As palavras perdidas

Não sei precisar quando, mas perdi as palavras. De início, não percebi: sentava, iniciava um parágrafo, às vezes chegava ao segundo, e nada fluía. Logo – como acontece neste momento – sentia vontade de fugir, e fugir significava me perder pela internet ou me esquecer num jogo viciante. Passada meia hora, voltava ao texto iniciado e já não via nele conexão que me permitisse continuar. Até agora não sei se faltava qualidade ao texto iniciado ou me faltava ânimo para continuá-lo.

Parecia uma crise momentânea de inspiração, mas um dia ouvi, após me identificar na recepção para uma reunião ou palestra, que eu havia parado de escrever. Sim, pensei, havia parado.

Por que me fugiram as palavras? Às vezes penso a respeito, formulo hipóteses, alinhavo razões que ultrapassem a ideia de que apenas me tornei estéril, mas nada me as devolve. Também não me atrevo a produzir um discurso sobre a perda, porque até para isso são necessárias palavras.

Mas, se agora chego a este ponto, com quase mil caracteres escritos, devo ao menos ensaiar, ainda que vexatória, uma explicação à leitora – uma das dezoito – que, se não sentiu a falta, ao menos constatou o sumiço dos textos.

Houve um momento em que passei a achar que escrevia tudo igual, e tudo era sempre sobre os absurdos que tomaram conta do nosso país, e tudo era sempre sobre a naturalização dos absurdos que tomaram conta de nosso país.

Percebi que expressava sempre um misto de amargura e rancor contra pessoas (até há pouco) amigas, que no final de 2018 (e tempos precedentes) borraram definitivamente sua biografia. Misturado a isso, havia palavras inúteis de denúncia contra o que acontecia, inúteis porque encontravam eco somente entre quem não precisava da denúncia. Tinha a impressão de que a mais grave denúncia, sobre a maior perversidade, se perdia no vazio.

Vi que escrevia sempre o mesmo texto, e, quando as acusei de inúteis, as palavras me abandonaram.

Se hoje escrevo, não é porque me perdoaram, nem que as queira de volta: ando há dias, desesperadamente, à sua cata, porque preciso que, ao menos agora, fiquem comigo e me livrem de praticar o silêncio dos bons, como se pudesse ser bom quem fica em silêncio diante da injustiça.

Elas, que me abandonaram, devem agora me ajudar a gritar contra as iniquidades, contra a mentira, contra o fascismo que nos ameaça.

É o que lhes peço, e por isso publico ainda este texto.