Carta à Panvel

Senhor Presidente:

Sou cliente da Panvel, com cartão e tudo. Se mais não compro, é porque felizmente não cheguei ainda àquela idade em que a maior parte da nossa poupança é destinada a medicamentos. Mesmo assim, são décadas de fidelidade, que vem desde a época da Panitz e da Velgos. Para que tenha uma ideia, lhe digo que há um par de anos abriu perto de minha casa uma farmácia que praticava preços melhores, mas continuei a comprar da Panvel.

Nunca houve um motivo particular para isso, mesmo porque não sei se há diferença de qualidade em relação às outras farmácias. Talvez seja mais uma manifestação inconsciente de uma certa mística gaúcha, que em outros tempos me fazia voar com a Varig e continua a me sugerir que abasteça nos Postos Ipiranga. Talvez conte ainda o germanismo do nome Panitz. São, de qualquer maneira, manifestações atávicas, sem explicação racional, que me fazem desviar o passo, mesmo quando há farmácia mais próxima e mais barata.

Escrevo no meu blog bissexto, que andava meio esquecido. Poucos o leem, mas tenho esperança de que a carta chegue ao destinatário. Se escrevo aqui é porque não consegui contato direto ontem. Confesso que não procurei muito para localizar a ouvidoria, mas, quando cliquei no fale conosco, e iniciei o assunto dizendo que pensava em deixar de ser freguês, em dois segundos um eficiente robô respondeu que não havia esse produto no estoque.

Penso até que havia assuntos mais importantes para abordar num texto de blog, nesta semana cheia de notícias. Poderia falar de Davos, poderia falar da decisão do Banco Central de não mais rastrear parentes de políticos ou do decreto do Presidente em exercício para tornar sigilosos atos administrativos, ou mesmo da vinculação da família presidencial a pessoas que comandam o crime organizado no Rio de Janeiro, este mesmo que causa a saída de Jean Wyllys do Brasil.

Ao final, havia decidido escrever uma carta a ele, exilado do Brasil por conta de tantas ameaças (e a morte de Marielle, que, segundo um ministro, tem importantes políticos envolvidos, demonstra que tais ameaças não devem ser menosprezadas).

Decidi escrever a Jean Wyllys antes da tragédia de Brumadinho, com suas centenas de mortos, neste país em que Mariana não serve de exemplo e no qual não se dá atenção para a derrubada da Amazônia e ao genocídio indígena, mas se elege um presidente que promete desmontar o IBAMA.

São todos assuntos sobre os quais eu – o senhor certamente não – poderia escrever. Mas, antes mesmo de saber de Brumadinho, e logo após o robô me dizer que não vendiam freguês, mudei o foco da minha decisão anterior de escrever a Jean Wyllys, para escrever ao senhor.

Sou lá da colônia, como se dizia antigamente. Meu pai criou com dificuldade seus onze filhos, trabalhando como alfaiate, tarefa eventualmente interrompida para vender sapatos da sua lojinha aos colonos da localidade. Ele sempre nos dava conselhos, e um deles era este: não se metam em política, porque política não é para os pequenos e você sempre corre o risco de perder metade dos seus fregueses.

Eu não concordava com meu pai, e achava que política era uma obrigação, e mesmo os pequenos precisavam dela para se defenderem. De qualquer maneira, essa premissa da sua lição não se aplicaria à Panvel, porque é a maior rede de farmácias do Rio Grande do Sul. Aliás, acho que meu pai sabia que os grandes faziam muito bem política, e isso os fazia ainda maiores. Mas esta já é outra história.

Não há, portanto, a menor razão para eu censurar sua opção por fazer política: faz parte do business. Agora, o que eu não esperava era o vulgar comentário nas redes sociais, dizendo que Jean Wyllys não fará falta ao Brasil.

É isso que o presidente da Panvel pensa? Ele não se preocupa com o que leva Jean Wyllys a sair? Ao invés de se preocupar com o crime organizado, que invade as entranhas do Estado, acha bom que suas vítimas tenham de fugir do Brasil? Acha bom que sejam caladas as poucas vozes de resistência das pessoas sofridas desta pátria cada dia mais perversa?

Não tenho a ilusão de que muitos outros empresários pensem diferente, mas eles ao menos têm a prudência, se não a dignidade, de não botar lenha na fogueira.

Também não tenho a ilusão de que a Panvel pense mais do que em lucrar, o que não é um defeito no capitalismo. Admiro empresários que se comprometem com causas edificantes, como vejo na Fundação Abrinq ou na Fundação Boticário, mas são exceções, e não exigiria isso da Panvel.

Aliás, queria mesmo elogiar sua iniciativa de oferecer no caixa produtos destinados a necessitados. Numa de minhas últimas idas à farmácia, ofereceram produtos de toucador, para serem destinados a um asilo ou a imigrantes venezuelanos, e eu contribuí. Claro que quem dava o dinheiro era o cliente, para comprar mais produtos Panvel, mas mesmo assim achei meritória a iniciativa, num país em que tão pouco acaba por ser muito.

Nos últimos tempos, vi muitas sugestões de boicote a empresas. São tantas e por tantos motivos, que me perco e acabo por não lhes dar importância. Claro que algumas são muito eloquentes, como a daquele empresário catarinense que produziu vídeos degradantes em que perfilava seus empregados como se fossem autômatos sob seu comando, mas nem nesse caso tive a oportunidade de boicotar, porque nunca antes havia comprado dele.

Mas de vocês eu sempre comprei, e o senhor, presidente, tocou num ponto que me é muito caro. Mesmo que, vendendo medicamentos, seu lucro venha da doença, por suposto a empresa se preocupa com a saúde. Mas falta se preocupar com a saúde do Brasil, falta se preocupar com a perversidade, e o senhor fica feliz quando um deputado se exila para não ser morto.

Lhe pergunto: quais políticos desta Nação fariam falta e quais não fariam falta? Será que a Panvel me faria falta se eu passasse a comprar naquela farmácia que abriu perto da minha casa?

Sei que vocês pediram desculpas. Quero dizer que não desculpo, porque não vi sinceridade. O que vi foi uma resposta burocrática, porque pegou mal e algo tinha de ser feito para não prejudicar a imagem da empresa e não perder clientes.

Se fosse sincero, haveria um anúncio de medida efetiva para comprovar que a política da Panvel vai no sentido contrário ao da infeliz fala de seu presidente.

Mas aí seria esperar muito.

Peço desculpas pela extensão da mensagem. Concluo dizendo que tenho uma lista de compras a fazer, e pensei em fazê-las hoje, aproveitando minha ida ao supermercado. Mas não tenho certeza de que não deva mudar para o pretérito o verbo utilizado no primeiro parágrafo.