A dedicatória

Dedico esta foto a você, que votou nele. Sim, é para acusar tua cumplicidade. Mas é principalmente para te desafiar a tomar uma atitude.

Postei estas palavras em 21 de agosto, acompanhadas da foto do tamanduá cegado pelo fogo. Como sou habitante de uma bolha, a quase totalidade dos comentários que se seguiram fez coro às minhas palavras, geralmente num tom acima do que utilizei.

Poucos discordaram. Lembro de três. Um deles, típico representante da direita raivosa, que em poucas palavras consegue ofender e reproduzir mentiras fabricadas, foi logo bloqueado. Um segundo, cujo perfil – me dei ao trabalho de verificar – não é diferente ao do primeiro, se conteve, argumentou sem ofender, embora com informações falaciosas, quando não claramente falsas. Esse, coitado, silenciou, posto a correr por outros comentadores.

Está claro que nenhum dos dois era destinatário da minha mensagem: dificilmente poderia acusar de cúmplice quem foi acometido pela doença da raiva direitista, e com certeza não cabia esperar deles qualquer atitude outra.

Já a terceira comentadora pareceu encaixar-se no perfil daqueles a quem dediquei a foto. Não que tivesse declarado que votou nele: ela não fez isso. O que fez foi, lamentando as queimadas, afirmar que não se poderia criticá-lo por algo que aconteceu igualmente nos governos que o antecederam.

A cada resposta que recebia, ia buscar novos argumentos, e não se furtou de, desafiada a se informar melhor, trazer dados sobre focos de queimadas. Mesmo refutada, senti que não lhe foi dada uma resposta abrangente, nem por mim, nem pelos demais comentadores.

Não que houvesse muita possibilidade para isso, porque o debate estava limitado pela associação que fiz entre o voto da última eleição e o fogo que queimava a Amazônia.

Por isso, tendo respondido que a destruição da Amazônia vem de longo tempo e ocorreu do mesmo modo com diferentes governos, era mesmo necessário apontar a falsidade da defesa, o que implicava mostrar como, mesmo num ano sem seca, foi destruída área muito maior, após inúmeras declarações de estímulo à queimada e medidas administrativas que dificultaram seu controle.

Por mais que a comentadora insistisse com seus repetidos argumentos, desde sempre estivera claro a qualquer pessoa medianamente informada que este governo faria – ou permitiria que se fizesse – com a Amazônia exatamente isso que vem acontecendo.

Poucos dias antes dessa postagem, eu havia escrito As árvores da Etiópia, tendo mencionado o que acontecia na Amazônia nesses dias. E antes disso havia postado um diálogo real, que aconteceu no dia seguinte à eleição: “Eu tinha uma amiga. Em 29 de outubro de 2018, ela me falou do seu voto. Eu disse: vão acabar com a Amazônia, vão perseguir os índios, vão matar muita gente. Ela respondeu: eu sei.”

Cabia, por isso, refutar nesse terreno a educada comentadora, que, sem mencionar seu próprio voto, deu a entender que todos os governos foram iguais, assim negando a responsabilidade dos seus eleitores.

Falar em responsabilidade é essencial. Essa coisa kantiana – ou hegeliana, não sei – da responsabilidade deve ser apontada claramente: talvez os dois primeiros comentadores, que vivem nas trevas, sejam politicamente inimputáveis, mas a ilustrada classe média que fez essa opção não é menos responsável que os alemães que em outros tempos votaram no pintor de paredes. Por isso, a acusação; por isso, o desafio à reação.

Mas, dizia, não considerei abrangente a resposta que lhe foi dada. E não foi abrangente porque, embora tenha acusado a escolha do que há de mais perverso, que, sem se afastar do projeto neoliberal, o faz da maneira mais selvagem, seja na agressão ao meio ambiente, seja na agressão a tantos direitos, deixou de reconhecer que, com outras graduações, os governos da esquerda latino-americana, ainda comprometidos com uma pauta desenvolvimentista, não estão livres de culpa.

É certo que após 2004 tinha ocorrido uma significativa redução na extensão das queimadas, como resultado do Plano para Prevenção e Controle do Desmatamento na Amazônia, então lançado. Mesmo assim, os governos petistas, como os demais governos de esquerda da América Latina, empenhados em sua política desenvolvimentista, nunca assumiram a pauta ambiental como prioritária.

Não por nada a Amazônia também ardeu na Bolívia de Evo Morales, que todavia teve reação muito diferente à do nosso presidente, ao empenhar-se pessoalmente no combate aos fogos.

E não se trata de opção fácil: se insistir no crescimento econômico, tendo o PIB como parâmetro para o sucesso ou insucesso, é questão de sobrevivência para qualquer governo, ao menos nos paradigmas hoje em vigor, isso é ainda mais dramático para governos de esquerda, para os quais a inclusão social de uma grande massa marginalizada passa pela via do desenvolvimento econômico.

O problema é que o mundo está exausto, ardendo em febre, ao mesmo tempo em que rareiam as fontes de energia. É necessário reinventar a política, porque a sobrevivência do planeta, mas também da humanidade, principalmente dos mais pobres, passa pela adoção de outras políticas, para as quais a esquerda ainda não acordou.

E não há mais muito tempo para isso. É necessário se reinventar, até para que não venham os eleitores do incendiário dizer que todos são iguais.

A foto do tamanduá é de Araquém Alcântara. Houve quem dissesse que foi de um incêndio anterior. Outros asseguram que foi deste último. Fiquei em dúvida, mas a expressividade da foto é suficiente para simbolizar a perversidade das queimadas de hoje e das de ontem. E também das que continuarão a ocorrer, se deixarmos a política na mão dos incendiários.

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