Arquivo morto

Publicado em 9 de fevereiro de 2020

Foi há alguns meses. Numa frase de duas linhas, responsabilizei os eleitores dele pelas queimadas da Amazônia. Houve quem retrucasse, e, surpreendentemente educado, um deles, após argumentar que a queimada se repetia da mesma forma em todos os governos, acabou se saindo pela tangente, com esta: “Devemos combater um problema de cada vez. Você notou, por exemplo, que não se fala em corrupção na presidência?”

Não era o caso de, naquele momento, quando me preocupava a destruição da Amazônia, desde sempre estimulada pelo atual ocupante da presidência, abrir novo debate, mas havia, ainda que produzido de modo inconsciente, algo de revelador na pergunta.

De fato, a corrupção não andava ocupando as pautas. E, como por encanto, aquilo de que não se falava havia deixado de existir. Foi assim também na Ditadura: não havia corrupção, porque ninguém falava nela.

Claro, a comparação com a Ditadura não é a mais adequada, porque naquela época havia censura e perseguição, e era impossível uma investigação jornalística com semelhante pauta. Já no atual governo, a vocação totalitária já tantas vezes vocalizada não chegara ao ponto de calar a imprensa.

Mas não só na ditadura vigoram silêncios, e muitas explicações podem ser pensadas para situações de silêncio, além do raciocínio óbvio de que, por não se falar em corrupção, ela não existe: pode, por exemplo, decorrer de uma trégua inicial a um governo empossado há pouco; pode ser também uma atitude conivente para com quem joga o jogo desejado. Nessa última hipótese, por que atrapalhar quem está empenhado em produzir as mudanças desejadas pelo mercado?

Mas o debatedor, que chamava a atenção para a falta de notícias sobre corrupção e dela concluía que a corrupção acabara, não lembrava de um ponto, que podia não ser manchete, mas teimava em aparecer em algum rodapé de página interna: o rápido enriquecimento da família presidencial, as evidências de extorsão dos funcionários de gabinete, as ligações com as milícias. E, nisso tudo, a proximidade com os fatos que envolvem a morte de Marielle Franco.

Nada dizia o eleitor ainda orgulhoso sobre o sumido Queiroz, nada dizia sobre o Escritório do Crime e as promíscuas relações da família com os integrantes do crime organizado.

Sumido Queiroz, sumido também estava Adriano Nóbrega, chefe do Escritório do Crime, outro nome citado nas investigações das rachadinhas e acusado da morte de Marielle. Sumido até hoje, quando foi morto em confronto com a polícia.

Dizem que foi queima de arquivo. Não sei se foi, mas certo é que o arquivo está morto, e foi fechada mais uma porta para saber quem mandou matar Marielle.

E eu aqui lembro do eleitor orgulhoso com o fim da corrupção: sem arquivo, não se fala em corrupção; logo, ela acabou.