Apesar de comunista

Fui elogiado. A notícia me veio truncada, e o que sei é que fui assunto numa conversa entre terceiros, na qual, provavelmente diante de alguma alusão do interlocutor ao meu radicalismo, o amigo me defendeu, dizendo que, mesmo comunista, eu era uma pessoa de diálogo e bom senso.

Não posso negar que fiquei envaidecido com o elogio, do mesmo modo como, há mais tempo, ficara feliz quando uma pessoa revelou seu espanto ao descobrir que eu trabalhava, porque imaginava que gente de esquerda só dava discurso e militava.

De fato, não posso deixar de me sensibilizar quando, mesmo carregando essa capitis diminutio, ainda faço jus a uma conjunção adversativa seguida de alguma virtude que amenize o grave defeito.

E isso é de tal maneira naturalizado no senso comum, que a própria pessoa que assim me elogiou diante de seu amigo depois me trouxe o relato do qual constaram o defeito, a conjunção e a virtude, tudo como prova da sua admiração.

Eu disse que me sensibilizo. Mas também me divirto, embora esse estigma, que vem de longe, seja cada dia mais preocupante, por tudo o que representa no imaginário social, em tempos de anunciada caça às bruxas.

O fato é que a condição de ser de esquerda – ou comunista, como preferem os mais exaltados – identifica o mal nesses tempos maniqueístas. E o pior é que o conceito abarca cada dia mais coisas: se defender os pobres sempre foi coisa de comunista, se há muito tempo é comunista defender Direitos Humanos, hoje é comunista defender a preservação ambiental ou falar em aquecimento global, é comunista defender índio, negro ou homossexual, também o é defender a liberdade artística ou a laicidade e, principalmente, é comunista sugerir qualquer coisa que se volte contra a profunda desigualdade social existente.

Isso cria uma interessante dicotomia, em que, defendendo esses degenerados tanta coisa ruim, as pessoas normais, sem ideologias, defendem o contrário disso. Tome-se, no parágrafo anterior, tudo o que os comunistas defendem, para, por exclusão, descobrir o que defendem as pessoas de bem.

Ah, faltou dizer: a corrupção é uma coisa de comunista, e por isso, por definição, quem não é comunista não é corrupto.

Nesse contexto, só tenho mesmo que valorizar o elogio recebido. Aliás, seria injusto dizer que, por me atribuir tal defeito, o autor do elogio se alinhe automaticamente ao maniqueísmo de que falo. Não tenho, por exemplo, notícia de que tenha, contra as ideias comunistas, começado a defender o criacionismo e o terraplanismo.

Sim, ele é uma pessoa ilustrada, e nem ao menos se identifica com o candidato em que votou; só fez isso para evitar o mal maior: o comunismo corrupto. Quanto às outras coisas, como aquecimento global, no qual acredita, são coisas de menor hierarquia diante de assunto tão sério.

Tenho escrito pouco, e continuarei cada vez mais bissexto. Tive a ideia de falar sobre o elogio quando já estava firmemente decidido a, pela falta de inspiração, apenas lembrar a dedicatória de Calamandrei a três juízes, em sua célebre obra Eles, os juízes, vistos por um advogado.

Pasquale Colagrande, fuzilado por ordem de um tribunal especial, era um daqueles mil togados que, mesmo nos tempos de terror, prosseguiram com sua obra de cada dia pela continuidade da justiça. Pasquale Saraceno, cuja obsessão era o erro judiciário, queria ser encerrado numa prisão, entre delinquentes comuns, para procurar na realidade do cárcere a justificação da pena. Aurelio Sansoni, que se negou a fazer a vontade dos bandos fascistas que invadiam as salas dos tribunais, atormentava-se por fazer justiça, e chegava a perguntar ao bedel Gervasio se o réu merecia ser condenado.

Ao fazer essa lembrança, prestaria homenagem a esses juízes que em outros tempos resistiram ao fascismo e diria da importância de tentarmos ser um pouco Colagrande, Saraceno e Sansoni, de nos empenharmos em defender o Estado Democrático de Direito e não sermos, nós próprios, peças de uma engrenagem montada a destruí-lo.

Mas escrever isso seria coisa de comunista.

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