Juiz de merda

Sou eu, segundo uma gentil senhora que comentou meu último texto. Outros, igualmente gentis, me contemplaram com o desejo de que algo de muito ruim acontecesse com algum familiar ou a sugestão de que desse abrigo a um vagabundo na minha casa. Vários vieram com o simpático bandido bom é bandido morto. Geralmente, acompanhava a mensagem a ideia de que um dia eu ainda precisaria da Brigada Militar. Esta ideia se desdobrava em duas conclusões possíveis: a de que nesse momento eu saberia lhe dar valor e a outra, dos mais entusiasmados, que me negava a proteção da gloriosa, por eu ser inimigo.

Num outro tom, não faltaram críticas aos juízes que soltam os bandidos e alusões ao fato de que juízes vivem em gabinete e nada sabem da vida, porque dela só entende quem põe a mão na massa.

Não me surpreendi, porque sabia que isso aconteceria ao escrever um texto sobre acontecimento traumático, no qual rompia a lógica binária da luta do bem contra o mal. Afinal, neste mundo, em que o bem é sempre bem e o mal sempre mal, quem ousa criticar os legítimos representantes do bem é automaticamente alinhado com o mal. Nada existe além dessas duas entidades, e o julgamento é sumário: a crítica ao policial que fuzila o vagabundo só pode significar um alinhar-se ao vagabundo contra o policial.

Muito já se escreveu sobre a internet ter dado voz aos imbecis, e não vou perder tempo em generalizações, mas as ofensas pronunciadas nesse contexto nada mais são que a expressão da indigência intelectual de quem as profere. Incapaz da formulação de raciocínios mais complexos que o de eleger o lado dos bons e o lado dos maus, sua vida se resume a classificar todas as pessoas e situações conforme esses critérios elementares e, à falta de razões minimamente inteligentes, ataca os do mal com os únicos argumentos que consegue formular.

Mesmo quando se depara com outra oposição binária, como a de civilização-barbárie, que apresentei, fica atrapalhado, porque surgem nuances, em que se espera do representante do bem algo inimaginável, como deixar de matar o representante do mal. Afinal, nessa infinita luta, só nos sentimos aliviados quando o lado negro da força é esmagado.

E o argumento que desautoriza a opinião formulada do gabinete é a fina flor desse pensamento: os sonhadores, esses que nada conhecem da vida, ficam inventando teoria e defendendo bandido, ignoram a selva que é este mundo, em que a polícia age como se fosse o anjo do senhor para fulminar os representantes de lúcifer. O mundo é uma guerra permanente, não percebida por intelectuais que se isolam em seu gabinete, mas só por quem está na rua, em pleno campo de batalha.

E o pior de tudo é que parecemos estar todos submetidos a esse zoroastrismo, e só à custa de muito esforço conseguimos escapar à lógica binária. Quem de nós se preocupa em discutir as causas da criminalidade? E, quando digo nós, já não me refiro a essas gentis pessoas do primeiro parágrafo, mas a juízes e promotores que pronunciam com gosto a palavra vagabundo, a jornalistas que aplaudem uma execução, a pessoas que têm a obrigação ética de pensar e não o fazem.

Mas, não, não vejo nada vir daí. Às vezes ouço, em suprema concessão, dizerem que, de fato, a sociedade deveria ser mais justa, haver menos pobreza, que talvez então diminuísse a criminalidade, mas enquanto isso não for resolvido a solução é esta mesma.

E as ladainhas se sucedem. Não param de dizer que a polícia prende e o juiz solta, ignorando que há décadas as cadeias estão superlotadas e que a situação chegou a um ponto insustentável. Ignoram que nunca houve tantos presos e mesmo assim a criminalidade aumenta. Mas isso não interessa, e é melhor mesmo que a polícia mate o vagabundo, porque é um a menos a ocupar vaga e um a menos para nos assaltar no futuro.

E ai do juiz de merda que se atreva a dizer o contrário.

A ilustração é A queda dos anjos reberdes, de Bruegel, o Velho.