Como se fossem pessoas normais

Publicado em 17 de janeiro de 2020

Não vejo televisão, pouco assisto do noticiário. Cada vez mais, fujo dos discursos oficiais. Quando compartilham qualquer coisa, dizendo olha que absurdo, desvio o olhar. Por isso, só li o pronunciamento do Secretário da Cultura, Roberto Alvim, na centésima vez em que fui interpelado a fazê-lo.

Todo mundo comentava a frase de Goebbels, e foi o que busquei na fala. Mas aqueles quatro minutos são muito mais do que a frase do chefe da propaganda nazista: está lá a mitologia nazista, está o figurino nazista, Wagner como fundo musical, e Bolsonaro assistindo tudo da parede. O conteúdo da fala é nazista, e é nazista a visão de cultura apresentada, com fé, lealdade, autossacrifício, luta contra o mal, com energia e impulso.

Roberto Alvim foi demitido, única medida possível ao governo após a reação pública à ousadia em apresentar sem disfarces a estética e a ideologia nazista. Mas será cancelado o projeto cultural nazista? A demissão significa o repúdio às ideias nazistas?

No mesmo dia da gravação de Alvim, Bolsonaro fez um discurso, muito comentado porque atacou raivosamente a imprensa. Também resolvi assistir, e ouvi algo que não gerou escândalo: “Não dê chance pra essa esquerda, eles não merecem ser tratados como se fossem pessoas normais.” Seria estranho se a frase tivesse saído da boca de Hitler?

Alguém lembrou por esses dias o poema do pastor Niemöller, aquele que começa com primeiro os nazistas vieram buscar os comunistas, mas eu não era comunista e me calei.

Aqui, ainda não os levaram, mas Bolsonaro, que antes prometeu a ponta da praia à esquerda – e os liberais que nele votaram disseram ser apenas um exagero de campanha –, agora diz que pessoas de esquerda não merecem ser tratadas como gente normal. Não foi o que o Führer falou dos judeus?

Vamos esperar, com nosso silêncio, que o poema de Niemöller vire uma profecia para o Brasil de hoje?

O poema, intitulado E não sobrou ninguém, em uma de suas traduções:

Primeiro levaram os comunistas

mas não me importei com isso

eu não era comunista;

em seguida levaram os sociais-democratas

mas não me importei com isso

eu também não era social-democrata;

depois levaram os judeus

mas como eu não era judeu

não me importei com isso;

depois levaram os sindicalistas

mas não me importei com isso

porque eu não era sindicalista;

depois levaram os católicos

mas como não era católico

também não me importei;

agora estão me levando

mas já é tarde

não há ninguém para

se importar com isso.