Era uma vez um país pacífico

O Brasil é um país pacífico. Cresci ouvindo esse conceito, a um tempo aplicável à nação e aos nacionais. A natureza afável do brasileiro, geralmente afirmada de modo associado com uma não tão lisonjeira indolência, correspondia coletivamente a uma vocação brasileira para a paz.

A participação brasileira na Segunda Guerra não contava, porque o propalado heroísmo dos pracinhas da FEB na Itália não ocultava o fato de que a guerra tivera outros atores e nossa participação fora marginal. Já a guerra contra o Paraguai, temível adversário comandado pelo sanguinário Solano López, acontecera há mais de um século, e por isso não desmentia essa verdade.

Ademais, se havia essas guerras em nosso currículo, tinham sido, evidentemente, guerras justas, motivo pelo qual o envolvimento brasileiro não servia para desdourar a nossa natureza pacífica.

Eram tempos de ditadura, mas a política externa dos militares não desmentia essa imagem.

Aliás, ainda em plena guerra fria, o Estado brasileiro seguia uma política de não alinhamento, o que ensejou, nos tempos de Geisel, o acordo nuclear com a Alemanha e o pronto reconhecimento da independência das ex-colônias portuguesas na África, mesmo governadas por movimentos próximos ao bloco soviético.

Foi um tempo em que o Brasil investia em vários países do chamado Terceiro Mundo, sem que seus governantes fossem chamados de comunistas.

O fato é que o alinhamento ideológico aos Estados Unidos não nos fazia seguidores incondicionais de suas políticas, que, travestidas pela bandeira da liberdade, nunca deixaram de ser de rapina.

E a defesa da paz não era só um atributo brasileiro: estão esquecidos na memória conflitos armados entre países sul-americanos. Guerra era uma coisa que acontecia no Oriente Médio, na África, na Ásia, não na América do Sul.

Talvez, de fato, aqui as guerras nunca tenham sido necessárias. Afinal, como a Doutrina Monroe nos transformou em quintal dos Estados Unidos, eles nunca precisaram de guerras para nos dominarem. Se, ocasionalmente, alguém do quintal ameaçasse seus interesses, isso merecia remédios caseiros, como no Brasil de 64 e no Chile de 73 – como a História mostrará, isso voltou a acontecer no Brasil de 2016.

Mas eis que surgem condições peculiares, em que o remédio caseiro não funciona justamente num país que tem muito petróleo. É um país que nada fez contra os vizinhos, mas, ao que parece, no cúmulo da desfaçatez, os vem afrontando com a recusa à ajuda humanitária por eles oferecida.

Entra na história, evidentemente, o fato de que os Estados Unidos têm um presidente como Trump. E também o fato de que o Brasil, ao contrário do que acontecia em outros tempos, tem hoje um presidente que bate continência à bandeira dos Estados Unidos.

O que está sendo preparado para a Venezuela tem algo de diferente em relação ao tradicional cinismo das guerras de dominação dos Estados Unidos: o modelo Trump de governar não necessita dissimular nada e exerce sua truculência do modo arrogante que lhe é próprio. E arrumou, no Hemisfério Sul, títeres que combinam seu rancor ideológico e indigência política com uma vergonhosa subserviência ao império, a quem caberá o butim.

Ao que parece, logo teremos a nossa Líbia ou a nossa Síria na América do Sul. E com a ajuda do Brasil, país vocacionado para a paz.

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