A fé de cada um

As pessoas acreditam naquilo em que querem acreditar. Usei a frase numa conversa, e minha interlocutora não teve uma reação boa, porque entendeu que eu atribuía à humanidade – e, mais importante, naquele momento a ela própria – uma desonestidade intelectual inata.

Não era isso. Trata-se de um mecanismo inconsciente, provavelmente essencial para a sobrevivência, e já muito conhecido pelas ciências que estudam a mente. Dou um exemplo prosaico: se duas pessoas, uma delas vegetariana e a outra carnívora, dessas que não passam fim-de-semana sem comer um churrasco, se depararem com duas pesquisas, uma associando o consumo de carne vermelha ao câncer e outra associando a falta de consumo de carne à anemia, é quase certo que a vegetariana acredite imediatamente na primeira pesquisa e veja com desconfiança a segunda e a pessoa carnívora duvide da primeira e enalteça a segunda.

Se isso ocorre individualmente, se manifesta com mais força ainda no plano coletivo. Se um gremista comemora a vaga à Libertadores, o colorado diz que isso não é título; já o gremista desdenha o título de campeão gaúcho, comemorado pelo colorado. Se tivesse acontecido o contrário, as reações também teriam sido contrárias.

É claro que, no âmbito futebolístico, muito disso não corresponde a convicções reais, mas à simples necessidade de defender seu lado, formulando ad hoc as flautas ao adversário. Sob esse aspecto, defender o seu grupo é um acréscimo, uma qualificação, à primeira característica mencionada, de acreditar no que se quer.

Quando, então, o debate passa para o âmbito da paixão política, o segundo aspecto perde essa característica futebolística da troça, para se tornar convicção – afinal, estão em jogo os destinos da Nação e o nosso modo de vida –, e a intensidade da adesão a um grupo ou outro leva a uma maniqueização cega, em que tudo do meu lado é água benta e tudo do outro lado é enxofre.

E isso mais vale para momentos de crise, em que há uma forte disputa dos lados opostos pelo poder, com uma radicalização de posições, como hoje acontece no Brasil.

Por esse critério, os de um lado condenam previamente José Dirceu e absolvem sumariamente Cunha, e os do outro lado fazem o inverso, todos eles amparados por teorias da conspiração, pelas quais as acusações feitas aos do nosso lado são maquinações malévolas.

Claro que há situações limite, em que a defesa do parceiro se torna insustentável, e nesse caso há uma crise no pensamento justificador, geralmente com a conclusão de que aquela pessoa não foi digna do meu grupo, uma espécie de tumor que o afetou, raramente com a conclusão de que meu lado está com baixa imunidade a doenças.

Outra característica dessa bipolarização é a compulsória inclusão de todos em um dos barcos: ou você é amigo ou é inimigo e não há espaço para pensar de modo independente.

E nesse ponto chego ao assunto do momento: o impeachment. Já escrevi diversos textos em que associei a proposta de impeachment a um golpe. Reconheço que, com raras exceções, não ouvi diretamente acusações sobre ser um petralha, embora algumas pessoas em alguns momentos tenham me tachado mais ou menos assim. Mas, sei bem, essa pequena quantidade de imputações tem como explicação única o fato de que poucos me leem e a maioria destes concorda com a tese que defendo.

Mas, foi só a AJURIS se manifestar contra um impeachment ao qual falta a justa causa e o mundo caiu, com acusações ao petismo de seus dirigentes. É o mundo do preto ou branco, no qual qualquer coloração intermediária não tem direito a existir.

Isso é perigoso, porque é um convite à irracionalidade, ao reducionismo, à simplificação grosseira. Mas é o clima que estamos vivendo, que torna urgente o surgimento de vozes lúcidas, das quais se possa ouvir que o mais fundamental é a defesa da democracia, do cumprimento das regras do jogo, da vedação à desconsideração da vontade popular, expressa nas urnas.

Em certo sentido, a manifestação da AJURIS foi isso. É possível que, permanecendo uma voz isolada, seja julgada daquele modo por quem acredita no que quer e joga para o lado do inimigo aquele que diz o que não quer ouvir.

De algum modo, eu já vinha dizendo que nessa quadra histórica fazem falta vozes que se coloquem no meio do conflito e tragam lucidez ao debate*. Se vierem em número razoável, talvez quebrem essa lógica binária e deem alguma luz às mentes que só acreditam no que querem.

É urgente que venham mais vozes que digam: o mais importante não é optar por situação ou oposição; o mais importante é que as regras do jogo sejam respeitadas; nossa Constituição democrática ainda é muito fraca, e é necessário construir uma cultura política em que todos respeitem a legitimidade de quem foi eleito.

Foi assim que li a nota da AJURIS. Lamento que tantos tenham feito outra leitura.

Confesso que, ao escrever desse modo, me submeto ao risco de ouvir que também eu acredito no que quero. Aliás, minha interlocutora do primeiro parágrafo perguntou: e tu achas que estás livre disso? Reconheço que, apesar de minhas posições políticas estarem muito longe do que tenho visto em qualquer dos dois lados, o risco existe e ninguém está livre dele. Mas tento, claro que com o risco de malograr, praticar o único exercício capaz de me livrar da armadilha: o da crítica. E um modo eficaz de exercê-la é pensar: se os lados fossem invertidos, eu adotaria a mesma posição? Pois eu penso que sim.

* Lembro de dois textos: O bispo e A falta que faz um intelectual conservador.