A catequese

Fiz a primeira comunhão aos sete anos. Na catequese, tivemos as primeiras noções sistematizadas dos desígnios divinos, e a parte que para mim teve mais interesse – por isso nunca a esqueci – foi a confissão. Ela era, de fato, essencial, porque já tínhamos plena noção do quão terrível era queimar por toda a eternidade no inferno, sendo acossado com o tridente.

Aprendemos a diferença entre pecados mortais e pecados veniais, o que foi um alívio, porque tínhamos certeza de que nenhum de nós nunca cometeria um pecado mortal, de modo que só os veniais, que nos imporiam um estágio mais ou menos extenso no purgatório, constituíam uma verdadeira ameaça.

Os veniais eram inevitáveis: mentir, desobedecer, roubar doces. Havia outros, como ocasionalmente bater na irmã, mas esses três se repetiam sempre. Quando explicou como fazer a confissão, o Monsenhor José Becker usou uma expressão diferente para roubar doces, que me era desconhecida. Disse ele “roubar gulodice”, com aquele sotaque que fazia o g parecer um c. Resolvi fácil o problema de vocabulário, criando um neologismo, com ênclise e tudo, e roubar gulodice virou roubar cu-lo disse. Não questionei a estranha expressão que acabara de criar, e isso serviu para muitos anos de confissões.

O alívio que a distinção entre pecados mortais e veniais me causou não foi completo, porque tinha quase certeza de que, quando morresse, me acompanhariam pecados veniais não absolvidos, seja por ter esquecido de algum na última confissão, seja porque minha alma pecadora não me permitiria passar em branco até a próxima. Como ficar um mês sem roubar cu-lo disse? Certamente chegaria chamuscado ao paraíso.

E o pior de tudo: o padre nos advertiu com ênfase de que a absolvição só ocorreria se o arrependimento fosse verdadeiro. Se confessássemos apenas para ter salvo conduto para o próximo período, nenhuma penitência nos salvaria da condenação.

E isso era mais grave porque sabíamos que Deus lia nossos pensamentos, sem nem mesmo precisar de grampo, de modo que nossa reserva mental seria desmascarada no próprio ato.

Por muito tempo fiquei em dúvida se minhas confissões valiam, porque, ainda que tentasse ser sincero no arrependimento, tinha certeza de que em algum momento reincidiria.

Estranho me virem essas reminiscências. Apareceram depois que pensei nos arrependidos de 1964.