El negro es hermoso

Um pouco por timidez, um pouco por recato, não tirei foto, embora tivesse vontade. Eram cartazes escritos em espanhol contra o preconceito, num mural da 7ª série da Escola Villa-Lobos. Li enquanto esperava a professora Cecília: el negro es hermoso.


E nos corredores da escola da Vila Mapa havia um espetáculo multirracial, que também vejo nas fotos da Orquestra. Mas só lá, porque os moradores do meu condomínio são brancos; no Fórum são brancos os juízes, promotores, defensores públicos, funcionários, estagiários; os clientes do supermercado também são; quando vou ao cinema, o público é branco; se vou a um show ou concerto, é branco o público e são brancos os artistas.

Não que nunca veja negros, vejo-os muito: quando saio do condomínio de manhã, meu caminho se cruza com o das empregadas que chegam e com o pessoal da portaria; quando faço o retorno pela São Miguel para chegar ao Fórum, muitos dos pedestres que chegam à Aparício são negros; e no Fórum há negros entre as terceirizadas: portaria, elevadores, limpeza; também aparecem negros na sala de audiências; se almoço no Bourbon, vejo negros no atendimento e no recolhimento das bandejas; se passo no supermercado à noite, é possível que encontre uma caixa e um empacotador negros.

Alguém dirá que exagero, que não é assim, e aí penso naquela velha máxima “a exceção confirma a regra”. Lembro bem que na primeira vez em que a ouvi concluí que era ilógica: numa aula de biologia, ensinadas as características gerais de alguma classe de animais, “é a exceção que confirma a regra” foi a sentença que caiu sobre minha cabeça quando questionei a professora sobre uma certa espécie que parecia não se encaixar perfeitamente na definição.

Desde então, sempre pensei que exceção confirmar a regra é uma falácia, porque, se há coisas que negam a regra, ela se enfraquece, não se confirma.

É o que talvez possa pensar esse meu hipotético interlocutor, porque as exceções existem: às vezes faço audiência com advogado negro, também vejo negros comprando no Zaffari ou almoçando no restaurante. Então, se a exceção nega a regra, se a enfraquece, este meu discurso é falso.

Mas, não, as exceções são raras demais, e hoje compreendo bem o significado da expressão: o baixíssimo número de juízes negros, de médicos negros, de ricos negros nos leva a ver com estranhamento a exceção, quando aparece à nossa frente: este negro que aí está, ousando ser juiz, médico ou rico, não está no seu lugar, é um intruso.

Por tudo isso, passei a ter especial apreço pela expressão elite branca, hoje tão em voga, embora instrumentalizada na disputa política. Não que não possa sê-lo – pode e deve –, mas sinto que se perde alguma coisa quando a expressão passa a ser vista como xingamento, esvaziando-se de seu conteúdo sociológico e ideológico. Se é xingamento, vira palavrão, como filho de uma puta, sem relação com o que de fato quer dizer.

Então, é necessário marcar: a elite branca existe, é forte e forma a opinião pública. Aliás, econômica e socialmente, eu e a maioria dos meus leitores fazemos parte dela, ainda que ideologicamente possamos nos desviar do seu pensamento médio.

Ideologicamente, a elite branca é facilmente identificável pelas coisas que defende: redução da maioridade penal e aumento das penas, oposição à política de cotas, oposição a programas sociais, considerados populistas e eleitoreiros, e por aí segue.

Os exemplos do seu pensamento são muitos e habitam o dia a dia. Ampliar direitos de empregadas domésticas? Nem pensar, porque vai empobrecer a classe média. Médicos cubanos? Credo, querem fazer a revolução no Brasil, melhor não haver médicos. Abrir espaço para bicicletas nas cidades? De jeito nenhum! Um médico foi morto em assalto? Mais segurança e mais punição. 18 pessoas são mortas por esquadrão da morte em Osasco? Provavelmente eram bandidos.

Não se espere nunca da elite branca qualquer simpatia com políticas que promovam distribuição de renda e inclusão social. E não se trata só de hostilidade explícita ao mais pobre, ao negro, ao marginalizado. Aliás, me atrevo mesmo a dizer que geralmente não é um pensamento explicitamente excludente, porque as pessoas não se veem assim; é mais um sentimento irracional de quem vê seu próprio lugar ameaçado e se volta intuitivamente contra quem o ameaça.

É isso: programas sociais desviam dinheiro do contribuinte que trabalha e servem só para clientelismo político; cotas servem para tirar lugar de quem estudou honestamente e se preparou com muito sacrifício para obter uma vaga; já o aumento da repressão e das penas é para proteger a sociedade (leia-se, a elite branca) da falta de segurança.

E esse pensamento pode perfeitamente ser compartilhado entre pessoas essencialmente egoístas e outras até generosas, que se preocupam com o próximo e querem ajudar os pobres, mas não veem sua contribuição como mais que uma esmola, que em nada mudará a realidade do mundo. Esse generoso segmento da elite branca, que faz o bem, é por isso absolutamente estéril para mudar o mundo. Aliás, não se propõe a isso.

Bem, já escrevi muito e você deve estar se perguntando o que tudo isso tem a ver com o negro hermoso. Não sei dizer, eu me perdi no texto, e agora tenho de procurar uma saída.

Então, vou listar bem rápido algumas ideias que deveriam ter fluído normalmente para deixar meu texto redondo:

1) é importante esse conceito de elite branca para além da polarização política, de modo que se tenha clara essa forte resistência social à redução das desigualdades;

2) é fundamental a atuação estatal, via programas sociais que combatam a desigualdade extrema e criem oportunidades de integração aos mais pobres, mas (e isso eu não disse), se o Estado não fizer mais, por exemplo mudando a estrutura arrecadatória, as barreiras para a inclusão dos mais pobres, principalmente os não brancos, continuarão quase intransponíveis;

3) além das ações estatais, a própria sociedade precisa criar seus mecanismos de estímulo ao desenvolvimento de projetos que promovam a construção de uma práxis de integração e acolhimento social.

Este terceiro ponto tem a ver com empatia, com democracia social, com troca, acolhimento, estímulo a projetos sociais que superem a barreira do assistencialismo, e exige a superação do mero discurso de denúncia da elite branca, porque reconhece a necessidade de um engajamento social de todos nós.

E isso é até mais que dizer que el negro es hermoso; isso é construir no dia-a-dia uma sociedade democrática, para quebrar as barreiras do nosso apartheid social.