A figueira

Após iniciarem como uma desagradável obrigação, logo as caminhadas diárias se revelaram prazerosas, e não só por causa da frase, antes incompreensível, que via em adesivos: viciado em serotonina.

O fato é que a caminhada se dá em cenário vedado aos sedentários, e dele retiro sensações de outro modo inalcançáveis. O Alim Pedro, onde há alguns meses vi amanhecer o IAPI, é um lugar frequente para visões, como o ataque rasante de um joão-de-barro, que, numa manhã de quase chuva, pôs em fuga duas improváveis saracuras.

Criança interiorana, ouvia o canto das saracuras anunciando chuva, mas não as via. Hoje as vejo na cidade, onde também há pica-paus, de igual forma invisíveis nos tempos distraídos de outrora.

Então, quase todo menino tinha funda, e as aves aprenderam a não se aproximarem. Hoje, não raro, desvio de um joão-de-barro ou de um sabiá seguro de si na calçada. Com alguma sorte, encontro no caminho também um pica-pau, ainda em processo de urbanização, não sei se causado pelo acolhimento da cidade ou por não lhe sobrarem lugares melhores na natureza.

As frutas também me interpelam. Por esses dias, a colheita do araçá interrompe a caminhada, e só sigo depois da mão cheia. Isso quando minha caminhada começa por dentro do IAPI, porque agora tenho preferido a Eduardo Chartier, onde descobri uma dúzia de árvores jovens, que me oferecem frutinhas negras.

Há um senhor – não sei seu nome – morador das proximidades da Cristóvão, que se esmera em cultivar o canteiro na calçada do cemitério, mas ele não soube me identificar as arvorezinhas, parecidas com pitangueiras, quando floriram, em dezembro. Pelo tamanho, devem ser das últimas plantadas pela Prefeitura, antes de abandonar o viveiro da Lomba do Pinheiro.

Segui passando por ali, vendo as frutinhas crescerem, até encontrá-las pretas. O sabor me fez desviar o caminho: se como araçá na ida, passo ali na volta, mas tenho preferido colhê-las já na ida. São necessárias dezenas para encherem a mão. Após saboreadas, as sementes me acompanham, para o descarte onde tenham chance de brotar: um canto abandonado de praça, um terreno baldio, o tronco podre de uma árvore morta.

Tirei fotos, mandei para o Paulo Brack, ele respondeu que é uma mirtácea, provavelmente Myrcia multiflora. Também pesquisei na internet, e cheguei à mesma pedra-ume-caá por ele sugerida. Não a conhecia, mas é nativa, e sigo como agente de dispersão.

No Alim Pedro, as espécies dominantes são a paineira e o eucalipto. A depender do clima e do horário, me inebrio com o aroma do eucalipto, mesmo sem simpatizar com a espécie, cujo valor econômico o faz substituir por todo lugar a mata nativa, simetricamente disposto como se fosse o exército chinês.

E é em frente a um dos eucaliptos que meu passo se torna lento. Se a expulsão das saracuras pelo joão-de-barro foi um instantâneo irrepetível, a imobilidade vegetal me permite acompanhar dia após dia a luta de uma pequena figueira que emerge indiferente à pressão das suas raízes.

Figueiras são assim: depositada sua semente sobre um butiazeiro, logo a árvore cresce e acaba por matar seu hospedeiro.

Não sei como será com o eucalipto, mas, quando vejo a figueirinha em luta com o gigante australiano, imagino-a como a nossa pobre pátria, em alegórica resistência contra o império que a tudo engole.

Também por isso caminho: preciso ver a figueira tomar corpo, torcer para que não a arranquem e esperar o dia em que envolva raízes e tronco do eucalipto, cresça em sua volta e ao final lhe diga que este é o seu lugar.

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