As árvores da Etiópia

350 milhões de árvores. Ou, para ser mais preciso, 353.633.660 mudas. Foi o que a Etiópia plantou em apenas 12 horas, batendo o recorde mundial.

Segundo o noticiário, a ação faz parte do programa Legado Verde, cujo objetivo é plantar 4 bilhões de mudas até outubro, e integra o compromisso assumido por 28 países africanos de reflorestarem 100 milhões de hectares até 2030.

Dizem ainda as notícias que, ao encampar esse projeto, a Etiópia, segundo país mais populoso da África, tenta recompor parte de sua cobertura florestal, que era de 35% no início do século XX e caiu para menos de 4% no ano 2000.

É um excelente recorde, notícia dessas que andam em falta e precisam ser comemoradas, principalmente porque, além do número propriamente dito, revela uma atitude concreta, rara nesses tempos de negacionismos e declarações tão hipócritas como vazias sobre proteger o planeta.

Por outro lado, sempre é bom comparar números. Como este trazido pela revista Science de julho, segundo o qual o planeta precisa plantar 1,2 trilhões de árvores para dar conta de dez anos de emissões dos gases que produzem o efeito estufa.

A considerar esse objetivo, o plantio recorde da Etiópia teria de ser repetido ainda 3.400 vezes. Um pouco mais animadora é a comparação com seu objetivo de plantar 4 bilhões de mudas até outubro: nesse caso, bastariam 400 programas como o etíope.

Mas atenção: isso seria suficiente para tirar do ar algo como 400 gigatoneladas de carbono, mas só compensaria dez anos de emissões humanas. Seria algo como uma moratória de dez anos para a chegada do apocalipse.

E há outro problema: se até aqui só falei em plantar árvores, sou obrigado a lembrar do desmatamento de 2.254,9 km2 ocorrido na Amazônia no mesmo mês de julho.

Considerado somente o número aproximado de 1,5 mil árvores com diâmetro acima de cinco centímetros por hectare, portanto desconsideradas as árvores jovens e a vegetação não arbórea, conseguimos anular na Amazônia o esforço etíope. Aliás, muito mais que anulamos, porque eles plantaram mudas que levarão décadas para chegar perto da absorção de carbono que deixou de ocorrer com o corte desse pedaço da Amazônia.

Não nos esqueçamos de que 2.254,9 km2 é o número de julho. Depois virão agosto, setembro, outubro, virão 2020, 2021, 2022, e, ainda que a Etiópia plante os 4 bilhões prometidos, levará muito mais que 7 a 1 do grande Brasil de Bolsonaro.

Mas, como não temos o que comemorar nesta nossa terra arrasada, vibremos com o gol de honra da Etiópia.