A voz

Não sei se é grave: ouço vozes. Mas não se assuste, não são vozes imperativas, que, seguidas à risca, me assegurarão hospedagem vitalícia num manicômio judiciário. Na verdade, é uma voz só, num tom brando, que se manifesta um pouco abaixo dos meus pensamentos. Às vezes some, outras vezes fala comigo, mas não a ouço, só ocasionalmente ela me chama a atenção e passa a dominar a cena.

Talvez seja melhor explicar com um exemplo. Estava na minha caminhada do IAPI e tudo parecia normal: olhava árvore e pensava árvore, olhava passarinho e pensava passarinho, olhava pessoa e pensava pessoa. Foi só na quarta volta que aconteceu: olhei árvore e pensei rei, olhei passarinho e pensei nu, olhei pessoa e pensei o rei está nu. Continuei caminhando, feliz com o entorno, mas ouvia: o rei está nu. Nem sempre ouvia, se pensamentos fossem medidos em decibéis, este teria só um, próximo do silêncio absoluto. Mas era persistente, e logo me repetia: o rei está nu.

E assim segui caminhando, imaginando a nudez do rei, e ela é escabrosa. Pensei em recomendar que ninguém a visse, mas lembrei da fábula e de como a nudez revela.

Mas isso já são divagações, porque falo da voz que ouço. De tanto ouvi-la, já a conheço. Sei que vem de dentro, e não de fora, o que me livra do diagnóstico de esquizofrenia. Também sei que ela quer ser desvendada, mas não sei se à moda da psicanálise ou por que outra arte. Mesmo quando não a compreendo, é minha companheira.

E não é enfadonha, às vezes muda de assunto. Foi o que aconteceu nessa caminhada: eu olhava árvore e pensava o rei está nu, olhava passarinho e pensava o rei está nu, olhava gente e pensava o rei está nu, olhei cachorro e pensei leões devoram caçadores. Pronto, mudou de assunto.

E assim segui, olhava árvore e pensava leões devoram caçadores, olhava passarinho e pensava leões devoram caçadores, olhava gente e pensava leões devoram caçadores.

Daí a pouco a voz silenciou, mas aí era eu que pensava, alternando: o rei está nu, leões devoram caçadores, o rei está nu, leões devoram caçadores.

Acho que expliquei, não sei se há classificação de CID para isso, mas não me preocupo, não é nada que me imponha uma internação.

Talvez alguém queira interpretar o que dizia a voz, as pessoas adoram fazer isso. Eu mesmo pensei algumas coisas, mas prefiro não falar, porque silêncio é ouro. E, se alguém der uma sugestão interpretativa, darei de ombros, tanto se me dá.

No mais, não é uma boa solução literária buscar explicações, seria como explicar uma piada mal contada.