Língua e gênero

As línguas ocidentais derivadas do latim passaram por um período de maturação de cerca de mil anos até ocuparem, em meados do último milênio, num momento de consolidação dos estados nacionais, o seu lugar como língua escrita e codificada.

Com a normatização, veio também uma inevitável cristalização: uma língua basicamente oral e com poucos registros escritos é dinâmica e se modifica, mas, uma vez adotada oficialmente e submetida a regramentos, passa a ser pouco suscetível a mudanças; ainda que o vocabulário esteja aberto a modificações e principalmente ampliações, a estrutura se consolida e dificilmente haverá mais que alterações  cosméticas.


Isso se apresenta como um problema quando, por razões ideológicas, são propostas alterações no seu uso. As línguas se consolidaram antes do politicamente correto e sabem resistir a ele. Uma característica comum a várias delas, incluído o português, é que, na designação de atividades ou profissões, embora a existência do masculino e do feminino, seja atribuído àquele um padrão de universalidade. Assim, ainda que, por exemplo, uma casa legislativa tenha integrantes dos dois sexos, usa-se genericamente senador, deputado ou vereador. Somente em algumas profissões que tradicionalmente tiveram forte preponderância feminina (por exemplo secretária) é usado o substantivo feminino.

As recentes tentativas de introduzir regras ou práticas de uso do português para assegurar a igualdade de tratamento de gênero esbarram nessa dificuldade de mudar normas ou até mesmo usos nesse campo, e por isso se revelam artificiais e nascem fadadas ao fracasso.

A proposta de inclusão do gênero feminino sempre que utilizados vocábulos de flexão masculina, transformada em lei no Rio Grande do Sul (Lei 14.484, de 30 de janeiro de 2014), atenta contra uma regra de ouro da comunicação: a da simplicidade, da economia, do menor esforço.

Embora consagrado o “senhoras e senhores” nas introduções de discursos, parece inconcebível a incorporação de semelhante recurso à fala ou mesmo à escrita, oficial ou privada, em qualquer situação em que as circunstâncias nos ponham diante de um substantivo masculino.

Já o “todos e todas”, utilizado por alguns (ou seria alguns e algumas?), é inócuo, quase patético, e de qualquer maneira não passa de um modismo para substituir, pela via em si estranha de substantivação de um pronome, o já antiquado senhoras e senhores. De qualquer maneira, nem conseguiu se impor como prática fora de alguns círculos, nem estimulou o surgimento de outros correspondentes de flexão no quotidiano do uso da língua.

Do mesmo modo, a utilização do arroba ou do xis na língua escrita (tod@s ou todxs) não passa de declaração de propósitos, que nem ao menos pode se refletir na fala e de qualquer maneira não interfere no curso normal da língua; é um ato de guerrilha linguística, que pontualmente marca o desejo de ver contemplados ambos os gêneros num único substantivo.

Ademais, a tentativa de inclusão da palavra feminina sempre ao lado da masculina é um equívoco estratégico de quem pretende ver uma língua menos sexista. Se historicamente a língua se constituiu com a atribuição de valores universais para palavras masculinas (homens significando humanidade), o caminho para superar essa característica não é o de marcar ambos os gêneros, em que um será o principal e o outro derivado, mas realçar o que nos une como pessoas.

A inclusão linguística não acontecerá pela soma, com a marcação repetitiva de masculino mais feminino, mas pela busca de palavras que consigam por si sintetizar nossa condição humana. Se minha lembrança dos estudos de gramática não me trai, falo dos substantivos comuns de dois. Exemplo disso, com o perdão de nossa presidenta, é a palavra presidente.

Embora faça a crítica com quatro anos de atraso, não lembro ter visto, por ocasião da polêmica que envolveu sua opção por ser tratada por presidenta, censuras que ultrapassassem a discussão em torno de uma suposta transgressão das normas vernaculares. Naquele momento, a discussão foi sobre ser permitido pelas normas gramaticais em vigor usar o substantivo presidenta, e de algum modo se estabeleceu uma oposição entre conservadores e progressistas linguísticos, o que impediu uma crítica ideológica à escolha de Dilma Rousseff.

Talvez Dilma tenha optado pelo neologismo como uma maneira de enfatizar a ascensão de uma mulher à presidência, mas, pensada a questão de um ponto de vista de política linguística inclusiva, perdeu a chance de afirmar a excelência de uma palavra que trata com igualdade ambos os sexos, para criar um feminino que apenas excepcionalmente – enquanto for presidente, ou presidenta – será utilizado no lugar do agora masculino presidente.

A inovação me faz lembrar de Gregor Mendel, das aulas de biologia: presidente, dominante; presidenta, recessivo. Criaram um feminino recessivo para um masculino dominante.

A brincadeira com Mendel não deixa de ilustrar o efeito da marcação de gênero onde ela não existia, porque, em sobrevivendo ao Governo Dilma, a palavra presidenta nunca será mais que o feminino de presidente, perdida a chance de designar pela mesma palavra homens e mulheres que ocupassem o cargo.

Politicamente, seria muito mais inclusivo fazer o movimento inverso, de retirada do gênero dos substantivos, para que mulheres e homens fossem tratados com igualdade por uma única palavra. De minha parte, há muito aboli do meu vocabulário poetisas e oficialas, porque prefiro as poetas e as oficiais. Evidentemente, são dois exemplos de mudança que causam menor estranhamento, por serem substantivos não terminados com a letra “o”, mas ilustram o que defendo.

Evidentemente, a marcação do gênero não se dá só pelo substantivo, e talvez o artigo seja até mais marcante, porque impõe um gênero mesmo quando o substantivo é neutro (o presidente ou a presidente). Trata-se de um duplo pecado original das línguas latinas: abandonaram o terceiro gênero, neutro, existente na língua mãe e, ao introduzirem o artigo, fizeram-no só com masculino e feminino. Disso estão livres o alemão, que, além do masculino e feminino, mantém o neutro, e principalmente o inglês, que nem ao menos apresenta declinação de gênero no artigo.

Nesse ponto, parece haver pouco a ser feito, e talvez devamos esperar que a história se encarregue das mudanças: diante de regras tão antigas, estabelecidas antes da consolidação da língua, e que não são mais que reflexo de uma dominação milenar, talvez precisemos nos encarregar de eleger uma sucessão de mulheres presidentes para que o substantivo passe a ser precedido pelo artigo “a”.

Melhor seria que, no campo normativo, conseguíssemos criar designações neutras para as situações em que, de modo sexista, o masculino prevalece em relação ao feminino, mas não tenho dúvida de que impor um acréscimo ou um substituto feminino às palavras masculinas apenas reforça a preponderância destas.

Enquanto isso, na falta de normas que solucionem a questão, provavelmente o melhor caminho seja o de buscar na língua a superação do masculino e do feminino pelo humano. Ou, se preferirem o artigo feminino, pela pessoa, pela humanidade.