Garrincha e Feola

Naquela época heroica não existia a profusão de câmeras que mostram cada detalhe do jogo. Havia uma só, e ela precisava acompanhar a bola. Por isso, nunca se viu o sono de Feola no banco, enquanto a seleção canarinho passava por seus adversários.

Feola dormindo no banco é uma das muitas histórias que contam sobre o velho técnico bonachão, alvo permanente de um folclore que se criou, fomentado principalmente pelos próprios jogadores. (mais…)

Leia Mais

O grande vazamento

16 de março de 2016. Foi o dia em que um juiz abalou a República, ao entregar para a Globo a gravação de diálogo telefônico entre Dilma e Lula.

Na noite desse 16 de março, ouviu-se, vinda das janelas da classe média, a trilha sonora para a voz com empostação solene, que Bonner reservava aos fatos de extrema gravidade. O Brasil estava em transe, e uma parcela significativa dos brasileiros, insuflada por Moro-Globo, bradava pela derrubada do governo. (mais…)

Leia Mais

Entrem em pânico

Eu não os quero esperançosos. Eu os quero em pânico. Quero que sintam o medo que eu sinto todos os dias. E então quero que ajam como numa crise. Quero que ajam como se a casa estivesse em chamas. Porque ela está.

Estas palavras são de Greta Thunberg, a adolescente sueca, portadora da Síndrome de Asperger, que virou a sensação do momento, ao inspirar o movimento Fridays for Future. (mais…)

Leia Mais

O velho, o diabo e o Supremo

Eu deveria estranhar. Mas não estranho. E não por ter atingido a idade provecta do diabo, que sabe por velho, mas pelo que tenho visto nestes últimos anos, em que tudo o que era já não é mais.

Os poderes desnudos revelam coisa bem diferente – e mais assustadora – que a vaidade tola do rei que desfilou nu: revelam a decomposição do Estado liberal, cujos princípios foram respeitados enquanto havia certa estabilidade, irmã de uma relativa prosperidade (uso “certa” e “relativa” de propósito, não por pobreza estilística). (mais…)

Leia Mais

Mina da nossa miséria

De Getúlio a Dilma, atravessamos vários períodos de aposta no desenvolvimento nacional, não subordinado ao grande capital internacional, principalmente o americano. Não foi sempre um projeto de governos democráticos nem necessariamente de esquerda, basta ver que um dos pontos altos dessa política aconteceu no Governo Geisel.

Falar em desenvolvimento na segunda década do século XXI pode não gerar entusiasmo, principalmente entre os que percebem o quanto o conceito de crescimento fundado no PIB está na base da degradação ambiental do planeta, mas é certo que tais políticas tentavam dar ao Brasil um protagonismo econômico cuja possibilidade de realização foi fulminada a partir do golpe de 2016, com a entrega do governo a setores empenhados na subordinação ao capital internacional, principalmente americano. (mais…)

Leia Mais

Alta traição

Julian Assange foi preso. Expulso da embaixada do Equador em Londres, na qual estava asilado há quase sete anos, o fundador do WikiLeaks foi entregue para a polícia inglesa. Seu provável destino são os Estados Unidos, onde provavelmente será acusado por alta traição.

E não é sem motivo: há dez anos o WikiLeaks vem vazando informações sigilosas dos Estados Unidos, que revelam, entre outras coisas, métodos organizados de tortura e assassinatos, além de espionagem generalizada, incluindo suas autoridades máximas de outros países, entre as quais a toda-poderosa Angela Merkel. (mais…)

Leia Mais

Não é engano

Noite de domingo. Chego em casa e verifico as postagens. Logo me chamam a atenção três vídeos curtos com um jovem negro em alguma esquina de São Paulo. No primeiro, ele é revistado de modo humilhante por um policial militar, enquanto outro policial acompanha a cena com revólver em punho; no segundo, os policiais se dirigem à pessoa que filmava a cena e lhe exigem os documentos; no terceiro, já sem a presença dos policiais, o jovem revistado desaba em choro, certamente causado pela humilhação sofrida. O áudio pouco registra, mas se pode ouvir que, em certo momento, o policial berra, enquanto segue a revista: cala a boca, senão você vai preso! E segue: não tô aqui como cidadão, tô como polícia! (mais…)

Leia Mais

Ruas lavadas de sangue

Quando, no futuro, alguém escrever a crônica das sandices proferidas nesta época, teremos uma demonstração prática do que é uma tragicomédia. Ou então, na melhor linha trash, de um filme do gênero terrir.

Mas isso só na crônica do futuro, porque hoje, quando vivemos os tempos de que o cronista tratará, e ainda que nossa necessidade de seguir vivendo nos faça rir e debochar, é impossível não sentir a presença do elemento de tragédia, ainda que impulsionado do modo mais grotesco. (mais…)

Leia Mais

Réquiem para meu amigo

Querido amigo:

Estou aqui imerso em lembranças. Uma delas sobressai, por ela sempre começo e termino. Depois de ter uma ideia genial (sempre tinha ideias geniais), te encontrei de manhã, eu lendo o jornal, tu já em incessantes atividades, e chamei enquanto passavas: que achas de fazermos tal coisa (a ideia genial)? E tu: então faz, tu vive tendo ideias, começa a fazer!

Assim eras: quando tinhas uma sugestão, ela vinha acompanhada de detalhes sobre os passos a serem dados, ou até com vários passos já dados. Teus passos não cessavam: eras movimento. (mais…)

Leia Mais

Carta para Lula

Caro presidente Lula:

Há alguns meses sugeriram que as pessoas lhe mandassem cartas ou enviassem livros, como modo de fazer ver que há brasileiros que se preocupam com sua situação.

Pensei em escrever alguma coisa, mas não consegui: geralmente tenho dificuldade para pronunciar palavras de conforto e com certeza muitos escreveram linhas mais alentadas do que eu seria capaz.

A ideia me voltou algumas vezes, e certa feita pensei em lhe mandar um singelo livrinho que escrevi. Não serviria para contribuir para a sua profunda compreensão da realidade nacional, que para isso você tem muitas excelentes fontes, mas achei que poderia lhe agradar a ideia de um dia ler as historinhas para seus netos, que adorariam ver as belas ilustrações do Santiago.

Mas, sabe como é, a vida é um turbilhão, e acaba nos levando de roldão, sem que façamos as coisas que poderiam nos tornar mais humanos. O fato é que nunca enviei as historinhas, nem escrevi a dedicatória, que agora tento imaginar como poderia ter sido.

Eu as escrevi para dar a crianças que, sem terem onde ficar, acabavam acompanhando os pais ao Fórum, onde aguardavam no corredor as difíceis consequências da audiência de uma Vara de Família, vivendo o sofrimento do conflito e da separação.

Eram audiências diferentes daquelas que você viveu, mas, como essas, que o separaram de milhões de pessoas que o amam, deixavam em suspenso para cada uma dessas crianças o afeto e a esperança no futuro.

Me arrependo de não ter lhe mandado as historinhas. Provavelmente você nem as teria visto, perdidas entre milhares de cartas e livros, mas, como sempre dizem, o que vale é a intenção, e o presente teria sido de coração.

Hoje penso que você as poderia ter lido para Arthur. Claro, eu sei, está tão difícil deixarem você fazer qualquer coisa, e também não te deixariam mostrar o livrinho para ele, mas na minha imaginação eu fiz o que não fiz e eles permitiram o que não permitem.

Bem, você já não as lerá para Arthur, e, neste momento de dor, resta te dar um abraço no coração.

Que estas palavras sirvam de dedicatória para o livrinho que não enviei.

Prometo que o enviarei, para que possas ler aos outros netos.

Fica bem.

Leia Mais