Cunha e o morador de rua

Pensei se deveria escrever um artigo intitulado Crônica de uma prisão anunciada. Achei melhor não. Vou para outra seara, numa semana cheia de fatos e significados. Falarei sobre agressões, mesmo porque já havia pensado em escrever sobre o episódio com Cunha no aeroporto.

Queria entender melhor o significado da palavra escrachar, na acepção que agora lhe é dada, de esculhambar publicamente. Confesso que gostei desse modo de luta, que, em tempos de comunicação instantânea, é filmado, compartilhado e viralizado, numa espécie de guerrilha política, em que o político sacana ou golpista sofre na carne todo o desprezo que lhe é dirigido.

Mas, ao escrever sobre o que aconteceu com Cunha, teria de enfrentar uma dúvida que me assalta desde que começou a prática: quais são os limites do escracho, o que pode e o que não pode? Evidentemente, diria que agressão física não pode, mas isso é uma definição mínima e ainda haveria muito a esclarecer. Caberia, por exemplo, discurso ou vaia em restaurante?

Também haveria outro ponto a ser explorado: o que pode de um lado pode de outro? Haveria, constitutivo do escracho, algo que o legitimasse quando usado por meu lado e o tornasse odioso quando usado pelo outro lado?

Não sei se a agressão a Cunha seria o melhor exemplo a tomar nessas elocubrações, porque não parece ter partido de um movimento organizado. Percebem-se na filmagem gritos difusos de pega ladrão e a repentina ação de uma idosa justiceira que partiu às vias de fato. Houve uma ação direta, que, mesmo gerada espontaneamente, carrega o espírito desse alto grau de intolerância hoje visto na sociedade.

Penso até que talvez os agressores de Cunha tenham mais a ver com as ideias da direita moralista, que levantou a bandeira contra a corrupção. Se cooptou seguidores com esse discurso, não há de querer que se contenham quando veem o que, aos olhos do povo, se transformou no maior símbolo contemporâneo da corrupção.

Talvez seja isso. Mas o júbilo com que as cenas foram compartilhadas por gente de esquerda revela uma falta de reflexão sobre o que pode e o que não pode. Vi ali aquele sentimento de que tudo o que é feito ao inimigo é justo, embora odioso quando feito ao amigo.

Não sei se já se discutiu a ética e a estética do escracho. Talvez haja códigos estabelecidos, e eu é que não os conheça. Talvez, como em tanta coisa na vida, nunca se chegue a um acordo sobre seus limites. De minha parte, por ora, me contento com pobremente enunciar o famoso não faça aos outros o que não queres que te façam.

Pronto, isso já é quase um texto, mas a referência ao episódio com Cunha deveria ter sido apenas uma digressão introdutória para outra agressão, de maior significado simbólico, o chute no morador de rua.

A cena revolta quem a vê.

No entanto, é uma agressão corriqueira, faz parte do dia a dia. Há moradores de rua espancados, queimados, mortos. Tudo isso é muito comum. Só não nos toca, porque não vemos.

Mas há algo que vai além da cena. O que acontece ali é um retrato da agressão constitutiva da sociedade brasileira, aquela que exclui dezenas de milhões, dos quais os moradores de rua são uma manifestação limiar.

Os moradores de rua são uma negação eloquente da sociedade em que imaginamos estar, essa em que o trabalho enobrece e, com alguma sorte, enriquece. Por algum motivo, estão fora, mas se negam a desocupar o nosso espaço. Permanecessem na vila ou em um bairro afastado, seriam esquecidos, como são os que lá estão.

Teimosamente, ocupam nossas calçadas, ferem nossos olhos e nosso olfato, nos agridem com sua acusação. São seres desprezíveis, e por isso diariamente recebem olhares e palavras tão violentos quanto o chute dado. A diferença é que os olhares, as palavras, não aparecem em filme compartilhado aos milhares.

Há coisas que não queremos saber. Não queremos saber da violência, exceto quando nos ameaça diretamente. A violência dos outros, essa que atinge endemicamente os excluídos, que se manifesta naquela periferia onde nunca colocaremos os pés, não nos diz respeito.

E, por não nos dizer respeito, é melhor que não a vejamos. A deletamos. Ela está no plano da não existência, e só nos assombra se pensamos que pode invadir nosso mundo. Se não existe, também não precisamos saber o que a causa.

Mas o morador de rua está lá, dorme na nossa calçada, invade a nossa cidade, polui nosso ambiente. Simbolicamente o chutamos.

Divago sobre essas coisas, numa semana cheia de significados. E me dou conta de que esse chute serve de tenebrosa ilustração para a semana em que a Câmara dos Deputados aprovou em primeiro turno a PEC 241.

Para o texto, uso outra ilustração: de Goya, dois velhos tomando sopa.