Contra o silêncio

Era uma conversa entre amigos sobre política. O assunto era banal, tão banal que esqueci. Mas, no meio dessa discussão pouco importante, alguém, a pretexto de qualquer coisa, se queixou da falta de heróis e lembrou o famoso poema do pastor Niemöller, aquele em que o narrador fala do seu silêncio quando levaram os comunistas, depois os judeus, os sindicalistas, os católicos, até que vieram buscá-lo, e já não havia voz que pudesse defendê-lo.

Isso aconteceu faz tempo, seguramente mais de dez anos, e só lembro do fato por causa da desproporção entre a banalidade do assunto e o desejo de ações heroicas. Seria até de discutir se chega a ser um ato de heroísmo alguém levantar a voz para evitar que os outros sejam levados: Niemöller não viu assim, porque fez a crítica da omissão do homem comum contra o arbítrio. Afinal, heróis são quase super-homens, fazem o que não se espera de pessoas comuns, e ele esperava apenas a ação de uma pessoa comum, que levantasse a voz contra a injustiça.

Mas, independentemente do caráter desse narrador que não fez o que dele se esperava – e talvez em pleno período nazista um gesto mínimo de resistência já fosse um ato de heroísmo – a todos pareceu, nessa conversa de amigos, que a citação era inadequada para a banalidade do assunto, a ponto de banalizar o próprio poema.

De fato, vivíamos então tempos de uma certa bonança. Não que, em qualquer tempo, o Brasil tenha, mesmo momentaneamente, se tornado um paraíso, mas as coisas corriam com alguma normalidade, e as falas épicas tinham que ser guardadas para momentos apropriados, que, esperávamos, nunca fôssemos obrigados a enfrentar.

A conversa encerrou por aí e logo saiu da minha lembrança. Agora, por algum motivo, e de diversas formas, ela tem voltado. Ora penso nela associada a atos de violência, ora a atos de heroísmo, mas sempre com aquele temor de que a vida ainda venha a me reservar tempos em que meu vizinho seja levado, tempos em que seja exigido de mim levantar a voz, ou mesmo que necessite ouvir a voz do vizinho em meu favor.

Talvez seja excesso de preocupação, talvez as ameaças de fuzilamento em comício ou a louvação do herói que mata sejam apenas retóricas, mas quem haveria de adivinhar, quando deu o voto aos nazistas e deixou se hipnotizar por eles, tudo o que seriam capazes de fazer depois?

Niemöller era um nacionalista, e os nacionalistas se seduziram com o nazismo, que lhes prometia a grande Alemanha. Parece que muito cedo se deu conta do que acontecia, mas talvez tenha silenciado quando levaram os primeiros, os comunistas de quem não gostava.

Agora, quando me vem a lembrança, e porque ela insiste em me atormentar, a palavra banalidade que a acompanha já não diz com a desimportância do assunto que, há dez anos, serviu de pretexto para a recitação do poema: a banalidade em que penso é a do mal, praticada pelo cidadão comum, esse mesmo para o qual dou bom dia e com quem converso sobre o tempo, mas que vejo capaz de seguir líderes que propõem caminhos inimagináveis num mundo civilizado.

E temo pelo que daí possa vir.

Há diferentes traduções do poema de Martin Niemöller. Transcrevo a seguinte:

E não sobrou ninguém

Primeiro levaram os comunistas

mas não me importei com isso

eu não era comunista;

em seguida levaram os sociais-democratas

mas não me importei com isso

eu também não era social-democrata;

depois levaram os judeus

mas como eu não era judeu

não me importei com isso;

depois levaram os sindicalistas

mas não me importei com isso

porque eu não era sindicalista;

depois levaram os católicos

mas como não era católico

também não me importei;

agora estão me levando

mas já é tarde

não há ninguém para

se importar com isso.

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