Entrem em pânico

Eu não os quero esperançosos. Eu os quero em pânico. Quero que sintam o medo que eu sinto todos os dias. E então quero que ajam como numa crise. Quero que ajam como se a casa estivesse em chamas. Porque ela está.

Estas palavras são de Greta Thunberg, a adolescente sueca, portadora da Síndrome de Asperger, que virou a sensação do momento, ao inspirar o movimento Fridays for Future.

Não sei onde Greta estará dentro de dez anos, o que ela estará fazendo então, se é que haverá o que fazer, mas hoje suas palavras diretas atordoam a Europa. Se o desastre ainda não é completo, ela o denuncia com todas as palavras e aponta seu dedo para os adultos: o fim da esperança dos jovens é causado pelos adultos neste exato momento, e por isso não faz sentido dizerem que amam seus filhos.

Há dois anos conversava com uma amiga sobre a emergência climática, e ela dizia que o mundo só acordará quando acontecer um desastre – melhor que seja um desastre e não o desastre.

O desastre ainda não aconteceu, mas cada vez mais a nova geração o pressente e sabe que lhe estão roubando o futuro.

Pena que o movimento repercuta principalmente nos países ricos, em particular da Europa, onde os partidos ambientalistas obtiveram agora a segunda maior bancada no parlamento.

Aqui, continua o silêncio, e mesmo a política devastadora de Bolsonaro, em cujo governo se acelerou o desmatamento da Amazônia, que chegou a dois campos de futebol por minuto, quando muito é contabilizada como mais um dos disparates do seu desgoverno.

Mas não se responsabilize unicamente a catástrofe bolsonariana, em que ao final de quatro anos talvez já não exista o Brasil que conhecíamos: o capitalismo, que já não tem como crescer, vem, em seu estertor, avançando sobre as reservas naturais e despejando na atmosfera os gases que aumentam assustadoramente a temperatura do planeta.

Não se espere que, onde não governa a extrema direita troglodita, mas os modernos liberais, seja outra a política: há uma diferença de escala, mas nenhuma resistência à voracidade do capital, como se vê no propósito de escancarar portas à mineração, inclusive do carvão, que entre outras coisas lançará mais carbono na atmosfera.

Tudo isso acontece com uma resistência mínima da cidadania e muitas vezes com um silêncio da esquerda, que parece não ter ainda percebido a principalidade da proteção do meio ambiente para a sobrevivência do planeta.

Talvez aqui sejam tantas as urgências, como a necessidade de resistir à destruição da previdência e do ensino público ou de lutar dia a dia pela sobrevivência, que seja um luxo ainda pensar nisso. Pelo menos até as pessoas se darem conta de que a luta ambiental é a própria luta pela sobrevivência, não de um, mas de todos e de todas as espécies.

Quando se darão conta? Provavelmente depois da catástrofe. Enquanto ela não vem, não só lhes desimportarão políticas ambientais, como não verão problema em se encherem de plástico no supermercado e irem de carro ao trabalho.

Mas não custa fazê-los ouvir mais um pouco de Greta Thunberg, que fala sobre como será daqui a dez anos, não só para ela própria, como para todos nós.

Por volta do ano 2030, daqui a 10 anos, 252 dias e 10 horas, estaremos em uma posição onde desencadearemos uma reação em cadeia irreversível para além do controle humano, que provavelmente levará ao fim da nossa civilização como a conhecemos.

Se isso ainda não é suficiente, ouçamos a acusação que nos lança. Vocês mentiram para nós. Vocês nos deram falsas esperanças. Vocês nos disseram que o futuro era algo para se esperar. E o mais triste é que a maioria das crianças nem sequer têm consciência do destino que nos espera.

São palavras que se antecipam à catástrofe de que falava minha amiga. Dificilmente produzirão algum efeito nos donos do mundo, mas espero que ecoem também por aqui, porque sobreviver depende da nossa resistência.

Por isso, peço como Greta: entrem em pânico, por favor.

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