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As palavras perdidas

Não sei precisar quando, mas perdi as palavras. De início, não percebi: sentava, iniciava um parágrafo, às vezes chegava ao segundo, e nada fluía. Logo – como acontece neste momento – sentia vontade de fugir, e fugir significava me perder pela internet ou me esquecer num jogo viciante. Passada meia hora, voltava ao texto iniciado e já não via nele conexão que me permitisse continuar. Até agora não sei se faltava qualidade ao texto iniciado ou me faltava ânimo para continuá-lo. Continuar lendo

As covas

Uma imagem vale mais que mil palavras. A máxima foi novamente confirmada hoje, com a capa do Washington Post, na qual se veem dezenas de covas abertas num cemitério de São Paulo, enquanto se realiza um enterro, no qual os funcionários usam roupas de proteção. Continuar lendo

Pensando na quarentena

A gripe espanhola aconteceu há cem anos, e matou dezenas de milhões de pessoas (50, 100?), num mundo cuja população era de 1,8 bilhões. Morreu entre 3 e 5% da população do planeta. Hoje uma pandemia que aponta número muito menor de mortes paralisa o mundo. Para comparar, mesmo a assustadora projeção de quase 500 mil mortes para o Brasil, por conta da omissão dos governos em seus vários níveis, representaria menos de 0,3% da população. Continuar lendo

Arquivo morto

Foi há alguns meses. Numa frase de duas linhas, responsabilizei os eleitores dele pelas queimadas da Amazônia. Houve quem retrucasse, e, surpreendentemente educado, um deles, após argumentar que a queimada se repetia da mesma forma em todos os governos, acabou se saindo pela tangente, com esta: “Devemos combater um problema de cada vez. Você notou, por exemplo, que não se fala em corrupção na presidência?”
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Como se fossem pessoas normais

Não vejo televisão, pouco assisto do noticiário. Cada vez mais, fujo dos discursos oficiais. Quando compartilham qualquer coisa, dizendo olha que absurdo, desvio o olhar. Por isso, só li o pronunciamento do Secretário da Cultura, Roberto Alvim, na centésima vez em que fui interpelado a fazê-lo.
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Boa viagem

Negro, andrajoso, cambaleante.
Estou a três passos. Ele vem, me diz algo em voz arrastada.
Desvio, e ele: ô-ô-ô, me responde!
Me volto, e ele: onde eu tô?
Tá numa parada! Continuar lendo

Quem é assassino?

O desembargador decidiu que Marcelo D2 não pode chamar Doria de assassino. Há um ano, Doria disse que a polícia atiraria para matar. Foi uma fala até comedida, porque na mesma época Witzel, aquele que comemora a morte como se fosse um gol, disse que a polícia miraria na cabecinha.
O fato é que a polícia de São Paulo segue a do Rio como máquina de matar. Máquina de matar negros, pobres e favelados. Continuar lendo

O desembargador e o conselheiro

Dois fatos da semana me levaram a pensar sobre o quanto pode haver de surpreendente e o quanto de trivial numa notícia. São acontecimentos absolutamente distintos, exceto pelo fato de serem retratos fiéis do que é o Brasil.
Se submetida ao critério do ineditismo, a morte de jovens de periferia em um baile funk seria uma não-notícia. Algo que se repete dia após dia, anunciado como política pelos governantes, que anunciam os policiais prontos para matar os pobres (mas, quando dá mal, tiram o corpo fora), pode comover ou revoltar quem ainda tem capacidade para isso, mas lhe falta essa característica de acontecimento. São quase banalidades. Do mal. Continuar lendo

Parei de escrever

Fui a uma reunião, e ouvi, após me identificar na recepção: parou de escrever. Me vieram várias respostas, que não dei. Podia ser: escrevo sim, só reduzi a frequência. Ou: escrevo, mas o Facebook não me ajuda na divulgação. Ou ainda: relaxei, porque dei prioridade para um projeto ambiental. Ou, quase mal educado: pararam de me ler.
Havia mais duas ou três respostas menos cotadas, mas fiquei em silêncio. Não que alguma delas fosse falsa, mas nenhuma era totalmente verdadeira. O fato é que até penso em escrever, mas não engreno. Continuar lendo

O teste

Em 2016, integrei um grupo de operadores jurídicos, então denominado Resistência Constitucional, que realizou alguns eventos públicos em defesa da democracia e contra o golpe então em marcha.
Num deles, reunimos Marcelo Lavenère, Lênio Streck e Pedro Estevam Serrano, num ato público que levava justamente este nome: Resistência Constitucional. Pois desde ontem tenho pensado nesse ato de resistência, porque nele Pedro Serrano, estudioso de um novo tipo de golpe de Estado, aquele em que o ator já não são os militares, mas o sistema de justiça, lembrou da derrubada de Fernando Lugo da presidência do Paraguai, num processo que, de tão sumário, concedeu apenas duas horas para a elaboração da defesa. Continuar lendo

Lado A, lado B

Lado A

A semana que terminou com Lula Livre havia iniciado com os megaleilões do pré-sal. Ao final fracassada, a tentativa de venda do filé do pré-sal foi mais um capítulo da política, iniciada logo após o golpe, de privatização e desnacionalização das maiores riquezas nacionais.

Sob esse aspecto, Bolsonaro apenas continua, e aprofunda, a política iniciada com Temer, num momento traumático da vida nacional, bem explicado por Naomi Klein como o momento encontrado pelo neoliberalismo predador para aplicar a doutrina do choque. Continuar lendo

Em qual casa?

Um homem e uma mulher. Os conheço da rua, o suficiente para um bom dia, às vezes um faz calor ou vai chover. Para ser exato, conheço um e conheço a outra, porque, ao contrário do que aconteceu agora, não os vejo juntos. Me preparei para o cumprimento protocolar, mas, não encontrando seus olhares e percebendo a animação da conversa, desisti. Sem bom dia, foi inevitável ouvir, enquanto passava, alguns segundos do que diziam. Continuar lendo

O Judiciário pós-democrático

Como o Judiciário chegou a esse ponto? Foi a primeira pergunta da entrevista. Olhei surpreso para o pesquisador, mas ele não me ajudou: cabia a mim responder também qual era o ponto.
Demorei a engrenar, falei muito e certamente não disse tudo. Escrevendo aqui, talvez lembre um pouco do que disse, esqueça outro tanto e diga coisas que nem ao menos falei. Ou até mesmo mude algumas coisas.
Está claro que a pergunta não era neutra: seja pelo enunciado em si, seja porque sabemos bem o ponto em que estamos, não podia ser coisa boa. Então, responder a pergunta significava falar do golpe, do Supremo, da Lava Jato, do endeusamento de Moro. Significava, em suma, tentar entender qual foi o papel do Judiciário nessa história e, pressupondo que foi relevante, como se habilitou a representá-lo. Continuar lendo

A dedicatória

Dedico esta foto a você, que votou nele. Sim, é para acusar tua cumplicidade. Mas é principalmente para te desafiar a tomar uma atitude.

Postei estas palavras em 21 de agosto, acompanhadas da foto do tamanduá cegado pelo fogo. Como sou habitante de uma bolha, a quase totalidade dos comentários que se seguiram fez coro às minhas palavras, geralmente num tom acima do que utilizei. Continuar lendo

As árvores da Etiópia

350 milhões de árvores. Ou, para ser mais preciso, 353.633.660 mudas. Foi o que a Etiópia plantou em apenas 12 horas, batendo o recorde mundial.
Segundo o noticiário, a ação faz parte do programa Legado Verde, cujo objetivo é plantar 4 bilhões de mudas até outubro, e integra o compromisso assumido por 28 países africanos de reflorestarem 100 milhões de hectares até 2030. Continuar lendo

Vinte degraus

Saio do Alim Pedro em direção à Praça Chopin. Lá adiante, descendo por detrás do Becker, caminha no mesmo sentido uma velhinha quase obesa, negra. Com a mão direita se segura nas grades, na esquerda um grande guarda-chuva preto serve de bengala. Talvez moradora do bairro, mais provavelmente usuária do Postão. Continuar lendo

Abismo

Voltei a uma vara de família, a mesma de onde saí há quatro anos.
Foram três semanas e dezenas de audiências, principalmente em ações de alimentos.
No início pensei: quatro anos, e nada mudou.
Passaram os dias, e passei a perceber diferenças. Nada estatístico, tudo sentir. Talvez um sentir alimentado por uma memória falha, empenhada em confirmar o que tenho pensado. Mesmo assim, um sentir, que compartilharei com a advertência sobre a possibilidade de falsas lembranças. Continuar lendo

Garrincha e Feola

Naquela época heroica não existia a profusão de câmeras que mostram cada detalhe do jogo. Havia uma só, e ela precisava acompanhar a bola. Por isso, nunca se viu o sono de Feola no banco, enquanto a seleção canarinho passava por seus adversários.
Feola dormindo no banco é uma das muitas histórias que contam sobre o velho técnico bonachão, alvo permanente de um folclore que se criou, fomentado principalmente pelos próprios jogadores. Continuar lendo

O grande vazamento

16 de março de 2016. Foi o dia em que um juiz abalou a República, ao entregar para a Globo a gravação de diálogo telefônico entre Dilma e Lula.

Na noite desse 16 de março, ouviu-se, vinda das janelas da classe média, a trilha sonora para a voz com empostação solene, que Bonner reservava aos fatos de extrema gravidade. O Brasil estava em transe, e uma parcela significativa dos brasileiros, insuflada por Moro-Globo, bradava pela derrubada do governo. Continuar lendo

Entrem em pânico

Eu não os quero esperançosos. Eu os quero em pânico. Quero que sintam o medo que eu sinto todos os dias. E então quero que ajam como numa crise. Quero que ajam como se a casa estivesse em chamas. Porque ela está.
Estas palavras são de Greta Thunberg, a adolescente sueca, portadora da Síndrome de Asperger, que virou a sensação do momento, ao inspirar o movimento Fridays for Future. Continuar lendo

O velho, o diabo e o Supremo

Eu deveria estranhar. Mas não estranho. E não por ter atingido a idade provecta do diabo, que sabe por velho, mas pelo que tenho visto nestes últimos anos, em que tudo o que era já não é mais.

Os poderes desnudos revelam coisa bem diferente – e mais assustadora – que a vaidade tola do rei que desfilou nu: revelam a decomposição do Estado liberal, cujos princípios foram respeitados enquanto havia certa estabilidade, irmã de uma relativa prosperidade (uso “certa” e “relativa” de propósito, não por pobreza estilística). Continuar lendo

Mina da nossa miséria

De Getúlio a Dilma, atravessamos vários períodos de aposta no desenvolvimento nacional, não subordinado ao grande capital internacional, principalmente o americano. Não foi sempre um projeto de governos democráticos nem necessariamente de esquerda, basta ver que um dos pontos altos dessa política aconteceu no Governo Geisel.

Falar em desenvolvimento na segunda década do século XXI pode não gerar entusiasmo, principalmente entre os que percebem o quanto o conceito de crescimento fundado no PIB está na base da degradação ambiental do planeta, mas é certo que tais políticas tentavam dar ao Brasil um protagonismo econômico cuja possibilidade de realização foi fulminada a partir do golpe de 2016, com a entrega do governo a setores empenhados na subordinação ao capital internacional, principalmente americano. Continuar lendo

Alta traição

Julian Assange foi preso. Expulso da embaixada do Equador em Londres, na qual estava asilado há quase sete anos, o fundador do WikiLeaks foi entregue para a polícia inglesa. Seu provável destino são os Estados Unidos, onde provavelmente será acusado por alta traição.
E não é sem motivo: há dez anos o WikiLeaks vem vazando informações sigilosas dos Estados Unidos, que revelam, entre outras coisas, métodos organizados de tortura e assassinatos, além de espionagem generalizada, incluindo suas autoridades máximas de outros países, entre as quais a toda-poderosa Angela Merkel. Continuar lendo

Não é engano

Noite de domingo. Chego em casa e verifico as postagens. Logo me chamam a atenção três vídeos curtos com um jovem negro em alguma esquina de São Paulo. No primeiro, ele é revistado de modo humilhante por um policial militar, enquanto outro policial acompanha a cena com revólver em punho; no segundo, os policiais se dirigem à pessoa que filmava a cena e lhe exigem os documentos; no terceiro, já sem a presença dos policiais, o jovem revistado desaba em choro, certamente causado pela humilhação sofrida. O áudio pouco registra, mas se pode ouvir que, em certo momento, o policial berra, enquanto segue a revista: cala a boca, senão você vai preso! E segue: não tô aqui como cidadão, tô como polícia! Continuar lendo

Ruas lavadas de sangue

Quando, no futuro, alguém escrever a crônica das sandices proferidas nesta época, teremos uma demonstração prática do que é uma tragicomédia. Ou então, na melhor linha trash, de um filme do gênero terrir.
Mas isso só na crônica do futuro, porque hoje, quando vivemos os tempos de que o cronista tratará, e ainda que nossa necessidade de seguir vivendo nos faça rir e debochar, é impossível não sentir a presença do elemento de tragédia, ainda que impulsionado do modo mais grotesco. Continuar lendo

Réquiem para meu amigo

Querido amigo:

Estou aqui imerso em lembranças. Uma delas sobressai, por ela sempre começo e termino. Depois de ter uma ideia genial (sempre tinha ideias geniais), te encontrei de manhã, eu lendo o jornal, tu já em incessantes atividades, e chamei enquanto passavas: que achas de fazermos tal coisa (a ideia genial)? E tu: então faz, tu vive tendo ideias, começa a fazer!

Assim eras: quando tinhas uma sugestão, ela vinha acompanhada de detalhes sobre os passos a serem dados, ou até com vários passos já dados. Teus passos não cessavam: eras movimento. Continuar lendo

Carta para Lula

Caro presidente Lula:

Há alguns meses sugeriram que as pessoas lhe mandassem cartas ou enviassem livros, como modo de fazer ver que há brasileiros que se preocupam com sua situação.

Pensei em escrever alguma coisa, mas não consegui: geralmente tenho dificuldade para pronunciar palavras de conforto e com certeza muitos escreveram linhas mais alentadas do que eu seria capaz.

A ideia me voltou algumas vezes, e certa feita pensei em lhe mandar um singelo livrinho que escrevi. Não serviria para contribuir para a sua profunda compreensão da realidade nacional, que para isso você tem muitas excelentes fontes, mas achei que poderia lhe agradar a ideia de um dia ler as historinhas para seus netos, que adorariam ver as belas ilustrações do Santiago. Continuar lendo

Era uma vez um país pacífico

O Brasil é um país pacífico. Cresci ouvindo esse conceito, a um tempo aplicável à nação e aos nacionais. A natureza afável do brasileiro, geralmente afirmada de modo associado com uma não tão lisonjeira indolência, correspondia coletivamente a uma vocação brasileira para a paz.

A participação brasileira na Segunda Guerra não contava, porque o propalado heroísmo dos pracinhas da FEB na Itália não ocultava o fato de que a guerra tivera outros atores e nossa participação fora marginal. Já a guerra contra o Paraguai, temível adversário comandado pelo sanguinário Solano López, acontecera há mais de um século, e por isso não desmentia essa verdade. Continuar lendo

A figueira

Após iniciarem como uma desagradável obrigação, logo as caminhadas diárias se revelaram prazerosas, e não só por causa da frase, antes incompreensível, que via em adesivos: viciado em serotonina.
O fato é que a caminhada se dá em cenário vedado aos sedentários, e dele retiro sensações de outro modo inalcançáveis. O Alim Pedro, onde há alguns meses vi amanhecer o IAPI, é um lugar frequente para visões, como o ataque rasante de um joão-de-barro, que, numa manhã de quase chuva, pôs em fuga duas improváveis saracuras. Continuar lendo

Medo, surpresa, emoção

O pacote anticrime do nosso Ministro da Justiça traz tudo o que se pode esperar de um governo de extrema direita: endurecer, endurecer, endurecer.
Muitos já fizeram seus comentários e mostraram as consequências que dele virão: prender, cada vez mais, os mesmos de sempre, os pretos e os pobres, que breve conhecerão os presídios na sua versão vertical, depois da brilhante ideia do também direitista governador do Rio de Janeiro. Continuar lendo

Carta à Panvel

Senhor Presidente:
Sou cliente da Panvel, com cartão e tudo. Se mais não compro, é porque felizmente não cheguei ainda àquela idade em que a maior parte da nossa poupança é destinada a medicamentos. Mesmo assim, são décadas de fidelidade, que vem desde a época da Panitz e da Velgos. Para que tenha uma ideia, lhe digo que há um par de anos abriu perto de minha casa uma farmácia que praticava preços melhores, mas continuei a comprar da Panvel.
Nunca houve um motivo particular para isso, mesmo porque não sei se há diferença de qualidade em relação às outras farmácias. Talvez seja mais uma manifestação inconsciente de uma certa mística gaúcha, que em outros tempos me fazia voar com a Varig e continua a me sugerir que abasteça nos Postos Ipiranga. Talvez conte ainda o germanismo do nome Panitz. São, de qualquer maneira, manifestações atávicas, sem explicação racional, que me fazem desviar o passo, mesmo quando há farmácia mais próxima e mais barata. Continuar lendo

Desastre

Algumas coisas não estão claras. Não está claro se a Globo ressuscitou o jornalismo investigativo ou se está apenas usando seus fortes argumentos para convencer Bolsonaro de que talvez o mais prudente seja continuar a lhe destinar uma grana preta em publicidade.
Também não está claro se o que vem sendo revelado é apenas extorsão de salário de assessores, o prosaico Rachid, tão comum no baixo clero, ou se há coisas mais sérias, como envolvimento com o crime organizado, em particular as milícias. Continuar lendo

Apesar de comunista

Fui elogiado. A notícia me veio truncada, e o que sei é que fui assunto numa conversa entre terceiros, na qual, provavelmente diante de alguma alusão do interlocutor ao meu radicalismo, o amigo me defendeu, dizendo que, mesmo comunista, eu era uma pessoa de diálogo e bom senso.
Não posso negar que fiquei envaidecido com o elogio, do mesmo modo como, há mais tempo, ficara feliz quando uma pessoa revelou seu espanto ao descobrir que eu trabalhava, porque imaginava que gente de esquerda só dava discurso e militava. Continuar lendo

Direitos Humanos na resistência

Em Curitiba, mais de duzentos lares foram destruídos pelo fogo após ação policial; na Paraíba, dois líderes de uma ocupação do MST foram executados. Isso aconteceu em intervalo de poucas horas, dois dias antes da comemoração dos 70 anos da Declaração Universal de Direitos Humanos.

Faz tempo que isso não é novidade num país antes dito pacífico, mas onde de fato nunca foi abolida a escravidão: por isso, na semana que se seguiu a violência continuou, e o Pará presenciou o fuzilamento de um líder do MST na quinta e de outro no sábado. Continuar lendo

Queimada

De manhã, um policial morreu.

De tarde, a polícia invadiu.

De noite, a vila queimou.

Foi a polícia, dizem os moradores.

Foi o tráfico, diz a polícia.

Trezentos barracos.

Não sobrou um.

Os médicos

Era 2013. Fui a uma solenidade em entidade de médicos. Nunca antes nem depois voltei a ver tantos médicos juntos. E me surpreendi com o discurso do orador principal, que logo tomou como eixo a crítica aos médicos cubanos. Havia, é claro, uma natural motivação corporativa, porque, mesmo que viessem para trabalhar onde nenhum médico nativo se dispunha a ir, ao menos em tese eles invadiriam um mercado reservado aos médicos brasileiros.

Mas o discurso, que rapidamente se inflamou, na mesma velocidade em que se tornava vermelho o rosto do orador, do mesmo modo enveredou para a desqualificação profissional, seguida da denúncia ao propósito oculto de espalhar guerrilheiros pelo Brasil. E a plateia de médicos se entusiasmava com o discurso, cujo fim apoteótico foi ovacionado em pé. Continuar lendo

Trevas e fogueiras

Há quem diga que a Idade Média não foi nada disso, mas me ensinaram como a idade das trevas, e poucas vezes uma ideia me foi tão facilmente transmitida como essa, porque passei a imaginar o mundo de então numa noite sem fim, de ignorância e miséria total.
Não é por nada que, equivocadamente, a pensava como o tempo em que bruxas e hereges eram queimados nas fogueiras: tinha tudo a ver com essa escuridão eterna, a realçar a visão dos rostos retorcidos que a luz das chamas revelava. Continuar lendo

No nazismo

Tenho pensado muito no nazismo. Talvez seja sinal dos tempos, mas há algo mais: hoje, quando novamente pensava, me dei conta de que muitas das minhas esparsas e caóticas leituras dos últimos anos tratam dele, direta ou indiretamente. Foi só começar a pensar e me vieram os nomes: Elias, Arendt, Klemperer, Levi, Ingrao, Rosenberg, livros de e sobre os irmãos Mann, de e sobre Brecht, de e sobre Freud e Reich, biografias que vêm desde Bismarck, Wagner e Nietzsche e desaguam nos filhos dos nazistas, livros sobre a República de Weimar, sobre como viviam os judeus antes do Holocausto, sobre a ascensão do nazismo, sobre a queda do nazismo. Agora mesmo, enquanto me distraio da angústia dos dias lendo Gombrich, me espera a leitura de “A questão da culpa”, de Karl Jaspers. Continuar lendo

Fake news

Em tempo de bolhas, me instalei confortavelmente na minha, e pouco sei do que acontece fora dela. Fiz o que muitos fazem, sob a crítica dos estudiosos das redes sociais, que veem, na exclusão de quem pensa diferente, o fechamento de portas para o diálogo.

Fiz aos poucos, silenciosamente, ora quem espalhava notícia falsa, ora quem manifestava opinião preconceituosa, ora quem apenas falava abobrinha. Assim foi, e, conforme a intensidade da afronta, ou então da irritação do momento, minha reação era de simplesmente deixar de seguir ou terminar a amizade ou, em casos extremos, bloquear. Continuar lendo

Pobre democracia

Todo mundo já deve ter lido – ou ao menos ouvido falar – sobre estudos que apontam o Judiciário como novo protagonista dos golpes na América Latina, numa versão pós-democrática, em que apenas aparentemente se preservam as regras jurídicas, ao mesmo tempo em que se legitima um autoritarismo brando, bem diferente da truculência dos golpes militares do momento histórico anterior, mas amparado em uma discutível legalidade. Continuar lendo

Contra o silêncio

Era uma conversa entre amigos sobre política. O assunto era banal, tão banal que esqueci. Mas, no meio dessa discussão pouco importante, alguém, a pretexto de qualquer coisa, se queixou da falta de heróis e lembrou o famoso poema do pastor Niemöller, aquele em que o narrador fala do seu silêncio quando levaram os comunistas, depois os judeus, os sindicalistas, os católicos, até que vieram buscá-lo, e já não havia voz que pudesse defendê-lo. Continuar lendo

O general foi preso

Calma, não se assuste, não foi no Brasil. O general preso foi o comandante do Exército do Uruguai, porque se manifestou contra a reforma do sistema de aposentadoria dos militares. Ficou aliviado por não ser aqui? Compreendo: se acontecesse aqui, os quartéis estariam em pé de guerra e o alvoroço com o risco de golpe seria ensurdecedor. Continuar lendo

Sem surpresa

O general Villas Bôas é considerado um moderado. Nada tem a ver, por exemplo, com o general Mourão, candidato a vice de Bolsonaro e admirador declarado do torturador Brilhante Ustra. Também o distingue de Mourão o fato de que este está reformado, enquanto aquele comanda as Forças Armadas. Continuar lendo

A mãe do condenado

Existem histórias que nascem para ser contadas. Elas surgem e te interpelam, exigem ser escritas. Há outras que não, são não histórias, porque não podem ser reveladas. Faz dois anos que me deparei com uma destas. Ela me tocou, mas nunca cogitei de escrevê-la, porque havia pessoas a serem preservadas e porque me sentia ética e legalmente impedido de fazê-lo.

Como era uma não história, deixei de pensar nela logo que aconteceram os últimos capítulos do enredo, ou ao menos os mais dramáticos. Isso mudou há algumas semanas, quando me apercebi de que, embora singularmente considerados, os acontecimentos continuassem a se apresentar como uma não história, por outro motivo exigiam ser contados: algumas leituras e relatos me fizeram ver que, mesmo revelando um drama individual, os fatos de modo algum eram singulares. São, ao contrário, ilustrativos de um modo cada vez mais comum de julgar. Continuar lendo

O cárcere

O centenário foi em julho, perdi a efeméride. Até perguntei no dia dos cem anos quem matou Marielle. Também podia ter perguntado quem matou Amarildo, porque isso foi há cinco anos. Talvez o enfoque rendesse um texto, associando Mandela ao apartheid brasileiro, mas os dias passaram e ele não veio.
Mesmo sem texto, um outro pensamento passou a me perseguir, e foi o do Mandela preso político. Nada há de inusitado em lembrar disso, afinal, foi nos seus anos de prisão que ele se tornou um símbolo mundial da luta contra a perversidade de um Estado segregacionista, da luta de uma maioria negra e pobre, oprimida pela elite branca descendente dos colonizadores europeus. Continuar lendo

Mark e Kim

São caricaturas. Não sei se as recolhi caricaturas ou se caricaturas as tornei. Mas são caricaturas. Uma se regozija com o Facebook, por excluir perfis falsos do MBL; outra adverte quem se regozija, dizendo não se iludam, é só um ensaio para excluir a esquerda. Continuar lendo

Asilo inviolável

Pergunta: barraca ou carrinho onde dorme morador de rua é asilo inviolável para os fins do art. 5º, XI, da Constituição Federal? Fiz a provocação esta semana. Se perguntassem a mim, responderia assim: evidente que é! Ou assim: evidente que não é! Porque é isso mesmo: evidente que é e evidente que não é. Continuar lendo

Neutros

Há alguns meses, no meio de uma discussão virtual – só pode ser, porque as presenciais acabaram – recebi do outro lado, quase como um habeas corpus preventivo: só falta dizer que quem não se posiciona já está posicionado.
Eu não havia dito nada daquilo, a acusação estava na cabeça do interlocutor, mas é interessante que lá estivesse. Como acontece nessas situações, não continuei a discussão. Mas fiquei a pensar se ele estava cansado de ser acusado desse modo ou se tinha a consciência pesada da omissão. Ou talvez até mesmo martelasse em sua memória a fala de Luther King sobre o silêncio dos bons. Continuar lendo

A voz

Não sei se é grave: ouço vozes. Mas não se assuste, não são vozes imperativas, que, seguidas à risca, me assegurarão hospedagem vitalícia num manicômio judiciário. Na verdade, é uma voz só, num tom brando, que se manifesta um pouco abaixo dos meus pensamentos. Às vezes some, outras vezes fala comigo, mas não a ouço, só ocasionalmente ela me chama a atenção e passa a dominar a cena. Continuar lendo

Amanhecer no IAPI

Sexta-feira, seis horas. Desço a madrugada fria da Plínio, sigo pela Avenida dos Industriários, passo pelo Alim Pedro e o contorno. Não é meu hábito, mas o Brasil e Costa Rica atrapalha a rotina e o despertar antecipado me deu a ideia. Há mais de trinta anos, desde os tempos de panfletar em fábricas, não respirava o ar frio da manhã escura.
A ideia é caminhar até o sol nascer, uma hora e meia, que começa com o susto do cão vadio – o dele e o meu, mas é ele que se afasta do meu caminho. Somos só nós dois no parque. Nós e os sabiás, que a essa hora já revolvem o chão, silenciosos como são no inverno. Continuar lendo

Clima, laqueadura, aborto

Penso, enquanto caminho até o cabeleireiro, na falta de inspiração – ou disposição – para escrever. Pouca gente no sábado, ele termina de falar no celular e depois me atende. Corte mais simples que o de Neymar: máquina dois do lado, três em cima.
Sou um cliente silencioso, mas estamos só nós dois, e a conversa é comigo mesmo, um chiste sobre o frio, tipo bravata de gaúcho: vem um friozinho aí, tem que botar a camisa de pelúcia. Continuar lendo

Interior profundo

Indo pela Mostardeiro e atravessando a Goethe na tarde de domingo, vi em frente ao Habib’s não mais que uma dúzia de aficionados do golpe militar, pedindo buzinadas de apoio. A pantomima com fantasias verde-amarelas tinha a densidade de uma manifestação pela restauração do império, e pensei no ridículo da cena, ainda maior por contrastar com as multidões que tempos atrás povoavam o santuário porto-alegrense do golpe. Continuar lendo

A funda de Davi

A infância é a idade mítica, e nela tudo se conserva. Esta semana, minha lembrança retornou às histórias bíblicas de então. Não lembro bem se as recolhi das leituras do sótão ou dos primeiros anos escolares ou mesmo da catequese, mas há muitas. Também não sei por que as do Antigo Testamento aparecem com mais facilidade que as do Novo Testamento: foi porque estavam mais disponíveis ou porque guerras e intrigas eram mais interessantes que o amor, e por isso ocuparam lugar privilegiado na minha memória? Continuar lendo

Frase para o epitáfio

Mortes nivelam. Para quase todos, são o início do esquecimento. Poucos sobrevivem na memória coletiva, para se submeterem à apropriação do espólio. Sempre pensei no quão indefesos são os mortos, que já não podem se defender de quem os traduz e fala em seu nome. Continuar lendo

1º de maio

O boletim, feito em mimeógrafo a tinta (ajuda de última hora do Stédile, que descolou uma gráfica de centro acadêmico), dizia no título que era dia do trabalhador, não do trabalho.
Do texto, lembro que fazia alusão à origem da comemoração, na luta pelas oito horas na Chicago de 1886, e também que dizia, na linha do título, não ser este um dia de comer churrasco dado pelo patrão, mas de lutar por direitos. Continuar lendo

O clima de 2018

Paira no ar um clima de confronto direita x esquerda nas eleições de 2018. Dita assim solta, a frase é quase um truísmo porque não houve, desde o fim da Ditadura, eleição presidencial que não tivesse, ao final, oposto candidaturas de direita e de esquerda.

Assim foi em 1989, com Collor e Lula, em 1994 e, mesmo sem segundo turno, em 1998, com FHC e Lula, e nas quatro eleições seguintes, entre candidatos do PT e PSDB. Ainda que a alusão do nome do PSDB à social-democracia lhe desse no início um certo verniz de esquerda, sua aliança com o antigo PFL e as políticas privatistas de FHC logo mostraram seu lugar de fato no espectro político, bem simbolizado no “esqueçam o que escrevi”. Continuar lendo

Meu caro amigo

Meu caro amigo
Não podes imaginar a satisfação com que recebi tua mensagem. Já se foi, perdida, a nossa mocidade e faz tempo que penas ouvia alguém dizer, de vez em quando, que fulano está bem. Saudades da parceria, que os anos, e não só os anos, não trazem mais.
Se emociona receber notícias tuas, o motivo da mensagem também me permite aliviar um pouco os tantos nós presos na garganta. Deves ter percebido que o diálogo anda difícil, e o que fazes é justamente convidar ao diálogo. Continuar lendo

A ameaça

Não assisti ao Jornal Nacional, há anos não assisto, mas dizem que Bonner encerrou o noticioso (leia-se com aspas) repetindo com ar tenebroso uma postagem que o Ministro do Exército fez no Twitter com o seguinte conteúdo: “Asseguro à Nação que o Exército Brasileiro julga compartilhar o anseio de todos os cidadãos de bem de repúdio à impunidade e de respeito à Constituição, à paz social e à Democracia, bem como se mantém atento às suas missões institucionais.” Continuar lendo

Sinal trocado

Sérgio José Dulac Müller. Foi ele quem me entrevistou quando fiz concurso para juiz. Ele e o Roenick. Depois, com o Favretto, fez minha banca em Direito Comercial.

Bom de conversa, foi quem conduziu a entrevista, e, como eu próprio resolvi não seguir os prudentes conselhos que haviam me dado, de esconder minhas inclinações ideológicas e a militância que tivera alguns anos antes, logo o assunto enveredou para a política, ele com suas posições liberais, eu uma pessoa de esquerda.

Não lembro de tudo o que se disse ali, mas lembro que em dado momento ele me perguntou se, como juiz, aplicaria o Direito Alternativo. Eu não pensava sobre isso, sempre me mantivera distante dessas discussões, numa época em que as dificuldades da advocacia me faziam trabalhar muito, e o pouco tempo que me sobrava era dedicado a estudar para o concurso. Continuar lendo

Barrar o ódio

A execução de Marielle colocou na nossa pauta a questão do ódio. Não o ódio de quem puxou o gatilho, porque quem mata assim não costuma fazê-lo por ódio, mas pelo cálculo frio do interesse contrariado, da necessidade de manter seu mercado ou garantir sua impunidade.

O ódio de que falo é o dos gatilhos simbólicos puxados aos milhares por sociopatas que vibraram com a morte e a comemoraram nas redes sociais. É o ódio de quem há tempo se livrou de qualquer freio inibitório, para destilar seu veneno contra tudo o que remotamente possa representar inclusão social, cujos defensores acabam, pela repetição, por ser identificados a vagabundos ou criminosos, ou então a aliados de criminosos, como são vistos todos os que se dedicam à defesa dos Direitos Humanos. Continuar lendo

Marielle

Não a conhecia, não sei quem a matou, se foi polícia, se foi bandido. Ou se foi polícia-bandido.

Sei que era mulher, pobre, negra, bissexual (não sei em que ordem devo dizer). Faltou dizer: era favelada.

Veio da Maré, conseguiu bolsa para fazer curso superior, depois fez mestrado, virou vereadora.

E lutava. Continuar lendo

Mais plástico que peixes

Em 2050, haverá mais plástico que peixes nos oceanos. Mesmo para mim, que não consigo esperar nada de bom para nosso ambiente, atingido pelo aquecimento global e ameaçado pela corrida armamentista, agora reacendida pelas novas armas anunciadas por Putin, a previsão foi assustadora.
Chego com atraso à notícia, porque o prognóstico consta de relatório apresentado em janeiro de 2016 pela Fundação Ellen MacArthur ao Fórum Econômico Mundial; descubro-a enquanto leio sobre a proposta californiana de proibir o uso de canudos plásticos, cujo consumo, nos Estados Unidos, é de módicas 500 milhões de unidades por dia. Continuar lendo

Algo de podre

Um dos grandes vexames internacionais do Governo Temer aconteceu em junho do ano passado, quando a Noruega comunicou a redução dos aportes ao Fundo Amazônia, por conta da recente reversão de expectativas em relação à redução no seu desmatamento.
Não que surpreendesse a decisão, dado o malogro na política de preservação da Amazônia, que atingiu seu menor índice de derrubadas em 2011-2012 e depois voltou a crescer, mas o fato de o anúncio ter ocorrido em plena visita oficial àquele país, com direito a uma frase desastrada do Ministro Sarney Filho, segundo o qual só Deus pode garantir a redução do desmatamento, foi notado como sintoma da nossa perda de prestígio internacional. Continuar lendo

Intelectuais minerais

Sou de um tempo em que Gramsci gozava de grande fama, muitos carregavam seus livros e alguns até os liam. Na esquerda, evidentemente, porque, como hoje, para a direita ele era um perigoso comunista, esconjurado diante da simples lembrança do nome.
Naqueles tempos gramscianos, esperava-se das pessoas conscientes a capacidade de superar o pensamento abstrato, pensar criticamente o mundo e ter sobre ele uma atuação transformadora, o que as tornaria intelectuais orgânicos. Continuar lendo

Tuiuti

Vou caminhar, mais por obrigação com a saúde que por gosto. Começo contornando a alta vegetação, característica das praças porto-alegrenses deste verão, e ouço, do extremo oposto, o som agudo do aparador de grama.
Torço que não estejam perto da pitangueira, para onde programei uma busca às temporonas. É bem lá que estão. Mesmo assim paro, consigo colher três ou quatro, enquanto troco algumas palavras com o que está mais próximo. Continuar lendo

Acima da lei

Fui visitar o Datafolha. Queria entender a pesquisa, compará-la com a anterior, ver o que mudou. Contemplei aqueles números espalhados em dezenas de laudas, não sei se os entendi bem, mas concluí que de dezembro a janeiro tudo continuou igual.
Geralmente, nada há de significativo quando as coisas continuam iguais: porque inércia não é acontecimento. Mas aqui, ao menos para os desavisados, havia algo que poderia parecer intrigante: como o candidato recém condenado mantinha a liderança poucos dias após o julgamento do século? Continuar lendo

Os juízes de Berlim

A frase tem vindo de vários quadrantes, sempre em tom de exultação: “Ainda há juízes em Berlim.”
Sei, é dessas expressões que se vulgarizam e com isso passam a ter seu sentido diluído. Nesse caso, passou a ser utilizada cada vez que alguém deseja comemorar uma decisão judicial, qualquer que seja.
Quando a conheci, ela ainda não era moda – tanto que não a conhecia –, e a vi num contexto em que quem a utilizou mencionava a corajosa resistência do Judiciário alemão ao nazismo. Continuar lendo

O mais admirado do sul global

Não que esteja evitando pensar ou falar em assuntos brasileiros nessas semanas fatídicas, mas a necessidade de contenção, a proibição legal de fazer certas abordagens, me desestimulam e sugerem que me dedique a outros assuntos.
Nada melhor, então, que ler sobre assuntos internacionais. Quem manda no mundo?, de Chomsky, é uma boa pedida. Continuar lendo

Breve explicação sobre a outrora perseguida e hoje próspera seita dos histriões

São só cinco páginas, onde Borges esbanja sua erudição e genialidade. Por isso, sinto-me quase um profanador, ao fazer uso de Os Teólogos.

Como sempre acontece com minhas leituras anárquicas, seu teor não demora a vazar pelos buracos da pobre memória; pouca coisa delas permanece escondida em suas profundezas, como um resíduo que esqueceu de escorrer pelo ralo, e só por alguma improvável sinapse se dá a conhecer novamente. Quando isso acontece, procuro a fonte para me certificar de que não estou enganado e, nesse caso, reviver a experiência, quase confirmando a narrativa de Borges sobre a concepção herética dos monótonos, que professava a crença no eterno retorno, causado pelo caráter circular da história. Continuar lendo

Las Casas e García Márquez

Leio, de costas para Torquemada, que da parede oposta me lança seu terrível olhar: Judio, brujo, curandera, solicitante, eran sólo algunos de los calificativos usados para denunciar, juzgar y condenar a quienes se apartaban de la fe católica. Eran esos otros, considerados distintos. Personas desarraigadas de su tierra, pero que lograran traer consigo sus prácticas y conocimientos ancestrales; quienes llegaran por distintos motivos y creencias, todos mirados bajo la misma lupa que condenaba lo diferente.
Assim inicia a explicação introdutória, no primeiro quadro do Museo Histórico de Cartagena de Indias, dentro do Palacio de la Inquisición. Em Cartagena atuou, de 1610 a 1821, um dos três tribunais da Inquisição na América Hispânica, somente fechado por obra bolivariana após a independência. Continuar lendo

O punitivista

Evolução da população prisional do RS na proporção por cem mil habitantes. Comentários livres sobre os efeitos na sensação de segurança. A questão foi apresentada por Sidinei Brzuska e serve de provocação aos defensores do encarceramento.

O punitivista empedernido, que dá de ombros a qualquer argumento contra as prisões – afinal, isso é coisa dos garantistas e do pessoal dos Direitos Humanos – dirá distraidamente: mas tem que ver que a população também aumentou. Continuar lendo

Choram Marias e Clarices

Manoel foi levado da fábrica, Vladimir apresentou-se após intimação. Maria chorou Manoel, Clarice chorou Vladimir. Maria e Clarice choraram com a notícia do suicídio dos maridos. Suicídios no DOI-Codi, Manoel em 75, Vladimir em 76. Continuar lendo

Os maias, os mamutes e o precipício

Há anos os cientistas debatem sobre os motivos do misterioso fim da civilização maia. Sabemos bem como pereceram os outros povos americanos, dizimados e escravizados pelo conquistador europeu, mas os maias entraram em decadência séculos antes, abandonando suas cidades portentosas, sua ciência, sua astronomia, sua escrita. Continuar lendo

A falácia do pensamento médio

Frequentemente aparece em debates políticos a alusão ao pensamento médio, utilizada por candidato que pretende se dizer seu representante.
Pronunciada em período pré-eleitoral, a frase pode perder seu sentido se, no momento da eleição, o pretenso representante desse pensamento não se eleger. Nesse caso, e porque construída a fala como se o enunciador fosse representante de um posicionamento majoritário, talvez a conclusão possa ser a de que o pensamento médio era outro, que não o dele. Continuar lendo

Também subi no caminhão

Claro, falo metaforicamente, tipo somos todos Charlie ou coisa parecida – essa coisa facebookiana de solidariedade à distância. Mas o fato é que, neste meu caminhãozinho que se chama Bissexto, desde que o criei digo que é golpe. Continuar lendo

Livres do poder civil

Temer sancionou a Lei 13.491, que muda o Código Penal Militar, para que crimes dolosos contra a vida praticados por militares das Forças Armadas contra civis, quando, convocadas por algum dos Poderes, intervêm em operações internas como, por exemplo, acontece ao serem chamados para garantir a lei e a ordem. Continuar lendo

Concentração

Não foi surpreendente a revelação feita por Piketty no Fronteiras do pensamento de que somente uma parte do planeta, o Oriente Médio, com suas fortunas petrolíferas, tem concentração de renda superior à brasileira.
No gráfico que projetou, mostrou o resultado de estudos recentes, não disponíveis quando escreveu O capital no século XXI, e neles se vê, num período curto da história brasileira, de 2001 a 2015, a evolução da participação dos mais ricos e dos mais pobres na renda nacional. Continuar lendo

Ditadores de espírito

A placa era igual a tantas outras, e por isso não chamaria a atenção de um cético. Dizia que mãe Francisca joga búzios, cartas e tarô, resolve problemas do amor, saúde e dinheiro. O que ela tinha de diferente e me fez acreditar que mãe Francisca talvez pudesse mesmo ajudar seus clientes foi a última frase: 50 anos de experiência. Continuar lendo

Os novos intérpretes

A Constituição é o que o Supremo diz que ela é. A consagrada máxima não deixa de ser ambígua. Por um lado, é verdadeira, porque, de fato, é o Supremo quem tem a última palavra na interpretação da Constituição. Essa é a sua atribuição, e modo como ele a interpretar passa a valer no mundo jurídico. Continuar lendo

Sobre dores e curas

Comovem-me as dores das pessoas. Todas elas, a dor da pobreza, a do abandono, a da doença, a da injustiça. Sei que sentir dor é próprio da vida e por isso muitas não têm solução. Nesse caso resta a solidariedade, quando a exercemos, porque anda cada vez mais rara.
Houve tempos em que comparava dores, tentando entender qual era maior e necessitava de mais amparo. Sofre mais quem perdeu o emprego e não tem dinheiro para alimentar o filho ou quem perdeu os movimentos num acidente? Sofre mais o apátrida escorraçado de todos os lugares ou o morador de rua chutado para desocupar o espaço sob a marquise? Continuar lendo

Indecência

As notícias vieram sem muito destaque. Na verdade, começaram mesmo como seminotícias, apresentadas na condicionalidade do futuro do pretérito composto teriam sido.

O teriam sido continuou por vários dias, depois, aos poucos, sem alarde, mudou par foram. Não é mais os índios flecheiros teriam sido mortos; já se dá como certo que foram mesmo mortos por garimpeiros. Não há corpos, não se sabe o número, fala-se genericamente em mais de vinte. Continuar lendo

A flor do jardim

Houve, nas reações ao fechamento antecipado da exposição Queermuseu, uma que me preocupou mais do que o obscurantismo conservador de sempre e o novo fascismo do MBL: a das muitas pessoas verdadeiramente democráticas que, sem se sentirem encorajadas a explicitamente defender a censura, levaram seu discurso para o mal estar diante de algumas obras que consideraram ofensivas. Continuar lendo

O ônibus da Paulista

Entrou Janot, saiu o maluco do ônibus. Voltou a grande política e saiu a pequena política do cotidiano das relações sociais, assim satisfazendo quem lamentava o prosseguimento da masturbação. Mesmo assim, não posso deixar de voltar ao assunto, porque vejo nos detalhes que cercaram o evento anterior uma série de implicações que dizem com o nosso pensamento e nossa prática social. O farei na forma de notas. Continuar lendo

Prender para emancipar

Quem se masturba e ejacula em uma mulher num ônibus deve ser preso preventivamente? Pelas muitas manifestações iradas que tenho lido, sim.

De fato, o gesto é de uma violência simbólica extraordinária, e, ressalvada a muito provável hipótese de que quem cometeu o ato foi uma pessoa enferma, autoriza a repulsa social na mesma medida da ofensa. Continuar lendo

Overdose

O que tiveram em comum o tsunâmi que atingiu o Sri Lanka e o furacão Katrina, que atingiu Nova Orleans, além do fato de terem sido fenômenos climáticos? Foi a voracidade do mercado, que, ao aproveitar-se do choque causado pelos desastres, removeu pescadores da costa asiática, colocando em seu lugar resorts de luxo, e retirou a população pobre da Louisiana das suas antigas moradias, derrubando também suas escolas e hospitais, para construir condomínios e instituições privadas. Continuar lendo

Parlamentarismo

O que é mais democrático: parlamentarismo ou presidencialismo?
Muito antes do plebiscito de 1993, eu seguia uma lógica que considerava irrefutável: um governo formado por 594 pessoas (81 senadores e 513 deputados) é mais democrático que o governo de uma única pessoa, o presidente. Continuar lendo

O edifício da bandeira

Vejo de longe o edifício, e na retina da memória acende a gravura de um prédio majestoso, em cujo topo tremula uma bandeira, enquanto no fundo passa um grande avião.

Eu era criança e a ilustração estava num livro escolar, talvez ainda perdido no sótão. Continuar lendo

Venezuela

Deu na capa da Veja: o falastrão caiu. Lembro que de Ijuí, onde morava, mandei mensagem: minha assinatura vai até o final do ano, mas podem parar de mandar agora. O fato é que a revista comemorou o golpe que derrubou Chávez. Começou com manifestações de rua convocadas por entidades empresariais e imprensa e se consumou com uma ação militar. Era 2002, tempo pouco, mas os golpes ainda eram feitos com fuzis. Tanto era golpe que, daqui, FHC condenou a quartelada. Continuar lendo

A caminho do trabalho

Rádio eu ouço no deslocamento. Vinte minutos de manhã, dez à noite e menos que dez antes e depois do almoço. Era a Cultura, evidentemente. Minutos de Bergter, depois Lena Kurtz, Demétrio, Paulo Moreira. Se variava o horário da manhã, pegava MPB; se me antecipava à noite, desligava, porque ninguém aguenta discurso de deputado (nada contra os deputados, tudo contra a pobreza dos discursos).
Ocasionalmente, quando a entrevista do Bergter não me interessava ou não gostava da música, dava uma chuleada numa das grandes, principalmente onde estivesse o Juremir, ou na Rádio da Universidade, com seu chiado de chuvas e trovoadas. Continuar lendo

Um dia e outro dia

Parece que foi agendado: um dia a reforma trabalhista, no outro a condenação do Lula. A História acontece agora e a poeira não assentou para que seja contada com cores definitivas, mas a coincidência não há de passar desapercebida a quem fizer, no futuro, a crônica desses dias.
E terá significado muito mais amplo que aquele que lhe possa atribuir quem gosta de contar a História como seleção de fatos pitorescos. Claro que para este será um prato cheio dizer que em dois dias seguidos caíram, primeiro, as bases da legislação de proteção ao trabalhador e, em seguida, o líder das grandes greves operárias dos anos 70, o operário que se tornou presidente. Continuar lendo

Arbitragens

Nosso time era modesto: recém havia retornado da Série B, e foi surpreendente sua campanha no Brasileirão e a classificação à final da Libertadores. Por isso, o Boca era franco favorito, e restava aos gremistas apelarem à folclórica imortalidade.
Primeiro jogo na Bombonera, começamos jogando melhor, mas, não lembro em que sequência, sofremos um gol de impedimento e tivemos a expulsão injusta do Sandro Goiano. Aí desandou e entramos pelo cano. Continuar lendo

Antes do próximo meteoro

Circulou esses dias a afirmação de Stephen Hawking de que a humanidade pode ser extinta em trinta anos. Como me habituei a ver os títulos na correria e ler os textos depois – se tiver tempo, se lembrar, se ainda os achar, se outras coisas não me chamarem a atenção antes –, me contentei com o título e o comentei com algumas pessoas. Continuar lendo

A hora de morrer

Quando será a hora da morte? Não faço propriamente cálculos sobre isso, mas penso às vezes. Imagino que todo mundo pensa, uns mais, outros menos. E a única certeza que podemos ter é a de que na próxima vez em que pensarmos no assunto teremos menos tempo que agora.
Terrível, a consciência da morte. Convivemos mal com ela, tentamos a vida inteira nos acostumar, e não conseguimos. Não por nada se multiplicaram as religiões e tantos cultivam com esmero a esperança de que haja um depois. Continuar lendo

Pode entrar, a casa é sua

“Ó de casa!” “Pois não?” “Boa noite, senhora! Um informante disse que nessa casa escondem droga. Viemos verificar. A senhora permite que a gente entre?” “Claro! Entrem sem cerimônia. Só peço que não façam barulho, porque as crianças estão dormindo.” “E o seu marido?” “Está trabalhando, é garçom.” Entram os policiais, meio tímidos. “Os senhores não acham melhor deixarem essas armas em algum lugar, pra ficar mais confortável? Não, do lado do berço não, vai que acordem. Sabe como é criança, vai querer mexer. Melhor deixar aqui na cozinha ou encostar no tanque.” “Obrigado, senhora, muito gentil.” “Mas, fiquem à vontade, não quero atrapalhar. Vou passar um café enquanto reviram as gavetas.” A água nem esquentou, e eles voltam para a cozinha. “A senhora vai ter de nos acompanhar, achamos essas trouxinhas embrulhadas numa calcinha.” “Mas, como? Nunca vi isso!” “É, mas não tem jeito, a senhora está presa. Tem com quem deixar as crianças?” Continuar lendo

Nossas façanhas

São um estorvo os lanceiros negros, uma mancha no brasão rio-grandense, que diz liberdade, igualdade, humanidade. É quase automático, e penso com dor, não com ironia: sempre que chega aquela parte do hino que expressa a nossa peculiar modéstia, lembro de Porongos.
Diferentemente do que aconteceu a Sepé Tiaraju e aos guaranis das Missões, massacrados porque nosso time perdeu para o inimigo – não vem ao caso que muitos dos invasores de então tenham depois se tornado gaúchos – os lanceiros negros, que eram do nosso time, foram entregues de bandeja ao inimigo. Continuar lendo

Sístole e diástole

Vamos começar pelo começo: você achava que o TSE cassar a Dilma era golpe e agora acha um absurdo ele não ter cassado Temer? Nesse caso, antes mesmo de formarmos um juízo sobre o TSE, teremos de entender o motivo desse seu pensamento.
Veja só: Dilma era candidata a presidente, Temer a vice. Na mesma chapa. Não interessa tudo o que aconteceu depois, Temer dizer que era figura decorativa, conspirar, querer acabar com o Direito do Trabalho, impor goela abaixo a reforma previdenciária, ser gravado por Joesley e o que mais conseguirmos lembrar, o fato é que o TSE estava julgando a chapa vencedora das eleições de 2014. Continuar lendo

Delação no colégio

Às vezes, imagino o sistema penal como se fosse um sistema educacional. Sei que em tese faz sentido, porque a pena deveria ter esse caráter pedagógico, de recuperação. Mas também sei que falo bobagem, porque nem o sistema foi criado para isso, nem as pessoas o querem assim. E não poderiam, porque educar pressupõe amar, ainda que genericamente, como semelhantes.
Mas é um exercício: você pensa que a pena é um intervalo na vida do sujeito, em que ele terá oportunidade de pensar sobre a bobagem que fez, estudar, aprender uma profissão e ao final sair daí para um emprego honesto. Continuar lendo

A janela do golpe

O título deste texto poderia ser também, por motivos óbvios, Diretas e indiretas. Poderia ser ainda, por motivos que explicarei, Matemática pura ou, por extensão, Direito puro.

Como não sou matemático, posso me permitir licenças retóricas, para dizer que a matemática pura, também conhecida por matemática estética, é aquela que não serve para outra coisa, que se basta a si própria. Sei que exagero, e de vez em quando são encontradas aplicações para ela, mas é mais ou menos como uma matemática autista, em que as pessoas calculam, calculam, calculam, e não veem pela janela que o mundo gira lá fora. Continuar lendo

Corrupção e eleições

Corrupção como sistema

Quando se fala em corrupção, é necessário sempre lembrar que há dois lados: o que paga e o que recebe. Simplificadamente, grandes empresas pagam e agentes públicos recebem. E isso não é uma anomalia do sistema; pelo contrário, é como funciona o capitalismo. Continuar lendo

Diretas já!

Defender a democracia. Defender o respeito às regras do jogo. Parece o óbvio, mas para muitos não passa de jogo de palavras, e as regras do jogo só são respeitadas quando são favoráveis. Quando não são, ainda assim o discurso democrático é dado com todo o cinismo por quem quebra as regras.

Por isso, o mínimo que se pode pedir de alguém que proponha algo diferente das regras postas é que dê uma boa justificativa, em que a preservação da democracia se ponha como norte. Continuar lendo

Enquanto em Curitiba

Eram 13:30 de 18 de julho de 1997. Ana caminhava pelo acostamento da Baltazar em direção à parada, onde pegaria o ônibus para a casa da mãe, quando foi atropelada por um motorista bêbado. Ana quebrou o joelho e o antebraço direitos e teve lesões graves na face. Permaneceu três semanas internada.
Menos de um ano depois, o motorista estava condenado criminalmente e Ana postulou a liquidação da sentença criminal, depois seguida de cumprimento de sentença. Continuar lendo

Em defesa do Supremo

Tenho sido muito crítico do STF. Há anos critico o modo de indicação dos ministros, critico o estrelismo midiático, as entrevistas de certos ministros com a intenção de interferir na política, as ilegais declarações sobre o mérito de processos que por eles serão julgados, os encontros furtivos com políticos que conspiram, os intermináveis pedidos de vista que representam negação da jurisdição. Na verdade, minhas críticas ao Supremo, e em particular a alguns ministros, já expostas em vários textos, não caberiam em tão poucas linhas. Continuar lendo

O texto que não escrevo

Várias vezes nos últimos meses me vi diante da tentação de escrever sobre os paneleiros e sempre desisti. Fico indeciso entre frases mais solenes e a pura ironia, e isso é suficiente para deixar para depois. O fato é que o tempo passa e continuo aqui nesse impasse.

Sei que escrevo de um certo lugar, cada vez mais identificado pelos analistas das redes sociais e pelos estudiosos da pós-verdade, que veem grupos fechados, presos em seu quadrante ideológico e surdos para o que vem de fora. Por isso, sabendo que, de regra, quem me lerá serão somente aqueles que por definição tendem à afinidade com minhas ideias, tanto faz a forma. Talvez alguma ironia seja mesmo melhor, porque temos a necessidade de cutucar o outro lado, nos vingarmos de quem vestiu a camiseta da seleção, dizermos viu o que vocês fizeram?, assumirmos aquele ar de superioridade de quem, mesmo derrotado, está do lado certo. Continuar lendo

Democracia: modo de usar

1. Tire o máximo proveito do sistema eleitoral. O sistema brasileiro é perfeito, porque nele o voto é avulso. Os eleitores não abrem mão disso e dizem, orgulhosos, “eu voto na pessoa”.

2. Não se preocupe com partidos ou quocientes partidários: fora uns partidecos sem expressão da esquerda, os partidos estão abertos para candidatos sensatos, que defendam propostas modernas. Continuar lendo

Presos na arapuca

Para mim está claro: este Executivo e este Legislativo não têm legitimidade política para aprovar qualquer medida de restrição de direitos, porque foram cúmplices em um golpe praticado com a finalidade de impor o programa político derrotado nas eleições e agem a partir de uma maioria política decorrente de um pleito em que, como agora se escancara, a obtenção de financiamentos de campanha polpudos vindos de grandes corporações voltadas à captura do Estado e interessadas na derrubada dos direitos sociais era quase condição para se eleger. Continuar lendo

Fechando o círculo

São milhares de horas gravadas, muitos milhares de páginas. A maior parte não é pública, e o que, lícita ou ilicitamente, se tornou público, é impossível de ser analisado em sua integralidade. Mesmo um jornalista investigativo, que ponha todo o seu tempo a pesquisar o que há, terá dificuldades. Isso significa que nós, destinatários das informações, ouvintes e leitores ocasionais das notícias, temos de nos contentar com o que nos é selecionado por outros. Continuar lendo

Mísseis civilizatórios

Foi fulminante a resposta contra o bárbaro ataque de armas químicas, que matou mais de oitenta pessoas, incluindo crianças e idosos. Mais uma vez os Estados Unidos defenderam a civilização, ao lançar mísseis sobre uma base aérea do governo sírio. Continuar lendo

Hebraica

A notícia não é Bolsonaro, a notícia é a Hebraica. E a pergunta é: a Hebraica convidou Bolsonaro porque não sabia que ele falaria o que falou ou a Hebraica convidou Bolsonaro porque sabia que ele falaria o que falou?
Não se pode dizer que não foi avisada. Pelo contrário, a Hebraica do Rio convidou Bolsonaro após o cancelamento de evento semelhante pela de São Paulo, que só recuou em razão de protestos, vindos inclusive da comunidade judaica. Então, a Hebraica do Rio o convidou e aplaudiu calorosamente ao final. Continuar lendo

Viva, fui hackeado!

Chego de férias, dias sem internet, e o Bissexto não abre: só há uma mensagem em inglês sobre a tela branca, dizendo que fui raqueado. Gelei, porque nunca me preocupei com fazer cópias de segurança, o que significava a possibilidade de ter perdido todos os meus quase duzentos textos.
Senti certo alívio ao entrar na página de edição: os textos estavam lá, embora desconfigurados. Pouco familiarizado com informática, procurei o Rodrigo Moraes, que providenciou a contratação de programador, e aqui estou, ainda sem o formato original, que, com alguma paciência, será depois recuperado. Continuar lendo

Dolus malus

Se bem lembro, a expressão estelionato eleitoral teve sua estreia nas eleições de 1986. Surfando na popularidade do Plano Cruzado, o PMDB elegeu mais da metade do Congresso, mas a contagem dos votos nem havia encerrado – na época, levavam-se dias para contar as cédulas de papel – e o governo descongelou os preços, acabando com a ilusão de estabilidade econômica. Continuar lendo

As mulheres de Montevidéu

Plaza Libertad, 18 horas. Era lá o encontro. Chego na hora, mas fico espremido na praça apinhada, brasileiro entre incontáveis uruguaias (e uruguaios). A maioria de preto, muitas de roxo, jovens, idosas, crianças.

Recebo o panfleto da Coordinadora de Feminismos del Uruguay: 8 de marzo, jornada de paro de mujeres. ¡Si paramos nosotras, paramos el mundo!

Hoy 8 de marzo, ¡Dia de Lucha!

Nosotras paramos. Nosotras, mujeres, compañeras, trabajadoras. Continuar lendo

Raduan é pop

Li Lavora arcaica e não li Um copo de cólera. Conheço meio Raduan Nassar, autor de duas obras, mais os contos. Ou, se, como ele diz, sua obra é de um livro e meio, conheço mais da metade. O que, em se tratando de Raduan, me deixa ainda em déficit, não só pela qualidade desse que muitos consideram o maior escritor brasileiro vivo, como pela facilidade que a obra reduzida oferece para uma leitura completa. Continuar lendo

Suruba

Fui cobrado. Escrevi há alguns dias, e ouvi a crítica: como assim, achar que o Moreira Franco, tão lembrado nas delações, pode ser nomeado ministro? Optei pela resposta simples, e disse: pelo mesmo motivo que me levava a defender que Lula fosse nomeado.
A tréplica foi imediata: mas não proibiram o Lula de tomar posse? Complicou, e fui obrigado a um malabarismo, para dizer que defendo a aplicação da lei, e não vejo como proibir o presidente de nomear ministro alguém que nem ao menos foi denunciado. Até lembrei, com um sorriso amarelo, que Temer prometeu demitir ministro que venha a ser denunciado. Continuar lendo

Impressões

Impressão é assim: a gente vê, não tem certeza, mas sente que é por aí, embora talvez não seja. Às vezes a notícia de um fato nos causa uma impressão, ouvimos um comentário e a impressão já muda, ouvimos outro e já pensamos uma terceira coisa, que talvez não seja mais válida que a primeira e a segunda.
No meu caso, nem comecei com a notícia. Desinformado que sou, só ouvi “soltaram o goleiro”, e não entendi nada. Continuar lendo

Pesos e medidas

Sabe, eu acho que não pode proibir o Moreira Franco de ser ministro. Ele ainda não é réu, acabou de ganhar foro privilegiado e o Governo Temer conseguiu se queimar mais um pouco, mas o prejuízo é político, e não cabe ao Judiciário proibir a nomeação.

Também não acho errado manter em sigilo a lista da Odebrecht: se a lei diz que o acordo de colaboração premiada deve ser sigiloso e sua divulgação só pode ocorrer depois de recebida a denúncia, não há motivo para reclamar do STF pela não liberação. (Se poderá reclamar se o recebimento da denúncia ficar para as calendas gregas, mas aí é outra história.) Continuar lendo

Tipos abertos

Para quem não é do Direito, talvez seja um sujeito sorridente, bom de papo, sincero, agradável. Quem é do Direito sabe que é outra coisa, normalmente usada no âmbito penal: o tipo penal aberto transmite um conceito genérico, em que não há uma definição precisa da conduta. Isso não é bom, porque o único modo de saber se a conduta é ilícita está em uma descrição limitada.
Se pensamos ato obsceno, podemos imaginar o que seja; também podemos imaginar o que sejam tortura, corrupção e tantas outras coisas, mas, quando o Estatuto da Criança e do Adolescente disse que era crime submeter uma criança a tortura, isso se tornou um problema, porque ele não dizia o que era tortura (uma lei de 1997 resolveu isso, descrevendo as condutas que configuram crime). Continuar lendo

O ministro sem quarentena

Li, por aí, que quem agora reclama não tinha reclamado quando Lula nomeou Dias Toffoli. Então fui buscar no baú:

Anos atrás, quando os juízes gaúchos discutiam, preocupados, a possibilidade de Lula fazer uma indicação político-partidária para o STF, na época o ministro Tarso Genro, eu notei que até então, tendo já indicado quatro ministros, ele, ao contrário dos presidentes anteriores, não havia feito indicações políticas (no sentido estrito) para ministro do STF. Pois agora ele empatou com FHC, Itamar, Collor e Sarney: todos têm em seu currículo indicações de pessoas de seu staff, o que demonstra que esse poder dado ao presidente não pode continuar. Continuar lendo

Mortes

Há ocasiões em que a morte de uma pessoa identificada com seu tempo histórico coincide com o fim desse tempo. Morre a pessoa e é como se morresse junto o seu mundo, pelo que de simbólico encerra. Ocorre mais com grandes personagens, mas pode acontecer também com coadjuvantes ou mesmo figurantes. Continuar lendo

A felicidade do mercado

A explicação é técnica, sem sorrisos, sem empostação de voz, sem julgamento. O mercado está satisfeito com o resultado da economia chinesa e tem boas expectativas com a posse do Trump, portanto o cenário internacional está favorável; além disso, a bolsa sobe também por um motivo doméstico: a morte de Teori Zawaski. Continuar lendo

Teori

A lembrança mais antiga que tenho sobre tocar no assunto e receber semelhante resposta tem ano e interlocutor certos. O interlocutor deixa pra lá, mas foi em 1994. Se assim marquei a data, foi porque, passado no concurso para juiz de Direito, me aconselhava para saber se prosseguiria para juiz Federal, em que passara nas primeiras fases. Foi desses assuntos paralelos, que se imiscuem no assunto principal, como parênteses logo fechado, mas não esqueci. Continuar lendo

Descriminalizar

Nunca cheirei nem fumei. Tão pouco fiz, que nem ao menos posso dizer fumei mas não traguei. Também nunca precisei dos efeitos terapêuticos da cannabis, e minha curiosidade científica não me levou a ponto de estudar sobre suas propriedades medicinais. Em outro sentido, não me preocupei em saber se há relação entre maconha e esquizofrenia. São tudo coisas que não dizem respeito a mim, um legítimo cafona. Continuar lendo

Cocos e tubarões

O pouco que sei de máfias é que elas se formam como irmandades que competem entre si na exploração de atividades ilícitas. Organizam-se internamente com vínculos de fidelidade e são implacáveis com os desertores, modo de assegurarem coesão interna. Continuar lendo

Inimigo

Às vezes me ressinto de não conhecer outras sociedades. Nem sei se isso seria possível, porque o conhecimento de que falo provavelmente não se obteria numa rápida viagem turística ou pela via da literatura.
Tenho, por exemplo, a impressão de que hoje há mais ódio no mundo, mas não sei se é um fenômeno que se manifesta com a mesma intensidade nos seus quatro cantos nem se o móvel do ódio é sempre análogo.
Penso que é. Continuar lendo

2016

31 de dezembro, penso se devo escrever sobre o ano que termina. Parece que o tanto vivido torna mais difícil qualquer texto, porque dilui os assuntos. Resolvo me concentrar na política brasileira, mais particularmente no golpe, mas mesmo isso é muito. Fecho ainda mais o foco e penso no papel do Judiciário. Continuar lendo

A voz das ruas

As ruas de Porto Alegre me fazem Quintana. Quando, fato raro, passo por elas distraído, descubro novos ângulos, cores não vistas e penso Quintana. Abro, como ele, o mapa e me sinto um anatomista. Quando por elas transito, me penso nesse estranho sistema circulatório da cidade, onde não há artérias, só veias que carregam gás carbônico. Continuar lendo

Rubinho e o bêbado

A ilustração é apropriadíssima: uma foto de Rubinho Barrichello – coitado, sempre ele – com a legenda “estou achando que foi golpe”.
É uma percepção vaga e de difícil construção no meio jurídico, lugar onde, afinal, se trata da lei e sempre fica mais difícil ao ardoroso defensor do impeachment admitir que foi agente do golpe. Continuar lendo

A fábrica de linguiças

As leis são como linguiças: se as pessoas soubessem como são feitas, não as comeriam.

É mais ou menos assim a frase, que, dizem, nunca foi pronunciada por Bismarck, embora ele tenha levado a fama.

Não tem a ver com ideologia, falsa consciência, reificação, em suma, com as condições de ignorância que impedem as pessoas de conhecerem a realidade opressora e se revoltarem contra ela. Continuar lendo

A lagartixa

Teratológico. Aprendi tarde essa palavra, e nunca a vi fora da linguagem jurídica. Não lembro de tê-la usado e não gosto dela. Quando a ouço, penso numa lagartixa com suas patas multiplicadas, como se fosse uma lacraia. Teratológico é isso, um absurdo lógico. Esta lagartixa tem cabeça e pés, muitos, mas poderia não ter pé nem cabeça. Continuar lendo

Morreu na contramão

Era para ser bissexto, mas adquiriu uma regularidade, e na manhã cansada de sábado o editor que me habita me sacoleja na cama e me manda ao texto.
Às vezes, é só o tempo de levar ao monitor o artigo que me interpelou ao longo da semana, e ele jorra fácil, com frases previamente construídas. Nesse caso, apenas me preocupo com a ordem das ideias, com corrigir a pontuação, excluir os adjetivos e advérbios que vieram em demasia, substituir palavras repetidas, me policiar com as metáforas. Em seguida está pronto. Geralmente sai redondo. Continuar lendo

Salve a Cultura

É só uma frase, mas desde a primeira vez a ouvi do mesmo jeito. De salve a Cultura na memória do seu rádio ouço só salve a Cultura. Ou cultura, substantivo comum. Talvez um dia descubra se foi mais que mera intuição e, de fato, havia aí um grito de socorro antecipado, para pegar subliminarmente os ouvintes. Continuar lendo

Prenderam ele

Diálogo que imaginei para um lugar distante, num tempo remoto:
— Lembra aquele cara que não deixava pivete apanhar?
— Lembro, sempre peguntava: tem certeza que foi ele?
— Sim, aí o cara largava o moleque. Como se chamava mesmo? Continuar lendo

Trumpeanas

Há meses pensava em escrever sobre as eleições dos Estados Unidos. Pretendia publicar na véspera. Mas esqueci. Não sei se foi só distração ou se fui traído pela falta de convicção sobre a linha que havia decidido adotar. Vou resumi-la. Pretendia fazer um texto inteiro contra Hillary, dizendo que ela era uma defensora do establishment, representante do grande capital financeiro e da indústria de armas, da qual poderíamos esperar uma posição agressiva dos Estados Unidos no mundo e o acirramento das guerras imperiais de sempre. Escreveria tudo isso, mas terminaria dizendo que entre uma cínica e um psicopata, ainda era mais seguro torcer pela cínica. Continuar lendo

Ordem e progresso

Está lá na nossa bandeira, e aprendemos a conhecer desde pequenos: ordem e progresso. Poucas bandeiras do mundo trazem inscrito um lema, como nós temos no lábaro estrelado. Quem botou foram os positivistas, graças à sua influência na conspiração republicana.
O lema da religião comteana era mais extenso: o amor por princípio e a ordem por base; o progresso por fim. Ficaria muito comprido, e deixaram só ordem e progresso. Continuar lendo

Fascismo

Me disseram: lê o livro do Mandel sobre o fascismo. Poderia ter sido outro autor, porque importava o objetivo: a recomendação foi dada para que compreendesse a natureza do movimento que abalou a Europa e ecoou no mundo do entreguerras, e parasse de dizer, como outros amigos também faziam, que a Ditadura Militar era fascista. Continuar lendo

Qual é a de Gilmar?

Pensei duas coisas ao ler a notícia da condenação de jornalista a pagar indenização por danos morais a Gilmar Mendes, por ter criticado a concessão de habeas corpus ao médico Roger Abdelmassih, condenado por estupro.
A segunda foram elocubrações sobre os limites ao direito de crítica e as circunstâncias em que cabe reconhecer o abuso, acompanhadas da impressão de não existirem padrões uniformes para o trato da questão. Continuar lendo

Cunha e o morador de rua

Pensei se deveria escrever um artigo intitulado Crônica de uma prisão anunciada. Achei melhor não. Vou para outra seara, numa semana cheia de fatos e significados. Falarei sobre agressões, mesmo porque já havia pensado em escrever sobre o episódio com Cunha no aeroporto.
Queria entender melhor o significado da palavra escrachar, na acepção que agora lhe é dada, de esculhambar publicamente. Confesso que gostei desse modo de luta, que, em tempos de comunicação instantânea, é filmado, compartilhado e viralizado, numa espécie de guerrilha política, em que o político sacana ou golpista sofre na carne todo o desprezo que lhe é dirigido. Continuar lendo

Viajantes do tempo

Às vezes, em meus devaneios, imaginava a visita de alguma figura ilustre de passado aos nossos tempos. Via Kepler maravilhado, contemplando o céu com o Hubble, ou Da Vinci dando gritos de alegria enquanto pilotava uma asa delta, a barba esvoaçando ao vento. Em outro momento, tentava adivinhar a reação de Beethoven, equipado com moderno aparelho auditivo, num concerto cujo programa iniciasse com a Sagração da Primavera, seguisse com Schönberg e terminasse com a Metallica. Continuar lendo

Brasileiro não sabe votar

A eleição é municipal e ninguém fala em Câmara de Vereadores, algo de menor importância nesse degradado quadro político. Também não falarei nisso, mas nas regras pelas quais os vereadores são eleitos, porque são as mesmas que elegem os deputados.

Ninguém discordará se eu disser que hoje temos a pior composição da Câmara dos Deputados em muitos anos, com certeza a pior desde a conquista da democracia. E não é só porque, em razão do enfraquecimento da esquerda, houve uma alteração de viés ideológico, mesmo porque os conservadores também sabem fazer bons políticos. Continuar lendo

Navegar

Navegar é preciso. A expressão não tem o sentido de necessidade que lhe costuma ser dado, mas é assim que me vem quando o otimismo da vontade parece esmagado pelo pessimismo da razão e o seguir em frente quase não passa de um ato obstinado. E, já que sua acepção vem mesmo corrompida, termino de subvertê-la: navegar é preciso, justamente porque viver é preciso. Se quem não navega não vive, sigo navegando.
Não se trata de opção, é necessidade. Ainda que seja cada dia mais pessimista, preciso me manter do lado de cá da fronteira que separa o pessimismo da descrença, esta sim demolidora de qualquer vontade que reste. Continuar lendo

Preso a um tema

Começo com um duplo pedido de desculpas: pelo trocadilho e pelo retorno ao tema. O fato é que o tema me mantém preso.
É muita coisa acontecendo, notícias vindo de todos os lados, aí escrevo sobre o assunto, sou interpelado, começo a ser procurado por familiares de presos e me torno um ouvidor informal – involuntário e impotente – das suas agruras. Tudo isso me prende.
Deixemos de lado a explicação preliminar, que cria um suspense desnecessário: o tema é, mais uma vez, prisões. Continuar lendo

Zeitgeist

Trago, dos tempos de estudante de ciências sociais e das leituras que então fazia, dois conceitos de ideologia: um é aquele que está lá em Marx, e indica uma falsa consciência resultante das relações de dominação; o outro, mais usado, e que alguns chamavam de significado fraco de ideologia, era o que dizia com um conjunto coerente de ideias, geralmente relacionado ao modo de inserção do indivíduo no mundo econômico ou, mais precisamente, à sua classe social. Por esse segundo conceito, todos têm uma ideologia, de regra identificada nas nuances de um espectro que se estende entre esquerda e direita. Continuar lendo

Porque eu vim da Restinga

A frase foi dita há algum tempo, no meio de uma discussão sobre políticas inclusivas. Dita – sublinhe-se – com a pretensão de ser definitiva. Afinal, pensava meu interlocutor, se alguém da Restinga é capaz de superar as adversidades e chegar onde chegou, isso é uma prova cabal de que as oportunidades são iguais para todos. Logo, nada de políticas inclusivas.
Trata-se de um recurso imemorial, sempre usado na mesma proporção em que ocorre a desigualdade social: quanto maior é, mais existe a necessidade de demonstrar que a sociedade oferece mecanismos de inclusão. Pinçam-se, então, exemplos de pessoas bem sucedidas que vieram de bairros pobres e servem de exemplos vivos acerca da possibilidade de sucesso. Continuar lendo

As delícias de ser enforcado

Dizem por aí que já se contaram as favas, basta termos um pouco de paciência: passadas as eleições, o mundo maravilhoso virá. Os douradores de pílulas já estão aí, mostrando como será bom acabarem de uma só vez com a previdência pública, com o 13º salário e com o FGTS.
A conta é simples: acaba a previdência, e o salário aumenta em torno de 30%; acaba o 13º, e o valor é diluído em doze meses, dando mais 8,33%; acaba o FGTS, e vêm mais 8%. Resultado: é só acabar com essas inutilidades, e todos os trabalhadores terão imediatamente um aumento salarial de quase 50%. Continuar lendo

Ladrão de bicicleta

Propus, e meu colega Adair Philippsen, de Augusto Pestana, topou: faríamos uma oficina de sentença para funcionários e estagiários do Fórum.

Os estagiários eram todos da Unijuí, e levamos a proposta à direção da Faculdade de Direito: a oficina seria uma atividade de extensão, aberta também a alunos que não estagiavam; o Adair e eu nada cobraríamos da Unijuí e ela não cobraria dos alunos, entrando apenas com o espaço da sala de aula e o certificado ao final. A Unijuí também topou. Continuar lendo

Quando prende

Bom dia. Acho que eu sou só mais uma mãe desesperada. Lendo sua postagem, senti uma dor enorme, pois tenho um filho preso há dez meses. Foi preso como foragido de um processo que não sabíamos que estava correndo, não teve nem direito a defesa. Hoje luto com todas as chances que tenho, mas não tenho sucesso. A juíza alega um reconhecimento por foto, tal foto de quando ele tinha 15 anos, hoje com 21. Reconhecimento feito pela vítima quatro dias depois do fato. Não tenho mais forças. A dor maior é a transformação que meu filho tá vivendo. Nunca foi um playboy, mas sei que, com a decisão de uma juíza, eu não tenho chances. Desculpa o desabafo. Continuar lendo

O jurista

Disse o jurista: “Penso que não houve crime, mas não é golpe, porque nos golpes os opositores são calados. Aqui houve processo e direito de defesa. E o impeachment está previsto na Constituição. Além disso, trata-se de processo político, e são os senadores que decidem livremente se devem cassar.”

O jurista que assim fala está feliz, porque vivemos uma festa democrática, em que todos discutem política. É a própria pólis.

Ele é culto, leu o Processo de Kafka. Sabe que nenhum juiz condenaria à prisão quem cometeu delito de trânsito. Mas diz que tudo é democrático, porque não se levantou uma baioneta, não houve prisões, torturas, mortes. Nem a imprensa foi censurada. Se assim fosse, seria golpe, mas não é: tem verniz, tem até presidente do Supremo presidindo a sessão.

O jurista diz que o Congresso não precisa de motivo para o impeachment. Então, no dia marcado para a derrubada da presidente eleita, ele comemora a democracia. E diz que não é golpe.

Ouvi. Já não consigo botar ironia no sorriso. O sorriso é de tristeza mesmo.

Arrependimentos

Tenho arrependimentos. Botei na cadeia gente que não devia.
Havia um servente de pedreiro, conhecido por cometer pequenos furtos. Sumiram tijolos numa obra em que ele trabalhava. Eu, juiz em início de carreira me impressionei com depoimentos que o apontavam como culpado, sem que houvesse uma prova conclusiva. Continuar lendo

Os alienistas

Às vezes lembro de Simão Bacamarte, aquele médico machadiano que internou num hospício a população quase inteira da cidade, porque eram todos loucos.

Não é por causa dos hospícios que vem a lembrança, é por causa das prisões. Vejo a cidade cheia de Simões Bacamartes, que querem prender todo mundo, porque todo mundo é criminoso. Claro, comparações são sempre relativas, e as prisões aqui desejadas não são como as internações em Itaguaí, que democraticamente alcançavam todas as classes sociais: no nosso caso, a proposta é prender só os diferentes, lá da periferia. Continuar lendo

Elke, que nunca foi mulher

Fazia uma pesquisinha básica antes de escrever Língua e gênero – uma folheada rápida na gramática e a procura nessa fonte de erudição que é o Google –, quando me deparei com ela. Foi um reencontro mágico depois de muitos anos de separação: lembrava dela como jurada no programa do Chacrinha (ou era do Flávio Cavalcanti?), e, porque aprendemos cedo a ser preconceituosos, antipatizava com aquela figura exótica de voz esganiçada e gargalhadas livres. Numa entrevista ao Jornal Tabaré, essa liberdade estava inteira, escancarada, e me apaixonei tardiamente. Continuar lendo

Escolhas

Algumas delas aconteceram e outras são inventadas. Mas é como se fossem de verdade. Foi assim que apresentei minhas historinhas aos pequenos leitores. Entre as que aconteceram está a história de Nicole, a menina de cadeira de rodas que mora lá no fim do morro, junto à pedreira. A história aconteceu assim mesmo, e até mesmo os quatro mil reais pagos pela avó na aquisição do casebre são verdadeiros. Só o nome dela não é Nicole, porque não me senti autorizado a dizer seu nome verdadeiro. Continuar lendo

Escolher o crime

Quando escrevi A barbárie condecorada, sabia que mexia num vespeiro. O resultado foi descrito no texto seguinte, Juiz de merda. Às vezes acontece isso, um assunto que nem ao menos é da tua predileção se impõe e, pelo caráter polêmico, acaba por te levar a um caminho que não querias trilhar.

Mas aconteceu, o tema rendeu, e de certo modo fui enredado por ele. Assim, quando alguém mais fala sobre criminalidade ou violência policial, já me anteno. Algumas vezes penso: isso aí foi uma resposta ao que escrevi, mas logo me dou conta de que não sou o único que escreve semelhantes coisas, e certamente não o mais lido. Mas a pessoalização é de menos, e acabo vendo um debate com minhas ideias, mesmo quando quem escreve nem ao menos sabe da minha existência. Continuar lendo

O botão vermelho

Quem já era vivo nos tempos da Guerra Fria lembra dele. Até eu, criança do interior, presenciei a paranoia da Terceira Guerra Mundial. A geração anterior à minha era a da guerra, e, mesmo com a relativa distância do Brasil em relação ao seu epicentro, sentia nela uma preocupação permanente com a possibilidade da próxima guerra mundial, que seria definitiva, porque fatal: nada sobraria após o uso indiscriminado das armas nucleares. Continuar lendo

De rabo preso

O Jornal Nacional escondia as Diretas Já, mas elas estavam lá, na capa da Folha. Isso foi no início de 1984, e os democratas brasileiros respeitavam o jornal dos Frias. Mesmo em Porto Alegre, muitos amigos tinham assinatura, e quem não a lia durante a semana lia aos domingos.
Valia a pena: com um time de articulistas de primeira linha, reportagens de fôlego e uma postura crítica à Ditadura, a ponto de engajar-se na campanha pela redemocratização, a Folha de São Paulo oferecia aos seus leitores um conteúdo difícil de encontrar em outro lugar. Dava para dizer que se fazia jornalismo sério e de qualidade no Brasil. Continuar lendo

Os democratas de Erdogan

Sei pouco de Erdogan. Sem pesquisar, sei que é presidente da Turquia, antes foi primeiro-ministro, fundou um partido para si, é sunita, mas mantém a religião longe do Estado, é inimigo da Síria, faz de conta que é contra o Estado Islâmico, reprime o povo curdo, assim como reprime a oposição interna e persegue a imprensa livre.
Na noite de sexta-feira, quando soube do golpe militar e vieram as primeiras notícias do seu fracasso, pensei: agora ele está com a faca e o queijo na mão. Há mesmo quem diga que ele próprio armou. Não sou tão adepto da teoria da conspiração, mas creio bem provável que sabia da conspiração e deixou que acontecesse. Continuar lendo

80 horas

Foi um ato falho, com tudo o que se pode extrair dos atos falhos. A França não aprovou 80 horas semanais de trabalho – se o fizesse estaria voltando 200 anos na história. Mas o presidente da CNI, após participar de reunião com Temer, conseguiu se sair com essa. Mais: louvou o governo francês por ter implantado a reforma sem ouvir o parlamento. Está clara a sugestão para o interino: aumente a jornada de trabalho por medida provisória.
Com certeza, nada semelhante será feito antes da votação do impeachment – as maldades ficarão para depois –, mas está claro o propósito, que de resto integra um conjunto de iniciativas para reduzir os direitos trabalhistas no Brasil. A lista é quase infinita, e envolve uma crescente terceirização, o enfraquecimento dos sindicatos e da Justiça do Trabalho, a relativização das normas trabalhistas, entre tantas outras coisas. Continuar lendo

Queria uma pra viver

Já usei, mas uso de novo – fazer o quê, se ela insiste em martelar na minha cabeça? Distraído, canto mentalmente: o que dá pra rir dá pra chorar, questão só de peso e medida, problema de hora e lugar. A diferença é que Billy Blanco fala de alegria e tristeza, de ventura e desventura, enquanto penso na farsa transformada em tragédia.
Penso nisso quando vejo circular livremente – às vezes até entre pessoas inteligentes – a impostura da desideologização. Seria de rir, mas não dá, é grave demais. Continuar lendo

A comoção

Morreu um policial. Assassinado, quem vê a filmagem não tem dúvida. Muitos outros ainda morrerão, nessa profissão perigosa, estressante e mal remunerada. Merece nossas homenagens quem tomba em serviço, e o policial morto tem a minha.
O momento é também de comoção, e na comoção se misturam sentimentos; entre eles, fortalecido pela ideia de que se está numa sociedade conflagrada – em plena guerra, dizem alguns –, viceja o da vingança. Junto com ele, a defesa do confronto. Continuar lendo

A Constituição do Estado mínimo

Sabemos todos que a limitação de direitos e os retrocessos sociais parece ser uma tendência histórica. Os tempos são de resistência no mundo inteiro, e o Brasil vinha, de certo modo, na contramão desse movimento, embora a crise econômica causasse por si um agravamento nas condições de vida, com desemprego e retrações salariais.

O Governo Temer, que em nenhum momento se apresentou como interino, comportando-se desde logo como se fosse definitivo, teve início com a divulgação de um programa no qual transparecem a agressiva liberalização da economia, privatizações e retrocessos sociais. Parece certo que, em consolidado o golpe, teremos pela frente um período de forte diminuição do Estado. Continuar lendo

Onças e índios

Na minha infância há um sótão. O conheci pequeno, provavelmente levado por um irmão mais velho, para ver da claraboia uma enchente do Forromeco. Logo em seguida, o espaço me acolheu pelas leituras de antigas revistas e livros escolares, de capas duras e páginas amareladas, às vezes atravessadas por túneis de traças.
Foram anos de convivência, difícil no verão saariano sob o zinco, frequente no inverno ou nos dias de chuva, quando ali me esquecia por horas. Os livros, geralmente da Livraria Selbach, traziam miscelâneas de textos, em que se podia passar de Casemiro de Abreu a Esopo, de ufanismos pátrios a lições morais. Continuar lendo

República vazada

Já escrevi sobre vazamentos, mas o assunto continua aí, inteiro. Repete-se como farsa, repete-se como tragédia.
O fato é que até hoje não se sabe exatamente quem vaza. Ou melhor, não se sabe sempre, porque em alguns momentos houve vazamentos explícitos, como aquele da conversa entre Lula e Dilma, com todas as consequências que teve. Continuar lendo

A fábrica de Samarcos

Somos seres que se comovem com a tragédia. Coletiva ou individual, causada pela natureza ou por nós próprios, toda tragédia nos mobiliza e entristece. Quando, como num terremoto, um vendaval ou um tsunâmi, nas suas causas não está a mão humana, apenas nos compadecemos e alguns mais caridosos se empenham em ajudar as vítimas. Continuar lendo

O não estupro

Não vi o vídeo. Não fui atrás, não quis, achei que não devia. Mas vou escrever sobre a discussão, porque meu propósito não é – nem foi no texto anterior – condenar uns tantos jovens da periferia que praticaram o ato.
E, antes que alguém pense pronto mais um defendendo bandido, esclareço que considero o estupro um crime gravíssimo, que precisa ser punido com penas elevadas (mas não precisa, como brilhantes congressistas propõem a cada fato que causa clamor, aumentar as penas já existentes). Continuar lendo

Cultura do estupro: diluição da culpa?

A ênfase na cultura do estupro é equivocada, por minimizar a responsabilidade pessoal de quem assim agiu. A frase é de uma pessoa que respeito muito pela consistência do seu pensamento e que, da mesma forma impactada com o que aconteceu, quer uma punição severa a quem praticou o crime. Continuar lendo

Relevância estatística

Seis, este é o número. Como cheguei a ele? Pois aconteceu comigo como acontece com todo mundo nas redes sociais: um dia você deixa de seguir quem foi mal educado, outro dia quem só fala abobrinha, depois quem tem interesses destoantes dos seus, e assim vai filtrando o que vê.

Alguns dizem mesmo que essa possibilidade oferecida pelas redes dificulta o diálogo e a tolerância, porque cristaliza posições e te faz conversar só com os iguais. Não sei se é isso, o fato é que, como não acontecia antes, hoje somos diretamente interpelados pela telinha, que parece uma extensão dos nossos olhos. É como se cada uma dessas pessoas que você vê estivesse aí, na sua casa. Continuar lendo

A fala

A fala é do professor Eduardo Carrion. Tenho por ele respeito pessoal e admiração intelectual, e por isso fiquei mais preocupado ao ouvi-la. Aconteceu mesmo aquela coisa comum, de não me dar conta imediatamente da inteireza do que é dito, e por isso até fiz uma coisa que não costumo fazer: fui atrás da gravação, para ouvi-la novamente.
Faço um resumo, com toda a arbitrariedade que pode estar contida nos resumos, mas penso que não serei infiel ao conteúdo. Ele disse mais ou menos isso: Continuar lendo

Bagunçou

Sinceramente? Acho que não tem fundamento. A decisão de Waldir Maranhão parece do tipo “já que está uma bagunça mesmo, vou avacalhar de vez”.

Foi por inspiração de Eduardo Cunha, como dizem uns? De Flávio Dino, como garantem outros? Foi por conta própria que ele decidiu isso? Não faço e menor ideia. Continuar lendo

A dúvida na gaveta

O insondável tempo do Supremo, de uma lentidão indescritível para tantas coisas, chegou cedo demais para esta minha dúvida, que nunca será respondida: o que seria feito de Cunha depois que ele tivesse prestado o serviço?
A dúvida não dizia respeito à decisão suprema, que não fora tomada em dezembro, mas era de como a questão seria resolvida no âmbito da política. Entenda-se: independentemente das destoantes leituras acerca do papel político que hoje desempenha o STF, imaginava o tipo de acordo existente entre Cunha e os demais atores dessa burlesca tragédia e, mais, se esse acerto seria cumprido. Continuar lendo

Juiz de merda

Sou eu, segundo uma gentil senhora que comentou meu último texto. Outros, igualmente gentis, me contemplaram com o desejo de que algo de muito ruim acontecesse com algum familiar ou a sugestão de que desse abrigo a um vagabundo na minha casa. Vários vieram com o simpático bandido bom é bandido morto. Geralmente, acompanhava a mensagem a ideia de que um dia eu ainda precisaria da Brigada Militar. Esta ideia se desdobrava em duas conclusões possíveis: a de que nesse momento eu saberia lhe dar valor e a outra, dos mais entusiasmados, que me negava a proteção da gloriosa, por eu ser inimigo. Continuar lendo

A barbárie condecorada

Os conceitos antagônicos civilização-barbárie são úteis para a análise de muitas coisas da vida. A oposição pode até ser questionada, porque a barbárie não deixa de se manifestar como elemento da própria civilização, mas, se tomarmos os conceitos puros, certamente jogarão luz sobre tantas coisas que acontecem ao nosso redor.
Também não é muito certo que o Estado represente a civilização, e há mesmo quem sustente que ele tem uma função fundamentalmente de domínio dos poderosos contra os mais fracos, mas tomemos a ideia mais corrente e que está na própria justificativa para a sua existência: o Estado não só representa a civilização, mas age para que ela seja preservada contra quem a ataca. Continuar lendo

Anotações sobre o estado das coisas

O nome da coisa

O nome da coisa é golpe. É golpe porque não há crime. É golpe porque o vice também assinou e é poupado para ficar no lugar. É golpe porque os presidentes anteriores fizeram. É golpe porque muitos governadores continuam fazendo. É golpe porque já no dia da eleição tramavam a queda da presidente, do modo como conseguissem: o script estava desenhado e faltava o instrumento, e o Plano B continua engatilhado no TSE, agora com a brilhante ideia de, assim como no impeachment, separar Dilma de Temer.

Chamar a coisa pelo nome é um modo de defender a Democracia, para que nunca seja atacada com meias palavras – não houve Ditabranda, não há pausa democrática. Chamar a coisa pelo nome é constranger quem ataca a Democracia, para que saiba que a História não o perdoará. Chamá-la pelo nome é pôr os pingos nos is. Continuar lendo

Gol em impedimento

Sou gremista. Não como o Irion, o Saraiva, o Marcelo, a Elaine, o Flores, que nunca deixam de ir ao estádio; sou desses acomodados, que preferem a televisão e às vezes só descobrem no dia seguinte que houve jogo.
No mais, sou um torcedor normal, desses que reclamam do técnico, acham que o lateral não joga nada, vibram com a jogada de efeito e também com o chutão na hora certa, dormem felizes quando o time ganha e aborrecidos quando perde. Continuar lendo

Quem paga o pato

Não, não falarei sobre a acusação de plágio de obra de artista holandês. Também não falarei sobre a vocação da FIESP para apoiar golpes.
Falarei sobre outra coisa, e talvez a melhor maneira de iniciar seja por uma frase que ouvi solta, graças ao hábito de ligar o rádio do carro nesses pequenos deslocamentos em que é impossível colher a integralidade da fala. Continuar lendo

Caráter

Um querido amigo, que há tempo não vejo, mas sei que é ardoroso defensor do impeachment e de tudo o que o Moro tem feito, escreveu, sobre quem pensa diferente: quando nos posicionamos, declaramos nosso caráter.
Quero responder a ele.
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O triste fim do perplexo marciano

Não sei quem a inventou, mas aquela imagem do viajante marciano que chega à Terra e se espanta com o que aqui acontece é genial. Conseguiu, quem a teve, criar uma possibilidade perfeita de crônica das nossas incoerências, a partir de um personagem que, por nada saber de nós, se espanta e, a partir de perguntas aparentemente ingênuas, desnuda o nonsense que aqui encontra.
E não tenham dúvida de que o Brasil é um dos destinos favoritos dos simpáticos turistas do planeta vermelho. É de um deles que quero falar. Pousou em Brasília por esses dias e, como invariavelmente acontece com os marcianos, logo encontrou um interlocutor solícito para lhe explicar as coisas. Continuar lendo

Palavras

Uma vez, na Argentina, em Cosquin, vários anos antes do golpe de 24 de março de 1976, e já em contexto repressivo, tentaram proibir Jorge Cafrune de cantar Zamba de mi esperanza.

Condensei a frase de Demétrio Xavier, que esta semana evocou a Ditadura Militar argentina, no seu excelente Cantos do Sul da Terra.

Segue sua fala: escutem e leiam a música e a letra de Zamba de mi esperança; não há nada perigoso, não há nada subversivo, não há nada atentatório, naquela música, a qualquer ordem estabelecida. Ou há? Continuar lendo

O brinde

A gente andava falando de lado, olhando pro chão. Amuados, sufocados em dúvidas, num mundo tão cheio de certezas. Nos sentíamos sós e não nos víamos; só víamos aquela multidão que marchava agressiva, a multidão que nos oprimia e encolhia. Continuar lendo

A catequese

Fiz a primeira comunhão aos sete anos. Na catequese, tivemos as primeiras noções sistematizadas dos desígnios divinos, e a parte que para mim teve mais interesse – por isso nunca a esqueci – foi a confissão. Ela era, de fato, essencial, porque já tínhamos plena noção do quão terrível era queimar por toda a eternidade no inferno, sendo acossado com o tridente. Continuar lendo

O espelho

Uma das primeiras visões matinais é a do nosso reflexo no espelho. Nos miramos e nos reconhecemos, dia após dia, sempre iguais. E nos reconhecemos justamente porque permanecemos iguais. O rosto roto por uma noite mal dormida, as olheiras da farra noturna, o cabelo desalinhado ou a espinha intrusa são pequenos acidentes que não se repetirão no dia seguinte, e continuaremos iguais.
No entanto, mudamos. Um dia descobrimos uma ruga, outro dia os primeiros cabelos brancos, depois que a pele perde o viço. Alguns deixam acontecer, outros aplicam botox, usam tintura, e logo nos acostumamos com a nova imagem do espelho, que no mais muda de modo imperceptível. Esta imagem nos reflete, nos identificamos com ela e, por essa inata e inconsciente capacidade de adaptação, a sentimos perene. Víssemos um dia, tal Dorian Gray, nossa imagem da juventude, não a reconheceríamos como nossa. A ilusão que temos é de não mudança, é de familiaridade com a imagem que o espelho nos mostrou hoje. Continuar lendo

A crise e a solidão

Escrevo no momento em que meus vizinhos batem panela e sopram vuvuzela. Me sinto só, como me sinto só entre meus colegas de profissão, na academia e em tantos lugares.
Devo estar muito errado, porque a corrente toda vai para um lado, e me vejo remar contra ela. Me sinto, eu próprio, um malfeitor, porque está todo mundo tão certo sobre os crimes de um único lado, que o simples fato de questionar as verdades hoje inquestionáveis me colocam como aliado do mal.
Mas, como acima de tudo estão minhas convicções democráticas e o meu propósito de ser crítico, o que significa ao menos tentar ver o outro lado, vou marcar minha posição. Continuar lendo

A toga

Nunca usei toga. Minha posse, em 1995, foi sem. Nunca recebi e não me fez falta. Lembro que há alguns anos um grupo de juízes pediu que o Tribunal de Justiça do Rio Grande do Sul lhes fornecesse toga, e o presidente de então resolveu emitir um ofício circular, oferecendo a veste a quem desejasse. Pouquíssimos pediram. Penso mesmo ser uma peça em desuso em praticamente todas as salas de audiência do Brasil. Continuar lendo

Ia escrever sobre vazamentos

Há meses pensava em escrever sobre vazamentos. A ideia foi nascendo lentamente, na medida em que via, ainda em 2014, manchetes bombásticas que na maior parte das vezes não se confirmaram, mas mudaram votos, inclusive de queridos amigos.
Eu os imaginava seletivos, mas não tinha a menor ideia sobre sua origem. Aí li o Fred recuperar um artigo de 2004 do Sérgio Moro, em que, louvando a Operação Mãos Limpas da Itália, dizia que os responsáveis pela operação faziam largo uso da imprensa e a operação vazava como uma peneira. Escreveu Moro naquele já longínquo ano: “Tão logo alguém era preso, detalhes de sua confissão eram veiculados no ‘L’Expresso’, no ‘La Republica’ e outros jornais e revistas simpatizantes. Apesar de não existir nenhuma sugestão de que algum dos procuradores mais envolvidos com a investigação teria deliberadamente alimentado a imprensa com informações, os vazamentos serviram a um propósito útil.” Continuar lendo

Audiência de custódia: ser contra por quê?

Continua a discussão sobre a audiência de custódia, e inúmeros juízes resistem a sua implantação. Há uma explicação evidente para isso: é um trabalho a mais, e ninguém gosta de ter imposta mais uma tarefa, notadamente quando, como acontece com a maioria dos juízes, o volume de trabalho já é elevado.

Mas este não é, certamente, o único motivo, porque, houvesse a compreensão de que sua realização é importante, certamente ninguém se oporia a ela. Continuar lendo

A frase do juiz que prende

É um juiz que prende. E fala como um juiz que prende. Não há surpresa em seu discurso: o crime está tomando conta porque a sociedade é muito tolerante com os criminosos, as leis são muito brandas, o Governo prefere os criminosos soltos para não gastar com presídios, a imprensa os protege e fica acuando os policiais que agem com mão de ferro, e por aí vai. Continuar lendo

Podia ser pior

Na última terça-feira, a Suprema Corte dos Estados Unidos suspendeu medidas recentemente adotadas pelo governo de Barack Obama, que limitavam a emissão de gases de efeito estufa por usinas de energia elétrica. A medida da Agência de Proteção Ambiental representava a maior aposta de Obama para atingir a meta assumida pelo país na COP-21, a Conferência da ONU sobre mudanças climáticas realizada em Paris no ano passado. Continuar lendo

New deal do zika

Penso num país abalado por uma crise econômica: estagnação, interrupção nos investimentos, desemprego em alta, piora nas condições de vida. Nesse país em que penso coexistem um governo desacreditado e uma classe empresarial indisposta a arriscar. Parece que se está num círculo vicioso em que as coisas só tendem a piorar. Continuar lendo

Carta a um presidente

Caro amigo Lamachia. Antes de tudo, quero te cumprimentar pela eleição à presidência nacional da OAB. Como nos conhecemos mais de perto quando exerci a presidência da AJURIS e ainda estavas na presidência da OAB-RS, há muito sei do teu carisma pessoal e capacidade de articulação política. Tua eleição não foi surpresa, e está de parabéns a OAB, porque terá um grande presidente. Continuar lendo

O triunfo da lorota

Eles sempre existiram, e imagino que ao longo do tempo tenham cumprido um papel social relevante. Reunidos em torno de fogueiras noturnas, nossos ancestrais mais remotos devem ter se divertido com suas histórias, tentando adivinhar no quanto disso era possível acreditar.

Penso até que esses primeiros mentirosos foram os precursores dos modernos romancistas, porque a seu modo davam tratamento à ficção. Mas o advento da literatura não acabou com eles, que continuaram a exercer seu ofício como artistas populares, dando trato de oralidade a histórias da carochinha. Continuar lendo

A barriga da parábola

Às vezes, sou submetido a duas reações quase simultâneas, quando tenho acesso a uma informação nova: primeiro, a surpresa; após uma fração mínima de tempo, a segunda, que pode ser um interjeição, tipo ah, tá!
Pois pesquisava na internet informações sobre tábua de mortalidade, para resolver um processo referente a seguro de vida, quando cheguei ao logaritmo das probabilidades de morte do brasileiro, elaborada pelo IBGE para 2013. Continuar lendo

História nos Estados Unidos?

Desde sempre tive essa sensação. Sentia isso muito antes de Fukuyama escrever aquelas tolices sobre o fim da história, antes, portanto, de a queda da União Soviética ter dado pretexto a tal pensamento descabido. Para mim, os Estados Unidos eram um país imune à história. A história acontecia no resto do mundo, não lá, esse mar de prosperidade e consumo, sustentado pela força militar e pela máquina de fabricar dólares. Não era nada muito racional, era uma coisa meio automática, um reconhecimento quase inconsciente da força do império. Continuar lendo

O custo da democracia

Os de sempre estão, como sempre, revoltados. O motivo de agora é a destinação orçamentária de 890 milhões para as campanhas eleitorais de 2016. Gritam e chiam, porque, dizem, achou-se mais um pretexto para desviar o dinheiro do contribuinte para os ladrões de sempre.

Como geralmente acontece, gritam e não pensam: quem tem o hábito de gritar não tem tempo para pensar antes. Tivessem tempo, tentaria lhes fazer algumas ponderações. Continuar lendo

Oprimidos e fraturados

Não li as notícias da morte do pequeno Vítor, nem assisti ao vídeo: entendi tudo nas frases de apresentação e não quis saber mais. Mas tive, como muitos, esse sentimento de uma morte simbólica, a morte de um povo, o extermínio desse povo.
Quando soube da prisão do suspeito, quis ler: queria, tanto quanto o permitiria um texto jornalístico, entender este ato, se é que é possível entender a barbárie. Continuar lendo

Intolerância

Um colunista emergente da província, que gosta de flertar com o politicamente incorreto, escreve um artigo louvando a intolerância.

Trata-se de intolerância aplicada, porque o texto resvala para 18 motivos que o levam a ser intolerante com o governo central, não sem antes fazer a habitual louvação aos Estados Unidos, modelo de intolerância com tudo o que está errado. Continuar lendo

Trabalho, transporte, tecnologia

Cem anos antes de as sufragistas quebrarem vitrines londrinas, as máquinas de York eram também alvo de quebradores. Se as sufragistas tiveram ao final sucesso, o mesmo não aconteceu com os ludistas, cuja revolta contra as máquinas, que eliminavam trabalho humano, esbarrou na inevitabilidade da implantação dos avanços tecnológicos.
Parece que não foi sempre assim, e algumas invenções da antiguidade, como o moinho de água, tiveram de esperar um novo modo de produção, o feudalismo, para afinal serem disseminados, mas no capitalismo a adoção das novas tecnologias é intrínseca a um sistema em que a economia busca o constante crescimento. Continuar lendo

Menos, senhores patrulhadores

Circulou nas redes sociais o desabafo feito por um professor e doutrinador conhecido por suas posições garantistas, após terem feito uma limpa em sua casa. Junto com o desabafo, vem um comentário sugerindo calma ao professor e discorrendo sobre a inexistência de crime no caso.
Confesso que achei engraçado o comentário, que brinca com as posições do professor, embora se trate inegavelmente de humor negro. Talvez, como chiste, valesse o compartilhamento. Continuar lendo

Assumi: sou politicamente correto

Associada Jenifer, favor dirigir-se ao caixa 5. Ouvi isso no alto-falante das Lojas Americanas, era 80 e tantos ou 90 e poucos. Evidentemente, Jenifer não era diretora da empresa. A associada – ou colaboradora, como também se usava – não ganhava um centavo a mais por ser chamada assim, e continuava tão mal remunerada como quando era simplesmente empregada.
A linguagem politicamente correta virou moda, e logo negro já não era negro, para tornar-se afrodescendente, favela virou comunidade e uma sucessão de outras palavras foi adotada para designar de modo mais suave as coisas que carregavam algum tipo de estigma ou conflito, como se a mudança léxica fosse suficiente para superar o problema. Continuar lendo

O ano em que escrevi

O tempo passa e a gente com ele, mas, como tudo se renova, as coisas que a gente fazia e deixou de fazer devem ser substituídas por novas. Que deem prazer, de preferência.
Quando saí da presidência da AJURIS, senti que havia acabado um ciclo, não só porque ficara para trás um momento de intensa atividade política, mas também porque precisava me reinventar profissionalmente. Continuar lendo

Sérgio Moro, figura pública

Cheguei a ele depois de me adicionarem a um grupo de Facebook, no qual vi vários compartilhamentos a partir do seu perfil. Tomado pela curiosidade, fui conhecê-lo.

Logo reconheci a foto. Aí fui ver o que publica. Achei interessante anotar os temas. Para não parecer que fiz uma seleção a meu critério, seleciono suas dez mais recentes postagens na linha do tempo. Continuar lendo

Sinal fechado

Minha mensagem para 2016 é uma foto. Foto de um instante de olhar correspondido. Alguns segundos até abrir o sinal: no próximo vermelho, a bebê estará longe e o menino seguirá seu inseguro malabarismo, para ganhar poucas moedas entremeadas de muitas carrancas.
Mas a imagem é a deste exato momento, no qual a janela fechada não impede a comunhão entre duas almas que não se reencontrarão. Continuar lendo

A fé de cada um

As pessoas acreditam naquilo em que querem acreditar. Usei a frase numa conversa, e minha interlocutora não teve uma reação boa, porque entendeu que eu atribuía à humanidade – e, mais importante, naquele momento a ela própria – uma desonestidade intelectual inata.
Não era isso. Trata-se de um mecanismo inconsciente, provavelmente essencial para a sobrevivência, e já muito conhecido pelas ciências que estudam a mente. Dou um exemplo prosaico: se duas pessoas, uma delas vegetariana e a outra carnívora, dessas que não passam fim-de-semana sem comer um churrasco, se depararem com duas pesquisas, uma associando o consumo de carne vermelha ao câncer e outra associando a falta de consumo de carne à anemia, é quase certo que a vegetariana acredite imediatamente na primeira pesquisa e veja com desconfiança a segunda e a pessoa carnívora duvide da primeira e enalteça a segunda. Continuar lendo

O circo e o bonde

Tenho um amigo honesto. Explico: ele não é honesto como me imagino ou como você provavelmente é. Não, ele é muito mais honesto; é dessas pessoas que provavelmente nunca cometeram um pecado na vida, a virtude em pessoa.
Devo dizer que essa sua admirável qualidade lhe traz algumas dificuldades. Uma delas é ver o mundo e as pessoas por essas lentes e sempre acreditar grandeza humana, o que não raro lhe causa frustrações. Obviamente, é um democrata, e, preocupado com o processo de impeachment, veio me dizer que é necessário cuidar para que seja observado o devido processo legal. Continuar lendo

As falácias do Impeachment

É meio inevitável a polarização com cores partidárias, mas convém fugir das armadilhas reducionistas, que embaralham conceitos e resumem tudo a uma disputa de poder. Como a questão do impeachment se coloca também no âmbito dos corações e mentes, penso que ao menos as mentes devam se fazer claras, para que não sejam traídas pelo coração.
Não que o coração deva ser ignorado, o que sabemos impossível, ainda mais porque estamos tratando de política, onde 2 + 2 não dá 4, mas ele precisa conseguir dialogar com a mente. Geralmente sabe fazer isso; quem não sabe é o fígado. Mas as mentes podem ser confundidas, com a finalidade de seguirem o coração, ou até mesmo para mudarem os rumos do coração, e é preciso cuidar disso. Continuar lendo

Jardel

O caso Jardel é um desses episódios rumorosos que ensejam múltiplas abordagens, a começar pelo clichê, alimentado com tantos exemplos, talvez mais do passado que do presente, acerca da tragédia pessoal de atletas que, após subitamente se verem ricos, voltam com a mesma rapidez à pobreza, por conta da falta de capacidade ou de estrutura pessoal para administrarem o patrimônio obtido.
Mas não é de clichês nem da tragédia pessoal de Jardel que quero falar. Tampouco pretendo – nem tenho condições para isso – fazer um tratado sociológico sobre o fato. Mas, como o episódio em si leva a considerações sobre aspectos laterais de relevância, vou rapidamente comentar três pontos. Continuar lendo

O outro lado

Houve época em que se dizia que todo brasileiro é técnico de futebol. Hoje, por conta dos nossos fracassos futebolísticos parece que o número de técnicos reduziu sensivelmente, embora ainda os haja aqui ou ali. Agora há outras profissões mais praticadas. Médicos, por exemplo: quase todos entendemos hoje de medicina. Também ocupamos funções públicas, seja de governo, quando temos as melhores receitas para qualquer política, ao contrário de quem está no poder, que, estranhamente, toma sempre as decisões equivocadas; seja como juiz, e temos a capacidade de julgar nas redes sociais muito mais rápido e melhor do que faz o próprio Judiciário. Claro, não temos os autos dos processos, mas para que autos, se a imprensa nos informa tão bem? Continuar lendo

Uber?

Vou ser sincero: Uber não me interessa. Se, ao invés de proibir a Uber, os vereadores tivessem aprovado sua implantação, para mim daria na mesma. Aliás, embora nos últimos meses tenha várias vezes ouvido este nome, só ontem, depois que esse furor todo tomou conta, fui olhar no Google e descobri que Uber é o nome de uma empresa californiana fundada em 2009 e que desde então multiplicou suas atividades ao redor do mundo, fornecendo, pelo que dizem, um serviço de táxi mais eficiente, com carros melhores e perfumados e motoristas educados, tudo por um preço moderado. Continuar lendo

Mefisto

Doutor Fausto, que vagou pela Alemanha do final da Idade Média, foi dessas pessoas inconformadas, que já não se contentavam com as verdades absolutas de um mundo dominado por crendices, e tinha uma sede infinita de conhecimento.
Isso era muito perigoso, num tempo em que quem pensasse por conta própria podia ser visto como herege e acabar na fogueira. Com Fausto foi um pouco diferente, porque nunca foi importunado, mas depois de morto passou a circular a história de que havia entregue a alma a Mefisto em troca de conhecimento e riqueza. Continuar lendo

Colchões do bem

Parece que foi combinado, mas não foi.

Realizado o concerto da Orquestra Villa-Lobos, com uma bilheteria de R$ 9.360,00, valor que seria destinado à manutenção da Orquestra, e tendo esta decidido repassar metade para as vítimas da enchente, houve toda uma preocupação em maximizar o benefício e atender a quem efetivamente necessitava. Continuar lendo

Por que não usei o filtro tricolor

A questão já está muito discutida, mas tenho a impressão de que permanece um mar de incompreensões. Por isso, sentindo-me como se desse declaração de voto em tempos de assembleias estudantis, vou dizer por que não botei a bandeira da França em minha foto.
Trato, desde logo, de limpar o terreno, de modo a não alimentar eu próprio as incompreensões. Então, declaro meu horror pelo ataque, minha total solidariedade às vítimas francesas do Estado Islâmico, minha compreensão de que o EI faz parte do que de pior se produziu em muitos anos na política mundial – nesse ponto considero até dispensável uma exposição de motivos – e gostaria de vê-lo desbaratado. Também deixo claro que minha motivação não está em ver no compartilhamento da bandeira tricolor um descaso em relação à tragédia doméstica: até entendo que o mar de lama da Vale merecia muito mais atenção, mas não acho que, quando há dois temas de tão grande relevância, se deva fazer uma opção simplista por um deles. Continuar lendo

Uma cena brasileira

Uma semana de férias, em que, tendo tempo para ler mais notícias, o fiz de forma distraída, me causou uma sensação estranha. Foi como se a superficialidade da leitura me revelasse coisas novas, que de regra não vejo; como se, turista em minha própria terra, estivesse tomando um primeiro contato com a cultura desse estranho país. Continuar lendo

Passo à frente ou decisão perigosa?

Pensei dois títulos para este texto, e não sei qual devo escolher: será “Um passo à frente” ou “Uma decisão perigosa”? Me divido entre os dois, porque a decisão do STF no Recurso Extraordinário 603616, tomada na última quinta-feira, me deixou nesta posição ambígua, entre animado e preocupado. Continuar lendo

Derrubar presídios

Vou radicalizar: minha proposta é derrubar presídios. Justificativa? São inúteis.

Claro, eu sei: hoje o Brasil existem mais de 600 mil presos, colocados onde há menos de 400 mil vagas. Eu mesmo participei, quando presidente da Ajuris, de uma campanha pela melhoria das condições do Presídio Central. Mas já na época questionava essa compulsão social por prender, prender, prender. Quando se olha para o Congresso, à direita e à esquerda tramitam projetos de lei para criminalizar mais condutas e aumentar mais penas. Descriminalização nunca. Aliás, minto: há dois temas para os quais não falta mobilização de deputado: liberar armas e livrar certas figurinhas que mandaram dinheiro para o exterior. Continuar lendo

Solidariedades

É no plural mesmo: solidariedades. A palavra é polissêmica e serve para muitas coisas. Se, a meu critério, penso uma acepção principal, imagino o apoio, moral ou material, a quem esteja em situação de dificuldade.

Assim estreitado o conceito, eu me atreveria a dizer que a Orquestra Villa-Lobos não necessita disso. Afinal, há 23 anos existe esse trabalho, que se irradiou das aulas de flauta de uma escola da Vila Mapa para toda a Lomba do Pinheiro, atingindo hoje quase um milhar de crianças, adolescentes e jovens. A Orquestra Villa-Lobos já obteve reconhecimento, que decorre não só da proposta de inclusão social, mas também – e isso é essencial – da boa música que pratica. Continuar lendo

Sem internet

Havia dias em que no jardim de infância do Grupo Escolar Pio XII ouvíamos o estrondo das rochas que explodiam à distância. Não sei se por falta de tecnologia ou imperícia ou negligência, a cada estampido choviam pedras, e houve uma que chegou a se depositar caprichosamente aos pés da professora, após ultrapassar como um meteoro o teto de amianto. Continuar lendo

Uma fábula

Acredito que poucos discordariam hoje de que Dilma preside um governo enfraquecido. Isso vem de um bom tempo. Vivêssemos sob a forma parlamentar de governo e fosse Dilma a primeira-ministra, teria caído logo depois das eleições de 2014, quando se viu que não conseguiria montar uma maioria política no Congresso. Continuar lendo

Brecht por João do Livro

Meu primeiro contato com Brecht foi quando terminava o Segundo Grau, em São Sebastião do Caí. Acho que capa amarela, tradução de Fernando Peixoto. Foi uma época de grandes descobertas literárias: Garcia Marquez, Cortázar, Vargas Llosa, Guimarães Rosa. E obviamente Brecht. Tudo retirado com a Lígia, na biblioteca da Escola Normal, aquisições do Zé Clóvis.
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Os leitores do Funchal

Nunca reverenciar. Nem exigir reverência. Sabia que poucos leriam, mas deu gosto escrever. Foi um duplo prazer: recordar, afazer que se torna mais assíduo com o passar do tempo, e dar essa declaração libertária, de quem professa o credo da igualdade.
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Somos todos Mari

O título era esse e a mensagem começava assim:
Mariana, minha caçula, ou simplesmente Mari, tem 27 anos, é casada, formada em Direito e trabalha como assessora na Procuradoria do Estado em Santa Cruz do Sul. Ela teve uma recidiva da leucemia que a acometeu no início do ano passado, está internada no Hospital Mãe de Deus e precisa de um transplante de medula óssea. A má notícia é que, fora do âmbito familiar, a probabilidade de encontrar um doador compatível é de uma em 100 mil. A boa, é que este doador existe em algum lugar e nós vamos encontrá-lo.
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Quatro cenas e algumas considerações sobre fundamentalismo (o dos outros e o nosso)

As cenas

Cena 1:

Estou num grupo de amigos que conversa sobre a imigração de refugiados na Europa.

Amigo 1: O problema é que eles chegam às cidades, se isolam em alguns bairros e ali estabelecem suas próprias leis.

Amigo 2: É diferente do que aconteceu com os nossos antepassados, que chegaram aqui e se integraram.

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Uma foto de família

Queria escrever sobre família. Precisava escrever. Então, há dias me pus a pensar ideias para um texto. Não as tive.
É incrível minha dificuldade para definir o óbvio. Mais incrível ainda quando alguém diz absurdos sobre o óbvio. Como construir um discurso inteligente para refutar o absurdo? Parece que alguém nos ejeta do mundo da racionalidade, e daí qualquer palavra que venha terá de se adaptar à esquizofrenia do momento.
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Impostos

Nunca senti aquela vertigem que atinge tantas pessoas quando se fala em impostos, principalmente quando o assunto é a criação de um novo ou um aumento de alíquota. Devo ser muito esquisito, porque muitas vezes até imagino que isso é uma boa.

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A pedalada

Minha relação com o Direito Penal é mínima: tive pouquíssimos processos como advogado e só jurisdicionei no início da carreira de juiz, com um intervalo, entre 2006 e 2008, quando fui juiz do Plantão. Mas foi um intervalo peculiar: embora a maior parte da jurisdição do Plantão fosse criminal, tratava da porta de entrada, ou da pré-entrada. Caíam ali as quebras de sigilo, as interceptações telefônicas, prisões temporárias, buscas e apreensões, marias da penha e, no que aqui interessa, os flagrantes. Foram três anos de muitos flagrantes.
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Discurso aos novos magistrados

Oswald Baudot, juiz de Marselha e membro do Sindicato da Magistratura, fundado no emblemático 1968, pronunciou na posse dos novos magistrados, ocorrida em 1974, um discurso marcante, que recebeu ferozes críticas, mas se tornou mundialmente conhecido. Não lembro quando o li pela primeira vez, mas de vez em quando deparo com ele, e sempre me sinto provocado. Não concordo com tudo o que está escrito, mas sua leitura é um antídoto contra a acomodação. Nestes dias, em que não ando com muita inspiração para escrever, vou de Baudot, transcrevendo a Arenga aos magistrados que estreiam. O leitor também não precisa concordar, mas o convido para refletir:
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A imagem da esperança

Até que ponto uma imagem consegue ilustrar uma ideia? A pergunta me acompanha desde o dia em que resolvi fazer o Bissexto. De início, pensava que textos com imagens ficariam mais chamativos, mas poderiam distrair o leitor da mensagem em si. Além disso, um blog que não fosse ilustrado já passaria de saída a impressão de que nele havia ideias.
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A Corte dos virtuosos

Governo dos sábios, conselho dos anciãos, senadores vitalícios: a história e o pensamento político sempre registraram e continuam a registrar, como ideia ou como prática, a existência de instâncias políticas total ou parcialmente compostas por critério de mérito pessoal, que pode ser sabedoria, experiência, honestidade.

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Fé e esperança

Não, este não é um texto religioso. Apenas retomo um pouco do que escrevi e reli na semana passada. A fé é absolutamente necessária à nossa condição humana. Preciso ter fé para viver humanamente, porque sem ela posso ainda viver uma vida orgânica, degradada, mas nunca com a transcendência que nos é imanente.
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Aylan e a cigana

Há dois anos, escrevi no Facebook sobre os ciganos expulsos da França. Inesperadamente para mim, a publicação teve então muitos compartilhamentos. Fui procurá-la agora, porque a temática de fundo é a mesma que levou ao trágico destino de Aylan.
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Dante, Gramsci, Bobbio, Levi

Deixai toda esperança, vós que entrais. Às vezes penso que a advertência de Dante a quem entra no mundo dos mortos deveria vir antes, quando se entra no mundo dos vivos.
Ter esperança é como ter fé, e a dúvida é um tormento constante de quem se ocupa a dar um sentido à vida: se a vida é busca, cada frustração é sinal de que a humanidade é incapaz de se mostrar sublime.
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El negro es hermoso

Um pouco por timidez, um pouco por recato, não tirei foto, embora tivesse vontade. Eram cartazes escritos em espanhol contra o preconceito, num mural da 7ª série da Escola Villa-Lobos. Li enquanto esperava a professora Cecília: el negro es hermoso.

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Cotas

Cotas. Esta é uma palavra que provoca urticárias: vem do léxico bolivariano, onde estão incluídas todas aquelas coisas populistas que cheiram a pobreza.

Na origem, cota tinha outros sentidos: se olho no Houaiss, a primeira acepção que aparece é a neutra “quantia, parcela determinada de um todo” e a segunda é a não tão neutra “fração, parcela com a qual a pessoa contribui para a realização de algo”.

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Falas naftalínico?

Descobri mais uma. Desculpem a ignorância, mas não conhecia. Incrível ter sobrevivido tantos anos no mundo do Direito sem ter ouvido falar em cártula chéquica.
Geralmente me viro. Sei que tudo começa com a exordial, também chamada de incoativa. Depois disso, só vai: escopo, acostar, vergastado, supedâneo, louvado, perfunctório, e por aí vai.
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Se lembro, não pode

Deixa eu ver se lembro. Os sistemas de governo se dividem fundamentalmente entre presidencialistas e parlamentaristas. No presidencialismo, a chefia do Estado e a chefia do Governo são concentrados na mão do presidente; no parlamentarismo, só a chefia do Estado cabe ao presidente (ou monarca), enquanto a chefia do Governo cabe ao primeiro-ministro, escolhido pelo parlamento em razão da relação de poder nele existente.
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Parceria do bem

Foi numa dessas manhãs chuvosas de julho. A caminho do Fórum, dial no 107.7, ouço a entrevista. Cecília Rheingantz Silveira, regente e coordenadora da Orquestra Villa-Lobos, fala da viagem que farão ao Rio de Janeiro para participar do XXI Seminário Latino-americano de Educação Musical e pede que os ouvintes ajudem com a estadia, comprando rifa de um kit da Orquestra.
Penso: vou comprar. Mas, em vinte minutos tudo pode mudar, e no tempo que separa minha casa do Foro do Partenon logo vejo a orquestra da Lomba do Pinheiro se embaralhar no meu pensamento com as Historinhas para ler durante a audiência dos pais. Continuar lendo

O depois quando ainda era antes

Acontece mil vezes na nossa vida. Fazemos uma coisa, depois nos arrependemos. Geralmente são coisas simples, como comprar uma roupa e nunca usar, às vezes são maiores, raramente são comprometedoras, como quando a pessoa escolhe a profissão errada ou se arrepende do casamento; mesmo assim costumam ter conserto.
Sem conserto mesmo são aquelas que deixam uma mancha definitiva, da qual a pessoa não consegue se livrar. Imagino, por exemplo, que alguém que não seja psicopata nunca se esqueça de um ato de violência que praticou ou da falta de solidariedade a uma pessoa querida num momento em que ela necessitava. Continuar lendo

Oligarquia podre

Foi Jimmy Carter quem disse. Em entrevista a Thom Hartmann, apresentador de rádio e televisão dos Estados Unidos, Carter disse o óbvio: nos Estados Unidos ocorre um suborno politico ilimitado, diretamente relacionado à possibilidade de contribuições eleitorais igualmente ilimitadas por grandes corporações.
A eleição dos candidatos com campanhas milionárias, financiadas por grandes empresas que depois interferirão nas decisões do Congresso, cada vez mais sentida por aqui, lá está num estágio muito mais avançado, a ponto de Carter afirmar que os Estados Unidos não são um Estado democrático. Continuar lendo

A crítica da crítica

Se ontem usei minha lógica de araque para me posicionar contra a redução da maioridade penal, hoje usarei minha vulgar dialética para fazer a crítica da crítica da Lava Jato.
Desde logo esclareço que não vou discutir se Moro é a favor ou contra o Governo, se ele está de boa ou má-fé. Também não tratarei da repercussão na crise política, e nem ao menos falarei dos delegados que fizeram grupo no Facebook contra a Dilma ou do procurador da República que vai fazer proselitismo em culto (credo, que falta de compostura!).
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Tem a ver

Sabe aquelas coisas que são totalmente óbvias pra ti, de modo que as dizes sem mesmo pensar muito, chega o gaiato e pergunta “o que uma coisa tem a ver com outra?” É terrível quando isso acontece: aquela relação causa-efeito contida de modo implícito no teu pensamento, que saiu ao natural e sobre a qual não tens a menor dúvida, é afrontada assim com poucas palavras, e justamente porque te parece óbvia, não carecendo de argumentos, te vês sem palavras para responder. Continuar lendo

Notícias de Viamão

O noticiário da segunda-feira traz dois fatos que bem ilustram a permanente luta pela civilização, em que ora se avança, ora se retrocedem alguns passos.
Primeira notícia. De vez em quando ouvimos que isso acontece em outros lugares do Brasil, e ainda recentemente alcançou repercussão nacional, pelo espancamento e morte, amarrado a um poste, de um suspeito de furto, que depois se descobriu ser primário.
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Liberdade

O Jornal do Almoço de sábado trouxe uma matéria sobre a Banda Liberdade, integrada por adolescentes infratores de Passo Fundo, numa iniciativa do juiz Dalmir Franklin Oliveira Júnior e do professor Marcelo Pimentel (certamente há outros participantes, mas foi destes que a matéria falou).
Não conheço de perto a iniciativa, não sei de seus resultados, se há dados que permitam concluir tenha havido a redução da reincidência e tenham se aberto portas aos egressos para uma vida digna de cidadãos. Continuar lendo

Bússolas

Será que, se o polo magnético da Terra se deslocasse, mudaria seu eixo de rotação? Será que mudariam os pontos cardeais? O norte continuaria norte?

Pois tenho pensado que na política o polo mudou de lugar há muito tempo e a bússola informa outras direções. Lembro disso agora porque insistentemente a imprensa diz que o Syriza é de extrema esquerda. Quem viu o programa do Syriza, vê seus representantes, vê suas políticas, bem sabe que ele se opõe à política de austeridade da União Europeia, que sufoca os países da sua periferia. Sabe também que a política que tenta implementar na Grécia é de redução das desigualdades sociais, de saída da crise por meio de investimentos, tudo isso com o forte apoio de uma população que não aguenta mais ouvir falar em arrocho.

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Ingenuidade

Se ontem me confessei conservador, hoje confesso que sempre fui ingênuo. Sou desses que acreditam (ou, já que o tempo deve servir para alguma coisa, talvez deva usar o verbo no pretérito) em promessas e em ajustes. Às vezes quebro(ei) a cara, por ter feito negócio baseado só no acerto verbal e já quebrei muito a cara por acreditar nas promessas da política.
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A doutrina do escracho

Confesso, estou ficando velho. Claro, dirás, falta pouco para pegares ônibus de graça e pagares meia no cinema. Mas não é disso que falo. Talvez esse processo de comemorar aniversários demais tenha me trazido uma certa dose de mau humor, ou mesmo me tornado conservador, como sói acontecer a quem envelhece. Ou, o que é mesmo mais provável, talvez sempre tenha sido conservador. Por isso, caro leitor, quando lês meus textos e concluis que sou meio comunista, não te iludas: sou o contrário do que pensas.
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O gesto

Os nacionalismos são produto da formação do Estado Nacional e sempre foram úteis como pretexto para encobrir realidades que não podiam ser reveladas. A guerra moderna raras vezes deixou de ser justificada pelo argumento da nacionalidade: se é verdade que a primeira vítima da guerra é a verdade, a mais comum das mentiras que a sustenta é a que atribui ao inimigo estrangeiro toda a responsabilidade pelo conflito, em razão do qual os nacionais não tem outra saída senão se defenderem.

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Quem faz a pauta?

No último final de semana voltou à pauta o tema do impeachment. Não parece nada sério; ao menos aos meus olhos caiu como um factoide criado para acossar ainda mais um governo já combalido, que não consegue ter iniciativa para sair do isolamento em que se meteu.
Mesmo assim, teve força para mobilizar grande número de governistas preocupados, não sei se em razão de uma paranoia de quem já não consegue distinguir ameaças reais de imaginárias ou se porque de fato a crise é tanta que até mesmo factoides passam a se constituir em ameaça.
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O bispo

Doutor, o bispo quer lhe ver. Não incomoda, Sandra. Mas é verdade, doutor, é o bispo.
Era verdade: o bispo de Santa Maria estava em Cacequi, em viagem pastoral, e queria visitar o juiz.
Confirmada a notícia, tive o sentimento de que seria bem mais do que uma visita protocolar, porque teria a oportunidade de conhecer pessoalmente Ivo Lorscheiter, ex-secretário geral e ex-presidente da CNBB, ativista de direitos humanos e pedra no sapato da Ditadura. Além disso, teria uma bela história para contar a minha mãe, que sabia tudo de padres e bispos e conhecera D. Ivo coroinha.
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Concordo e discordo

Tomei um tempo e fui olhar os comentários ao texto do último domingo, no qual critiquei meu amigo que compartilhou a foto da criança negra famélica.
Quando se entra numa polêmica, sempre haverá os prós e o contras, os que concordam e os que discordam, e nesse caso não seria diferente. Aliás, a tendência era a de que aqui o debate repercutisse mais justamente pelo que havia de provocação – provocação na foto e no texto original e contraprovocação na minha resposta.
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Foi bom pra ti?

Querem saber? Eu preferia ter escolhido outro momento para botar no meu perfil as cores do arco-íris. De fato, não me agrada comemorar desse modo uma decisão da Suprema Corte dos Estados Unidos, nem me agrada fazê-lo com a colaboração imprescindível do Facebook.
De fato, houve outros momentos que, para nós, brasileiros, eram mais adequados a essa comemoração. Vivemos mesmo, nós, periferia, voltados para o centro do mundo, e a tecnologia da comunicação instantânea contribui muito para isso. Foi o que aconteceu há alguns meses com o Je suis Charlie, quando no mesmo dia a Polícia Militar da Bahia matou vários jovens negros da periferia, sem maior repercussão no Brasil.
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Sim, acho que és

Querido amigo:
Li ontem a mensagem que compartilhaste e pensei muito nela. Fui dormir pensando e acordei achando que tinha de responder. Na verdade, queria responder para a moça que a escreveu, mas não a conheço e não teria intimidade para lhe dizer as coisas que posso dizer pra ti.
A mensagem foi compartilhada por muita gente, o que significa que calou fundo, e, se a compartilhaste tu também, é porque concordas com ela.
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Charada ética futurista

Imagine-se o leitor em algum lugar do futuro. Não semana que vem, não ano que vem, mas em tempo suficientemente próximo para que sirva de testemunha – se preferir, protagonista, provavelmente vítima – dos fatos que serão relatados.
O grande, inesperado e trágico evento surpreende o mundo. Não que devesse surpreendê-lo, porque nesse tempo que virá o polo norte derreteu, os verões se tornaram tórridos e grandes cataclismos tem causado mortes e destruições.
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O amigo do pai

Os pais de Luísa e Lucas se separaram: a mãe ficou morando com os filhos; o pai saiu de casa e foi morar com um amigo.
Faz seis meses que Luísa e Lucas vão à casa do pai nos finais de semana. Lá é muito divertido: o amigo é engraçado e os quatro fazem muitas brincadeiras.
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A falta que faz um intelectual conservador

Mas esse cara é meio comunista, foi o comentário de um leitor fortuito, quando leu Nós, classe média, e o outro. Outro leitor comentou, num compartilhamento de O ódio é de direita: dependendo do lado em que estamos é paixão e o outro lado é ódio?

O certo é que existem lados. E é bom que existam, porque é no debate entre diferentes que se constroem as ideias mais consistentes.

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Números

A rebelião do criador contra a criatura (ou contra a máquina que a controla): resolvi não me conformar com a lista de postagens mais lidas, que há tempo descobri ser fajuta. Aliás, quem aportar por este blog e olhar a lista, concluirá que estou em franca decadência, porque os textos mais lidos são de março, quando recém tinha começado a publicar.
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Essa droga de ironia

Ironia é bom. Mas pode ser ruim. Quer dizer: oferece riscos.
Você já imaginou um mundo sem ironia, que chato?
Pois, embora algumas pessoas me achem sisudo, eu gosto de usar. Claro, nem sempre, há momentos em que não dá, a seriedade do assunto se impõe.
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Contra a legalização

Há gente por aí que parece viver em outro mundo. Ignorando totalmente os males do tráfico e sem se preocupar com os prejuízos causados pelo consumo, pretende torná-lo legal.
Essas pessoas parecem não se preocupar com o fato de que por sua causa quase 50 mil pessoas morrem por ano no Brasil e um número bem maior se torna inválido para o trabalho, desgraçando tantas famílias.
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Fronteiras

Quem defende os palestinos é antissemita? As duas coisas se confundem? Onde começa uma, onde termina a outra?
O antissemitismo vem de muito longe, mas se acirrou no final do século XIX. Para isso, somou-se um conjunto de fatores, entre os quais o antiquíssimo preconceito religioso, que acusava os Continuar lendo

Sou mais O Boticário

Menina, quanto tempo? Nossa, dez anos já, né! Gente, você tá igualzinha, né, quer dizer tá mais magra, gente e esse cabelo maravilhoso, o que você faz pra ficar assim?

Não deu tempo de pensar que era propaganda de um novo e revolucionário creme ou de um suplemento vitamínico, porque a resposta foi imediata: sei lá, eu como linguiça Sadia, uma delícia.

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Nós, classe média, e o outro

Somos todos classe média. Eu que escrevo, tu que me lês, somos classe média. Também é classe média quem pede o impeachment usando a camiseta da Seleção Brasileira (credo!) e quem acha que todas as investigações sobre corrupção são armação. Coxinhas e petralhas são quase todos classe média.
Como nós, classe média, vemos o outro? Não digo o outro burguês, o rico capitalista, porque este não é bem outro: este é nós com (muito) mais dinheiro. Claro, muitos de nós certamente terão várias reservas diante de um rico, seja por valores ideológicos, seja por eventuais dúvidas sobre o modo como construiu ou mantém sua riqueza, mas não é disso que falo. Não estranharíamos, por exemplo, ao menos não muito, sentar ao lado de um rico no avião, e temos em comum com ele a possibilidade de viajar a Paris (pequeno detalhe: para o rico, viajar a Paris é uma brincadeira, para muitos de nós uma extravagância, mas não está fora do alcance dos sonhos). Continuar lendo

O encontro entre o gigolô das palavras e P., 39 anos, louca para dar

Tenho tentado imaginar como seria o encontro entre o gigolô das palavras e P., 39 anos, louca para dar. Dar para quem sabe usar corretamente a crase.
O gigolô reconhece que sempre foi péssimo em Português, vive às custas das palavras como um cáften profissional e se compraz em maltratá-las, delas exigindo submissão. Sobreviverá ao teste das crases?
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Somalis e haitianos

Não é preciso ser marxista para compreender como a consciência das pessoas é influenciada (para não dizer determinada) pela economia.

Isso pode ser percebido em diferentes planos, desde o individual até diferentes graus de coletividade, com sentimentos que podem ser de egoísmo e inveja ou solidariedade e cooperação.

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Plutocratizando

Um dos grandes problemas das democracias contemporâneas é estarem cada vez mais submetidas ao controle do poder econômico. O fenômeno há muito tempo transformou o parlamento dos Estados Unidos em um lugar oferecido unicamente aos ricos e caminho semelhante se desenha em outros lugares, entre eles o Brasil.
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Nunca reverenciar

Giulio Cesare Croce foi um escritor italiano do Século XVI, e o conheci num tempo que já vai remoto, quando a vontade de ler me fazia catar qualquer coisa que então pudesse achar em Bom Princípio. Quer dizer: não conheci Croce – a ele cheguei muito tempo depois, quando tentava resgatar esta história –, conheci Bertoldo, cujas aventuras me caíram nas mãos, já não lembro como.

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O ódio é de direita

Eu odeio a burguesia. Ouvi isso mais ou menos na época em que o Cazuza cantava enquanto houver burguesia não haverá poesia, mas fiquei chocado igual e nunca esqueci, afinal vinha de um cara gentil, amigo de todos e incapaz de fazer mal a uma mosca.

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Quase sérios

“Mas isso que tu disse é muito sério.” Foi a recriminação que ouvi quando, ao escrever Matemática aplicada, classifiquei o texto como quase sério.

Bem, preciso me explicar. Quando pensei em fazer um blog, e me deparando com a possibilidade de classificar as postagens, quis fugir do fatídico cultura, economia, política, direito, etc. Pensei que duas classificações me seriam suficientes: mais sérios e quase sérios; seria uma boa maneira de me orientar nos meus textos bissextos.

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Colorindo

Fazer um blog é mudar um pouco cada dia e, para um semianalfabeto digital, um constante quebrar de cabeça. Descobri que coisas que funcionam num computador não funcionam em outro e, quando funcionam nos dois, não funcionam no celular. Além disso, a foto que sai no Chrome não sai no Explorer e sai em outro lugar no Mozilla, e as opções de compartilhamento que funcionam neste não funcionam naquele, e por aí vai. Também já me deparei com spams e coisas do gênero, com as quais não sei lidar.
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O Senado, quem diria?

Desde sempre, o que significa desde que comecei a pensar política, tenho uma clara rejeição à existência do bicameralismo. Tão antiga é a ideia, já transformada numa espécie de patrimônio ideológico consolidado, que quase não lembro mais a razão de pensar assim; o certo é que penso.

Tentando recordar os motivos, chego à minha convicção democrática filiada à ideia liberal de “uma pessoa, um voto”. Embora a representação na nossa Câmara dos Deputados não funcione exatamente assim, é ela, a câmara baixa, que representa o voto popular baseado na proporcionalidade, em tese o pensamento médio dos eleitores, e por isso, ainda em tese, é o desaguadouro dos desejos políticos da nação.

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A historinha recontada

Era uma ação de guarda, com vários estudos sociais, com informações do serviço assistencial do Município, e sem muita perspectiva. A avó materna tinha consigo as três netas, porque os pais estavam presos, mas toda a boa vontade dela era insuficiente para dar conta do tamanho da tarefa, principalmente nas condições que a cercavam.
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As historinhas

Quando cheguei à Vara de Família do Partenon, me perguntaram se eu manteria a sala de audiências como estava. Fui ver: uma mesa oval, em torno da qual sentavam no mesmo plano juiz, promotora, defensores e partes; quadro negro na parede; brinquedos; revistinhas. Claro que mantive.

A mesa e o quadro eram iniciativa do Roberto Arriada Lorea, juiz que tinha saído, os brinquedos e revistinhas da Patrícia Zanchi Cunha e da Cassandra Sibemberg Halpern, promotora e defensora pública.

O ambiente era um convite a uma jurisdição humana, ao diálogo, à empatia. Confesso que tenho um quê de formal, e não usei todo o potencial oferecido pelo Lorea (nunca, por exemplo, cheguei perto do quadro), mas me encantei com as possibilidades oferecidas por uma sala dessas, na companhia de pessoas que acreditavam ser possível de algum modo contribuir para melhorar a vida de quem precisava do Judiciário.

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Matemática aplicada

Quem tem filhos já ouviu a pergunta: “por que tenho que estudar isso, se nunca vou usar?”

A pergunta faz sentido quando se estuda o aparelho digestivo dos moluscos, mas para qualquer um, até quem não gosta de matemática, é bom saber montar uma equação das mais simples, tipo a=b.c/d. Essas equações sempre nos serão úteis, inclusive para desmontar algumas falácias.

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Quanto custa?

O “quanto custa?” me acompanha desde sempre, certamente por força de uma infância em que tudo tinha de ser bem contado para as coisas não faltarem. São aquelas marcas que, como impressões digitais, não se apagam e ficam indelevelmente grudadas na pessoa.
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A audiência de custódia foi terceirizada

Cena 1: Verônica Bolina é travesti. Domingo, dia 12, foi presa, após briga com uma vizinha. Algumas notícias mencionam tentativa de homicídio. Informam também que ela resistiu à prisão. Presa, foi posta na mesma cela em que estavam presos do sexo masculino. Novas informações dizem que ela causou perturbações e por isso um carcereiro decidiu transferi-la para outra cela. Nesse momento, ela teria mordido uma orelha do agente, da qual arrancou um pedaço.
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Galeano

Incrível: As veias abertas da América Latina fui um dos primeiros livros que comprei, carreguei pra cima e pra baixo, encadernei, emprestei, busquei de volta, perdi, achei, voltei a perder, achei de novo, mas nunca li, exceto parágrafos soltos quando eu o tirava do suvaco. Por outro lado, nunca esqueci de Vagamundo, que li em 1978, onde tinha a história de um negro que tirou todos os dentes sãos para encher a boca de dentes de ouro.

Galeano é uma referência para todos os que lutaram e lutam por uma América Latina mais justa, e não podia deixar de me somar aos inúmeros amigos que hoje lamentam sua perda.

A necessidade da reforma política

Há tempo pensava em escrever sobre reforma política, mas não achei o tom nem consegui imaginar um texto razoavelmente completo que não me exigisse mais que a hora e meia das minhas mensagens bissextas.
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Quantas emoções?

Respondam-me os físicos: quantas emoções cabem no mesmo lugar do espaço?
Após oito anos longe de uma jurisdição normal, porque alternei três anos de plantão, mais três só com cadernetas de poupança e dois na Ajuris, cheguei ao fim da gestão em vias de preencher o direito à aposentadoria e pensando, quase em tom de despedida: vou ser juiz ainda uma vez. E me preparei para enfrentar uma jurisdição cível.
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A legiferância da barbárie

Não sei se quem me ensinou foi a vida ou foram os livros, mas acho que aprendi: a civilização é um prédio que se constrói lentamente, como uma catedral medieval, que levava séculos para ser erguida, mas a barbárie pode vir num frêmito, como um terremoto que nada deixa em pé.
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A redução da maioridade penal de Eduardo

A propósito da morte do menino Eduardo no Complexo do Alemão, é necessário registrar que a polícia do apartheid é uma realidade nacional: acontece no Rio, acontece em São Paulo, acontece na Bahia, onde em fevereiro, numa única operação, foram mortos doze jovens negros.
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Empresários: vítimas da corrupção?

As empreiteiras tentaram, e a tese não é absurda: foram vítimas de achaques e, se não pagassem propina, não sairiam os contratos, elas teriam enormes prejuízos, talvez até mesmo quebrassem. Forçando um pouco a barra, haveria, em relação a suas condutas, uma inexigibilidade de conduta diversa.
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Eles apenas comemoraram um gol

As tardes de domingo dos meus oito anos eu as passava grudado no rádio de válvula do meu pai. Joãozinho e Alcindo eram minhas alegrias, e muito vibrei com os tantos gols que faziam. Vibrei? Modo de dizer: eu permanecia impassível e era necessário que olhassem bem meu rosto para perceberem o sorriso.
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Triste aniversário

Não sou dos que compartilham daquela visão negativista do Brasil e dos brasileiros, postura que encerra em si uma contradição, porque traz implícito o entendimento de que o problema é com os outros e cada um dos que assim julga é imune às mazelas denunciadas. Além disso, ignora o fato de que este é o país que historicamente conseguimos construir e que, para melhorá-lo, é necessário um esforço coletivo, que certamente envolve a mudança de uma cultura e a busca de alterações institucionais.
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Um dia de juiz

Tarde de audiências no Cível. 15 em 15 minutos de conciliações e justificações: há que aproveitar o tempo, que é curto para tantas ações.

Fim de tarde: duas me acompanham para casa. Nem mais nem menos importantes, mas me acompanham.

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Duas perguntas sobre corrupção

1) Sabemos bem que, pela Lei da Improbidade, empresas envolvidas em corrupção devem ser proibidas de contratar com o Poder Público. Sabemos também que as grandes empreiteiras representam parte significativa do PIB, tendo inclusive importantes contratos internacionais. Dão muitos empregos e são fonte de divisas. Representam parcela significativa do PIB. Além disso, sobrevivem em grande medida graças a contratos com o Poder Público, de modo que, se perderem esses contratos, correm o risco de quebrar em massa. Continuar lendo

Criticar, ma non troppo. Ou: por uma teoria que atenda à demanda social

Digam-me que estou errado, que não entendo nada. Se isso acontecer, ficarei feliz por me preocupar em vão por algo já resolvido, embora um tanto vexado por ter falado publicamente besteira. Mas isso será o de menos, porque o que mais vejo na rede é gente encher a boca, posar de entendido e dizer bobagens que passam por verdade.
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Meu dia de doutrinador

Parece improvável, mas aconteceu: tive meu dia de doutrinador. Nunca se repetiu, nem se repetirá, por isso nem bissexto foi. Continuar lendo

Meu pai e Piketty

Ele era uma pessoa justa.
Religioso, conservador, austero, trabalhou muito por muitos anos. Profissão, alfaiate. Mas a profissão era insuficiente para sobreviver, e ele também vendia sapatos, de preferência com defeito, para ficar mais barato aos seus fregueses agricultores. Vender sapatos também era insuficiente, e às cinco horas ele fechava as portas para ir à roça. Assim criou onze filhos.
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Audiência de custódia e violência policial

Em abril de 2008, o Comandante do Policiamento da Capital pediu que a Corregedoria Geral de Justiça tomasse providências contra mim, porque, na condição de juiz plantonista, sistematicamente deixava de homologar flagrantes. Na ocasião prestei as informações que seguem, e que agora torno públicas, em razão da discussão que envolve a realização da audiência de custódia.
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As ruas da República

O que têm a ver o princípio federativo, a separação entre os poderes e a reforma política com o espírito das ruas? Esses temas, discutidos no Seminário República, e ali identificados como pontos de impasse da democracia brasileira coincidem com as aspirações postas nas manifestações populares do mês de junho, que ainda reverberam na pauta política?
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O poder de veto no Supremo

A vista do Ministro Gilmar Mendes na ADI 4.650, que postula a declaração da inconstitucionalidade do financiamento de campanhas eleitorais por empresas, já dura quase um ano, muito mais que o prazo de duas sessões ordinárias previsto no artigo 134 do Regimento Interno do STF.
Considerada a cultura do Supremo, um ano nem é tanto tempo, porque há inúmeros casos de pedidos de vista que simplesmente acabam com um processo, sem qualquer sanção (fosse juiz de primeiro grau, a história seria outra).
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Quantos presos queremos ter?

Quando se trata de crimes e penas, é relativamente fácil conhecer o pensamento médio do brasileiro: 1) nosso sentimento de justiça nos leva a desejar sempre a prisão dos réus, como castigo por um mal que cometeram; 2) queremos que o cumprimento da pena ocorra muito longe de nós, de preferência em outra cidade, para que nosso meio não seja contaminado; 3) não nos interessa saber o modo como a pena é cumprida (amiúde, a notícia de más condições carcerárias nos agrada, porque satisfaz nosso desejo de vingança); 4) pelas razões anteriores, não nos interessa cobrar do Estado a construção de presídios ou a criação de condições para que seja mantida a dignidade dos presos.

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Os protestos, o PT e a corrupção

Ia iniciar este texto dizendo que a corrupção é um fenômeno inerente à condição humana, quando me lembrei dos relatos acerca de integrantes de tribos primitivas, que, estimulados a se beneficiarem à custa de seus irmãos, mais do que se negarem a isso, simplesmente não compreendem a oportunidade que lhes é oferecida.
Retifico, por isso, para dizer que a corrupção é um fenômeno histórico, presente nas sociedades que, produzindo excedente de riqueza, permitem que alguns se apropriem de mais do que outros, ensejando uma disputa, nem sempre lícita, pelas maiores fatias do bolo.
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Impeachment?

Num dia de grandes manifestações, em que não acredito haja uma identidade de propósitos entre todos aqueles que vão para a rua, mas vejo forte, inclusive entre os organizadores, o discurso do impeachment, penso que, mais do que simplesmente entrar na guerra das acusações recíprocas, é importante fazer ver aos tantos que pelas mais diferentes razões aderiram ao dia de protestos o quão antidemocrática é a tese do impedimento.
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Língua e gênero

As línguas ocidentais derivadas do latim passaram por um período de maturação de cerca de mil anos até ocuparem, em meados do último milênio, num momento de consolidação dos estados nacionais, o seu lugar como língua escrita e codificada.

Com a normatização, veio também uma inevitável cristalização: uma língua basicamente oral e com poucos registros escritos é dinâmica e se modifica, mas, uma vez adotada oficialmente e submetida a regramentos, passa a ser pouco suscetível a mudanças; ainda que o vocabulário esteja aberto a modificações e principalmente ampliações, a estrutura se consolida e dificilmente haverá mais que alterações  cosméticas.

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A corrupção e as regras do jogo

Aloysio Nunes Ferreira quer ver Dilma sangrar. O desejo do senador do PSDB será realizado. Por uma série de motivos – polarização social, terceiro turno, crise econômica, percepção da existência de corrupção, hostilidade da grande imprensa, incapacidade de comunicação da presidente – teremos pela frente um período em que o Governo será acossado, não sairá da defensiva e terá sua legitimidade corroída.
A questão é: como isso terminará? É quase unânime o entendimento entre juristas e líderes políticos acerca da inviabilidade da ideia de impeachment, seja porque não surgiu até o momento qualquer indício acerca da responsabilidade da presidente, seja porque os oposicionistas mais sagazes veem como problemático o quadro que se desenharia em caso de impedimento.
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Resolvi fazer um blog

Resolvi fazer um blog.

Dizem que eles estão em baixa, mas, tudo bem, será meu espaço.

Não penso mesmo em ser muito lido, que não o serei. Na verdade, é porque de vez em quando sinto necessidade de dizer. E para mim dizer significa escrever. Ser ou não lido é outra história. Continuar lendo