As covas

Uma imagem vale mais que mil palavras. A máxima foi novamente confirmada hoje, com a capa do Washington Post, na qual se veem dezenas de covas abertas num cemitério de São Paulo, enquanto se realiza um enterro, no qual os funcionários usam roupas de proteção.

São covas demais para pouca estatística, porque nelas caberiam praticamente todos os mortos até hoje contabilizados por conta do Covid-19. Para quem acompanha os números da pandemia, isso não é surpreendente, e provavelmente no mundo inteiro a contagem é subestimada.

As motivações podem variar, e parece mesmo tentador a alguns governos, principalmente aqueles que não tomaram cautelas suficientes para contê-la, minimizarem os efeitos da doença.

De qualquer maneira, num mundo que não se preparou para enfrentar a pandemia, a estatística acabaria mesmo por ficar num segundo plano. Por mais importante que seja terem-se, ao final, informações confiáveis sobre o número de casos e o número de mortes, não será isso que acontecerá.

Exemplo disso são alguns dos países europeus que hoje lideram a tétrica contabilidade (logo serão ultrapassados pelos Estados Unidos): tanto na França quanto na Espanha, somente se contabilizam mortes em hospitais, excluindo-se aquelas ocorridas em casa ou mesmo em asilos.

Pelo menos lá as mortes em hospitais parecem ser todas contabilizadas, o que não ocorre no Brasil, por falta de realização de testes para o vírus. O fato é que se multiplicam caixões lacrados de pessoas que morreram por broncopneumonia ou insuficiência respiratória, e hoje, por conta do risco à saúde pública, já se permitem sepultamentos sem certidão de óbito.

Haverá, no futuro, alguma tentativa de resgate do número aproximado de vítimas do Covid-19? Como se fará? Serão contados os caixões lacrados? Se fará um cruzamento das causas declaradas como doenças respiratórias com semelhantes ocorrências numa série histórica? Se fará um estudo comparativo da variação do total de enterros e cremações em relação ao período passado ou mesmo futuro? Ou nada se fará?

Talvez isso não venha mesmo ao caso hoje, e é certo que, por mais importante que seja ter-se uma estatística minimamente confiável, os próprios protocolos para óbitos em que não houve teste proíbem a realização de autópsia, pelo risco de contaminação.

O fato é que, no Brasil e no mundo, os números todos os dias lidos no noticiário são muito inferiores aos números reais. No Brasil, a falta de teste em doentes leva certamente a um número de casos e de óbitos várias vezes superior ao registrado.

O número exato nunca se saberá. O que falta saber é se a subnotificação servirá no futuro para que os negacionistas de sempre digam que era uma gripezinha. Mas sempre sobrará a imagem da capa do jornal americano.