Arquivo morto

Foi há alguns meses. Numa frase de duas linhas, responsabilizei os eleitores dele pelas queimadas da Amazônia. Houve quem retrucasse, e, surpreendentemente educado, um deles, após argumentar que a queimada se repetia da mesma forma em todos os governos, acabou se saindo pela tangente, com esta: “Devemos combater um problema de cada vez. Você notou, por exemplo, que não se fala em corrupção na presidência?”

Não era o caso de, naquele momento, quando me preocupava a destruição da Amazônia, desde sempre estimulada pelo atual ocupante da presidência, abrir novo debate, mas havia, ainda que produzido de modo inconsciente, algo de revelador na pergunta.

De fato, a corrupção não andava ocupando as pautas. E, como por encanto, aquilo de que não se falava havia deixado de existir. Foi assim também na Ditadura: não havia corrupção, porque ninguém falava nela.

Claro, a comparação com a Ditadura não é a mais adequada, porque naquela época havia censura e perseguição, e era impossível uma investigação jornalística com semelhante pauta. Já no atual governo, a vocação totalitária já tantas vezes vocalizada não chegara ao ponto de calar a imprensa.

Mas não só na ditadura vigoram silêncios, e muitas explicações podem ser pensadas para situações de silêncio, além do raciocínio óbvio de que, por não se falar em corrupção, ela não existe: pode, por exemplo, decorrer de uma trégua inicial a um governo empossado há pouco; pode ser também uma atitude conivente para com quem joga o jogo desejado. Nessa última hipótese, por que atrapalhar quem está empenhado em produzir as mudanças desejadas pelo mercado?

Mas o debatedor, que chamava a atenção para a falta de notícias sobre corrupção e dela concluía que a corrupção acabara, não lembrava de um ponto, que podia não ser manchete, mas teimava em aparecer em algum rodapé de página interna: o rápido enriquecimento da família presidencial, as evidências de extorsão dos funcionários de gabinete, as ligações com as milícias. E, nisso tudo, a proximidade com os fatos que envolvem a morte de Marielle Franco.

Nada dizia o eleitor ainda orgulhoso sobre o sumido Queiroz, nada dizia sobre o Escritório do Crime e as promíscuas relações da família com os integrantes do crime organizado.

Sumido Queiroz, sumido também estava Adriano Nóbrega, chefe do Escritório do Crime, outro nome citado nas investigações das rachadinhas e acusado da morte de Marielle. Sumido até hoje, quando foi morto em confronto com a polícia.

Dizem que foi queima de arquivo. Não sei se foi, mas certo é que o arquivo está morto, e foi fechada mais uma porta para saber quem mandou matar Marielle.

E eu aqui lembro do eleitor orgulhoso com o fim da corrupção: sem arquivo, não se fala em corrupção; logo, ela acabou.