a concordância da Rosane de Oliveira, que um dos maiores problemas no combate à violência é a lei, que dá aos criminosos a certeza de que não ficarão presos por muito tempo.

Não vou polemizar sobre a tese. Pelo contrário, para fins de argumentação, concordarei com o secretário e a jornalista.

Tomo, então, a equação acima, em que b são os crimes, c são as penas e d são as vagas nos presídios. O resultado desejável nessa equação é a=1, porque significa os presídios com lotação ideal; a<1 significaria presídios com vagas sobrando e a>1 significaria presídios superlotados.

Ignoremos, para fins de cálculo, que existem dezenas de milhares de mandados de prisão sem cumprimento, que existem centenas de milhares de crimes não solucionados; não, vamos pensar uma situação ótima, em que a polícia soluciona todos os crimes, os réus são todos julgados e condenados e todos cumprem pena. Vamos também dar de barato que o Brasil está certo em ser o terceiro país do mundo com mais gente presa.

Nessa situação ideal, é necessário que haja vagas nos presídios, e vamos fazer de conta que os presídios não são um caos e não estão todos superlotados; então, neste nosso mundo ideal, o a da equação é igual a 1.

E aí chegamos ao ponto: estamos nesse mundo perfeito, em que a polícia prende todos os autores de crimes, eles são julgados, condenados e presos, e tem uma vaga certinha para cada condenado no presídio.

Mas, não, o mundo não é o ideal, porque a criminalidade continua e a culpa é das penas muito baixas. Portanto, para a paz dos justos, o c da equação precisa ser elevado. E aí voltamos à matemática: para que o primeiro lado da igualdade permaneça no 1 ideal, o aumento do numerador precisa ser acompanhado de aumento proporcional no denominador. E o que está no denominador? É o d, vagas nos presídios.

Preciso falar mais?

Escrevi também: Quantos presos queremos ter?

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