A figueira

Após iniciarem como uma desagradável obrigação, logo as caminhadas diárias se revelaram prazerosas, e não só por causa da frase, antes incompreensível, que via em adesivos: viciado em serotonina.

O fato é que a caminhada se dá em cenário vedado aos sedentários, e dele retiro sensações de outro modo inalcançáveis. O Alim Pedro, onde há alguns meses vi amanhecer o IAPI, é um lugar frequente para visões, como o ataque rasante de um joão-de-barro, que, numa manhã de quase chuva, pôs em fuga duas improváveis saracuras. (mais…)

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A voz

Não sei se é grave: ouço vozes. Mas não se assuste, não são vozes imperativas, que, seguidas à risca, me assegurarão hospedagem vitalícia num manicômio judiciário. Na verdade, é uma voz só, num tom brando, que se manifesta um pouco abaixo dos meus pensamentos. Às vezes some, outras vezes fala comigo, mas não a ouço, só ocasionalmente ela me chama a atenção e passa a dominar a cena. (mais…)

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Amanhecer no IAPI

Sexta-feira, seis horas. Desço a madrugada fria da Plínio, sigo pela Avenida dos Industriários, passo pelo Alim Pedro e o contorno. Não é meu hábito, mas o Brasil e Costa Rica atrapalha a rotina e o despertar antecipado me deu a ideia. Há mais de trinta anos, desde os tempos de panfletar em fábricas, não respirava o ar frio da manhã escura.

A ideia é caminhar até o sol nascer, uma hora e meia, que começa com o susto do cão vadio – o dele e o meu, mas é ele que se afasta do meu caminho. Somos só nós dois no parque. Nós e os sabiás, que a essa hora já revolvem o chão, silenciosos como são no inverno. (mais…)

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Delação no colégio

Às vezes, imagino o sistema penal como se fosse um sistema educacional. Sei que em tese faz sentido, porque a pena deveria ter esse caráter pedagógico, de recuperação. Mas também sei que falo bobagem, porque nem o sistema foi criado para isso, nem as pessoas o querem assim. E não poderiam, porque educar pressupõe amar, ainda que genericamente, como semelhantes.

Mas é um exercício: você pensa que a pena é um intervalo na vida do sujeito, em que ele terá oportunidade de pensar sobre a bobagem que fez, estudar, aprender uma profissão e ao final sair daí para um emprego honesto. (mais…)

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A doutrina do escracho

Confesso, estou ficando velho. Claro, dirás, falta pouco para pegares ônibus de graça e pagares meia no cinema. Mas não é disso que falo. Talvez esse processo de comemorar aniversários demais tenha me trazido uma certa dose de mau humor, ou mesmo me tornado conservador, como sói acontecer a quem envelhece. Ou, o que é mesmo mais provável, talvez sempre tenha sido conservador. Por isso, caro leitor, quando lês meus textos e concluis que sou meio comunista, não te iludas: sou o contrário do que pensas.

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Números

A rebelião do criador contra a criatura (ou contra a máquina que a controla): resolvi não me conformar com a lista de postagens mais lidas, que há tempo descobri ser fajuta. Aliás, quem aportar por este blog e olhar a lista, concluirá que estou em franca decadência, porque os textos mais lidos são de março, quando recém tinha começado a publicar.

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O encontro entre o gigolô das palavras e P., 39 anos, louca para dar

Tenho tentado imaginar como seria o encontro entre o gigolô das palavras e P., 39 anos, louca para dar. Dar para quem sabe usar corretamente a crase.

O gigolô reconhece que sempre foi péssimo em Português, vive às custas das palavras como um cáften profissional e se compraz em maltratá-las, delas exigindo submissão. Sobreviverá ao teste das crases?

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