Mais plástico que peixes

Publicado em 10 de março de 2018

Em 2050, haverá mais plástico que peixes nos oceanos. Mesmo para mim, que não consigo esperar nada de bom para nosso ambiente, atingido pelo aquecimento global e ameaçado pela corrida armamentista, agora reacendida pelas novas armas anunciadas por Putin, a previsão foi assustadora.

Chego com atraso à notícia, porque o prognóstico consta de relatório apresentado em janeiro de 2016 pela Fundação Ellen MacArthur ao Fórum Econômico Mundial; descubro-a enquanto leio sobre a proposta californiana de proibir o uso de canudos plásticos, cujo consumo, nos Estados Unidos, é de módicas 500 milhões de unidades por dia.

Se leio com atraso, também chego atrasado aos questionamentos sobre a correção do relatório, que apontam a dificuldade em quantificar o plástico do oceano e calcular o número de peixes que o habitam. Matéria da BBC apresenta estudo em que estima o peso total das criaturas marinhas no impreciso intervalo entre 2 e 10 bilhões de toneladas, bem mais que o quase 1 bilhão de toneladas de plástico marinho projetados pela Fundação Ellen MacArthur para 2050.

Claro que isso não é suficiente para refutar a projeção, porque, no nível em que as coisas vão, com a pesca predatória e o agravamento nas condições do ambiente marítimo para a sobrevivência das espécies, é de se esperar também a queda na sua população.

Na verdade, nem precisa comparar pesos, porque 1 bilhão de toneladas de lixo já é um número suficientemente assustador, algo como cem quilos por pessoa. A estimativa de que a quantidade de plástico não chegue a superar a dos peixes é tão tranquilizadora quanto a de imaginar que a temperatura média do planeta aumentará só 2 graus até 2050, que até lá o Polo Norte não estará completamente derretido ou que os oceanos terão se elevado somente um metro.

Leio num mundo de urgências, e o faço no breve espaço de tempo em que também me deparei, não lembro em que ordem, nem se eram notícias novas ou velhas, com os bombardeios na Síria, a escravização de crianças nas lavouras de cacau africano, a existência de 86 mil moradores de rua em Los Angeles, a multiplicação por dois (de 250 mil para meio milhão) em um único ano dos brasileiros que sobrevivem vendendo comida na rua, a militarização do Governo, a precarização das relações de trabalho, a entrega da Embraer aos americanos, e por aí segue.

E, se li todas essas notícias e muitas outras mais, de que esqueci já no minuto seguinte, também sei que nenhuma delas encontra uma resposta adequada (evidentemente não falo das autoridades, nacionais e globais, empenhadas que estão em dar uma mãozinha para apressar o precipício), seja porque, como eu, os leitores se comovem ou escandalizam ao ler e já no minuto seguinte se comovem ou escandalizam com a notícia seguinte, numa sequência de reações estéreis, seja porque já não se comovem ou escandalizam, porque anestesiados com a banalização das tragédias, que nem por isso deixam de ser tragédias.

Claro que, entre as notícias, também sou interpelado por Greenpeace e Médicos sem Fronteiras a contribuir para suas ações. Mas sei que, se eventualmente adiro a semelhante convite, apoio ações isoladas, de resistência, paliativas, de pequenos grupos ativistas. Nós outros, a grande maioria, quando não insensíveis, nos perdemos entre a desesperança e a perplexidade, no máximo entre esparsas propostas de militância que se misturam anarquicamente e não conversam entre si.

Claro: se agora me perco em divagações sobre a falta de ações que sintetizem uma resistência, em que caibam simultaneamente, por exemplo, a defesa ambiental e a luta contra a pobreza, talvez isso seja apenas indício de que não procuro o suficiente para ter uma ação consequente.

Mesmo que nada mais se faça, ainda é possível ter uma ação individual e silenciosa. Qualquer um de nós que se disponha a botar num saquinho de supermercado o lixo encontrado na praia o verá cheio antes de caminhar cem metros (se alguém se animar a tanto, sugiro tentar responder, enquanto o faz, se esse lixo foi deixado ali por banhistas mal educados ou devolvido pelo mar, pequena fração que não caiu numa corrente que o depositaria num daqueles vórtices oceânicos que tudo engolem).

Uma vez assim agindo, se tivermos sorte, encontraremos um ponto de coleta seletiva de lixo, mas o mais provável é que o resultado da nossa coleta acabe num aterro sanitário, o que não é tão ruim que a chance não desprezível de que o esforço se frustre e o lixo volte ao mar.

Pensava nisso tudo, enquanto escolhia laranjas de umbigo, que a novilíngua do mercado rebatizou de navelina. Estavam meio murchas, e por isso peguei só uma. Ao pesá-la, descobri que, talvez desconfiando que, usando a mesma etiqueta de preço, eu pudesse trocar a laranja por outra maior, o Zaffari tornou compulsório o ensacamento.

Devolvi a laranja. Nova tentativa, no dia seguinte, e fiquei sem o mamão e as bananas que havia escolhido.

Ainda não sei o que acontecerá com meu silencioso protesto individual: me renderei à imposição, consumidor manso que ao final se entrega ao poderoso supermercado, ou este venderá dois quilos a menos de frutas por semana, perdendo 0,00000000000001% do seu faturamento?

O fato é que, passada uma semana, persiste minha ridícula resistência individual, eu que, em dez dias de férias, embora recusando os canudos que me foram oferecidos, descartei diariamente entre duas e três garrafas plásticas da água que bebi em caminhadas. As depositei em lixeiras, mas não sei para onde foram levadas depois disso.

Assim seguimos, e mesmo os rebeldes produzem lixo, dando sua parcela de contribuição para a foto que ilustra este texto.