Pensando na quarentena

A gripe espanhola aconteceu há cem anos, e matou dezenas de milhões de pessoas (50, 100?), num mundo cuja população era de 1,8 bilhões. Morreu entre 3 e 5% da população do planeta. Hoje uma pandemia que aponta número muito menor de mortes paralisa o mundo. Para comparar, mesmo a assustadora projeção de quase 500 mil mortes para o Brasil, por conta da omissão dos governos em seus vários níveis, representaria menos de 0,3% da população.

O Covid 19 causa tão grande comoção porque nossa geração viveu um outro padrão, instaurado após o encerramento da Segunda Guerra Mundial, tempo de uma inédita normalidade, em que, pelo avanço da medicina e pela sofisticação dos serviços de saúde pública, epidemias dessa espécie eram impensáveis. Os últimos 75 anos foram também os tempos de otimismo, e neles aprendemos que em qualquer cenário o futuro seria sempre grandioso.

O fato é que o futuro não será assim. A crise climática, que parece não nos perturbar, mostrará ali na frente um mundo cada vez mais inóspito. Não haverá lugar nem alimento para 11 bilhões de pessoas, população projetada para 2050. Logo acabará a matéria-prima para sustentar o estilo de vida que a classe média ocidental se habituou a ter. Antes disso, serão exploradas todas as fronteiras, com a destruição do que resta da Natureza. O colapso chegará, hoje ou amanhã, e o mundo nunca mais será o mesmo.

Seria o Covid 19 o ponto de inflexão, mero detonador de uma bomba prestes a explodir? Há tempo está anunciada mais uma crise econômica, pior que a anterior. A crise de 2008, criada pelo mercado, foi resolvida com mais mercado. No mundo inteiro, porque eram grandes demais para quebrar, as empresas responsáveis pela crise foram premiadas pela transferência de dinheiro público. O Estado salvou o capitalismo. Logo em seguida a ortodoxia neoliberal voltou à carga, dizendo que a receita era menos Estado, e seguiu devorando tudo o que é público, entregue quase de graça.

Assim segue a vida: o capitalismo financeiro cria a crise em que sucumbirá, mas o Estado o salva, e novamente vêm os neoliberais dizendo que o Estado deve ser esvaziado, privatizado, entregue à sua cobiça.

Quando vem o Corona Vírus, não há capitalismo que nos salve. Hospitais privados não resolvem a situação, e o que recebemos do mercado é álcool gel a R$ 50,00. Repentinamente, todos lembram que existe o SUS, que existe a Fiocruz, e buscam a salvação no Estado.

O Estado deve ser sempre demonizado, deve ser rapinado pelos ricos do mundo, exceto quando vem a crise. Quando vem a crise, o virtuoso mercado some, e invocamos a proteção do Estado.

Também é a hora da ciência. O momento não é de dizer que a universidade é lugar de balbúrdia. Terraplanismo tem hora, e na crise os bufões são marginalizados.

Todos para casa! Estamos em quarentena! E o que será dos empreendedores, como o ufanismo neoliberal designa esses proletários pós-modernos sem vínculo empregatício e sem acesso à seguridade social? De que viverão? O mercado garantirá sua sobrevivência?

As panelas voltam a ser ouvidas. Curiosamente, muitas estão nas mesmas janelas em que há não tanto tempo emitiram seus decibéis. O que aconteceu? Acabou o encanto?

Os populismos de direita que assolam o mundo, de que temos um exemplo grotesco em nossa terra, surgiram no vácuo das políticas liberais, que já não conseguiam entregar a prometida prosperidade. Em alguns lugares, aqui inclusive, ao contrário dos fascismos originários, veio para fazer as reformas liberais mais extremas, como acabar com os direitos trabalhistas e privatizar tudo o que der. Mas manteve, do fascismo, a demagogia manipuladora das massas, coisa que o neoliberalismo não é capaz de fazer.

A vocação autoritária dessas correntes se constrói com estímulo à mobilização popular. A massa as acompanha com uma fidelidade quase indestrutível, mesmo que digam plana a Terra. Como numa grave doença social, não é possível lançar a razão sobre a massa hipnotizada. Só um grande trauma a desperta, atordoada. Nos fascismos de cem anos atrás, a guerra cumpriu esse papel. Teria o Covid 19 essa força hoje? As panelas nos dirão.