De rabo preso

O Jornal Nacional escondia as Diretas Já, mas elas estavam lá, na capa da Folha. Isso foi no início de 1984, e os democratas brasileiros respeitavam o jornal dos Frias. Mesmo em Porto Alegre, muitos amigos tinham assinatura, e quem não a lia durante a semana lia aos domingos.

Valia a pena: com um time de articulistas de primeira linha, reportagens de fôlego e uma postura crítica à Ditadura, a ponto de engajar-se na campanha pela redemocratização, a Folha de São Paulo oferecia aos seus leitores um conteúdo difícil de encontrar em outro lugar. Dava para dizer que se fazia jornalismo sério e de qualidade no Brasil.

Não foi por nada que, por aquela época, passou a dizer-se um jornal de rabo preso com o leitor. Consta que a sacada do publicitário que inventou o bordão foi em resposta à encomenda em que se queria enfatizar a ideia de um jornal que não tinha o rabo preso com ninguém.

Isso foi nos anos 80.

Não lembro bem se foi naquela época ou logo depois que, com destaque, instituíram a figura do ombudsman, cuja presença era a garantia de que o jornal continuaria crítico e democrático.

O tempo passou e a Folha mudou. Claro que nunca se rebaixou ao nível de uma Veja ou uma Globo, mas já não era a mesma. Vinha dando rateadas de vez em quando, mas mesmo assim um solitário amigo que ainda a lê aos domingos me disse esses tempos que ela mantém um bom time de articulistas, não como naquela época, mas o suficiente para que mantivesse a assinatura.

Faz tempo que parei de lê-la, mas não por desistência, foi mesmo porque às vezes é necessário optar, e eu vinha tendo outras leituras.

Mesmo assim, de quando em quando leio artigos na internet e me familiarizo com o que publica.

Claro que não gosto de sua linha e acho que, como nos outros jornais, sua cobertura da crise política vem sendo capciosa. E a figura do ombudsman – isso descobri cedo – foi um modo confortável de apenas parecer democrática, porque servia para criticar em letra miúda numa página interna o que havia aparecido com estardalhaço na primeira página.

Mas não havia ainda visto nada semelhante à escandalosa manipulação da pesquisa do Datafolha, que, a um mês da votação do impeachment, apresentou falsamente a notícia, logo replicada por todo o país, de que 50% dos brasileiros querem que Temer continue.

Com frequência, quando vejo situações desse modo escandalosas, penso se é incompetência ou desonestidade. Na verdade, não há motivo para dúvida, porque sei que não se trata de falta de inteligência.

E nessa hora me lembro do bordão. De rabo preso. Não sei com quem, mas não é com o leitor.

Foram várias as matérias que desmascararam a matéria. Recomendo duas do The Intercept: Folha comete fraude jornalística com pesquisa manipulada visando alavancar Temer e A fraude jornalística da Folha é ainda pior: surgem novas evidências.