A felicidade do mercado

A explicação é técnica, sem sorrisos, sem empostação de voz, sem julgamento. O mercado está satisfeito com o resultado da economia chinesa e tem boas expectativas com a posse do Trump, portanto o cenário internacional está favorável; além disso, a bolsa sobe também por um motivo doméstico: a morte de Teori Zawaski.

A comentarista conversou com analistas e gestores, e nos traduziu o fenômeno: “A análise é fria, porque ela leva em consideração que a morte do ministro Teori Zavascki atrasa toda a avalanche que seria causada pela homologação das delações, a famosa delação do fim do mundo, e isso daria mais tempo ao governo do presidente Michel Temer, e à equipe econômica, que carrega uma grande credibilidade, a continuar tocando coisas da economia, e abre também espaço para que a reforma da Previdência avance mais.”

Sim, o mercado é frio. A ele não interessa saber se há corrupção, a ele interessa que as coisas saiam como deseja.

Mas que mercado é esse de que fala a jornalista tão didática, cuja explicação permite mesmo a um idiota compreender o mundo? Certamente não é o da mão invisível de Adam Smith, que o pensava como o resultado das ações combinadas de uma multidão de homens livres. Este continua existindo, com sua lei da oferta e da procura, mas atua num plano distinto, de uma pretensa lei universal, que resulta virtuosa a partir de uma infinitude de comportamentos individuais de seres por natureza egoístas.

Adam Smith viveu no século XVIII, e o seu mercado não é este que de que falou a jornalista. Seu mercado é composto pela totalidade da população, e nele, ainda que as ações individuais possam ser destoantes e imprevisíveis, a soma de todos comportamentos cabe no modelo científico elaborado. Mas o mundo por ele pensado é um mundo ideal, sem imperfeições.

Depois dele, diferentes escolas fizeram uso de seus conceitos, e os superaram, mas, até porque ostenta o nome de liberalismo, precedido do prefixo neo, há uma corrente que o invoca como seu. Como nunca antes aconteceu na Ciência Econômica – se é que se lhe pode dar o status de ciência – o neoliberalismo retirou da Economia a condição de ciência humana.

Há quase 50 anos ouvimos, pronunciado a partir da Escola de Chicago e de Milton Friedman, um discurso, que se tornou dominante, segundo o qual qualquer resistência às leis de mercado é irracional.

É dali que se constrói um discurso de legitimidade, baseado numa autodeclarada objetividade científica, segundo o qual quem vê qualquer espaço de maior intervenção do Estado é um tolo, por contrariar leis universais, como se desejasse desviar a Lua de sua trajetória predeterminada em torno da Terra.

O tempo passou, um novo modelo baseado nessa Escola trinfou, e com o triunfo veio a arrogância. O mercado é um ente que não comporta tentativas de controle, é soberano diante de ações humanas que queiram desviar seu curso, e, por assim ser, não se sujeita à vontade humana.

Mas já não se trata de uma mão invisível que resulta de milhões de pequenas mãos, como resultado final de tantas vontades individuais. Não, o mercado não é resultado, ele é um ente com vida e vontade próprias, que está ali, nos espreitando, e sabe o que quer. Somos feitos para servi-lo, como bem percebeu Janot, quando levou, em sua viagem à Montanha Mágica, a mensagem de que a Lava Jato lhe será útil.

Acredito em Janot: estamos sendo úteis ao mercado. Mas, mesmo que nossa caminhada aponte um rumo que o satisfaz, sempre haverá acidentes que alterem seu humor. A morte de Teori foi um desses acidentes (esclareço, dado o caráter polissêmico da palavra, recentemente provado por nosso presidente, que o uso que dela faço desconsidera a causa da queda), e o mercado ficou feliz com a pausa que a morte do relator lhe propiciou. (Para não perder o rumo do meu texto, deixo de lado a tentativa de traduzir esse aparente paradoxo, de ao mesmo tempo ser a Lava Jato boa ao mercado e este festejar a morte do relator, mas imagino que não seja muito difícil entendermos.)

O fato é que o mercado há muito não é mero resultado de nossas ações individuais, mas um ente com vontade própria, predeterminada, ao qual servimos. Não nos escandalizamos com seus desejos e tomamos sua vontade, devidamente transmitida por oráculos, como insuscetível a resistências ou mesmo julgamentos éticos.

Se o mercado fica feliz com a morte de alguém, isso não está no mesmo plano do ódio que hoje se vê esparramado por aí e se contenta com a desgraça do inimigo. Não, a felicidade do mercado nada tem de ódio, é a do resultado útil, e nem ao menos é censurável, porque ele é frio e supra-humano, um ente com vontade soberana, que deve ser respeitada.

O mercado é um ente que paira sobre nós, uma divindade que nos abençoa ou amaldiçoa, mas o faz sem a ira Antigo Testamento, porque é frio, como explicado pela moça da Globo. Diante dele, não existe o certo ou errado, apenas as leis da Economia, transformadas em postulados de uma religião universal, que está acima do bem e do mal.

O Mercado (como divindade, merece maiúscula) exige fidelidade, quebra as nações que o desafiam, recompensa as que o alimentam. Não é contra a democracia; até a prefere, porque lhe dá mais tranquilidade, mas não aceita ser por ela contrariado.

Este Deus não se revela diretamente, não esperemos dele uma epifania, mas tem um poder de comunicação infinito, e manda dizer, via mídia, quando está feliz e quando não está. E a mídia, que o venera, nos transmite o recado. Não cabe aos intérpretes de sua vontade emitirem juízos a seu respeito, os juízos são destinados aos humanos, não às divindades.

Este Deus é frio e racional: nunca diria a Abraão para lhe sacrificar Isaac só como prova de seu amor. Para ele, o sacrifício só serve se lhe for útil. Então se comunica com seus oráculos e lhes diz: que bom que morreu Teori, porque aquela terrível lista ficará guardada por mais um tempo e não atrapalhará as necessárias mudanças no país.

Corrupção? Isso é história para patos. Não, a análise do mercado é fria, e nela os patos não contam.